sorriso

Um dia sem sorrisos

Rodolpho Padovani

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma.

Me
  • Sobre saber abrir e fechar portas



    Existem inúmeros provérbios e ditados retirados dos maravilhosos clichês da sabedoria popular sobre os recomeços, mas não vai ser sobre eles que eu vou falar. Acredito que tão importante quanto saber recomeçar é saber dar continuidade ou finalizar. Você já parou para pensar em quantas coisas abandonou pelo caminho por algum motivo qualquer? Já pensou naqueles três pontinhos que colocou onde deveria haver uma vírgula ou até mesmo um ponto final?

    Há uma certa dualidade nisso tudo, sobre o que deixar partir e o que levar adiante, mas acredito que cada um sabe sobre suas interrupções e conclusões. Cada um sabe quando é preciso ir em frente e quando terminar a jornada, embora seja sempre mais fácil falar do que fazer.

    Há momentos em que sentimentos rotulados ou sem nome são mais fortes e nos fazem estancar no meio de um passo, desistir antes da próxima curva e guardar no bolso um sonho sufocado e irrealizado, mas não são esses momentos que nos definem. Há tanto mais para saber, ver e viver que parar no meio caminho me parece covardia demais. Se os finais são necessários, não os prenda, deixe-os surgir; se há que continuar, então prossiga.

    Algumas interrupções podem ser perigosas, pois elas ficam espreitando para nos assustar quando estivermos desprevenidos, ao mesmo tempo em que não são vistas, sua presença paira no ar como nuvens carregadas prestes a se rebelar e trazer tempestades, o melhor a se fazer é acabar com elas como se fossem ervas daninhas que corrompem a beleza de um jardim. É preciso ter coragem para dar um basta e convicção para torná-lo resistente o suficiente. É preciso vontade para impedi-las de continuar. Algumas portas devem ser trancadas de uma vez e suas chaves perdidas. Há passados que pertencem somente ao passado. Se puder fazer sozinho, faça, se não conseguir, peça ajuda. O importante é barrar que algumas coisas o persigam pelo resto da vida e te impeçam de viver.

    Outras pausas, porém, foram feitas por impulso, foram deixadas de lado por receio, insegurança ou apenas esquecidas nas voltas do tempo. Elas podem nos assombrar pedindo por seus finais, e sempre presentes na lembrança do que nunca existiu e na tristeza do não saber. Tire a poeira daquele sonho engavetado e faça-o respirar cores novamente; substitua as expectativas frustrantes por uma esperança renovada e sem amarras; desempacote seus sorrisos e leve-os para passear; reconecte-se consigo mesmo e descubra novos brilhos dentro de seus olhos; aprenda novas canções ou cante sem saber a letra; destranque as portas que te impedem de seguir e viva.


    Que a velha sabedoria dos ditos populares e de todos os clichês te ajudem a discernir os livramentos daquilo que merece uma segunda chance; que você possa enxergar as novas possibilidades e agarrar as oportunidades que surgirem pelo caminho; que nenhum sonho morra por falta de tentar; que nenhuma esperança se perca por fraquezas. Que seus novos capítulos tenham as mais variadas pontuações e menos reticências possíveis. 

    Mais um ano que se termina e mais um que eu passei longe daqui, para variar, dessa vez eu procrastinei mesmo, não vou culpar o tempo. Meu desejo para 2018 é que o bom senso faça parte de cada um e nos permita usar as pontuações corretas nos parágrafos e travessões de nossas vidas. Que haja coragem para continuar, determinação para concluir e novas histórias para viver. 
  • Esse eu fiz para ela


    (...) She's the hand that I wanna hold,
    The story that never gets old
    She's a melody flowing soft and sweet
    She's the song that I wanna sing...


    Ela é aquela que acorda nas manhãs com um sorriso no rosto e música na alma e avisa o sol que está na hora de brilhar. É quem fita o horizonte com olhos cheios de esperança, pois sabe que a promessa de um dia bom está esperando na esquina. É quem canta sem saber a letra e sorri os sorrisos mais doces de café da manhã.
    Ela é quem tropeça nos próprios pés e ri de si mesma, é quem consegue desestruturar as fibras do universo somente por fazer parte dele e o universo em si, assim como a vida e tudo mais a agradecem por ser desse jeito.
    É ela que enxerga o melhor das pessoas com uma lente de aumento e que traz o melhor de mim com uma facilidade de dar inveja. E ela que me inspira e é para ela que eu escrevo.

    Ela é canção, é dança, é arte. É poema, é rima, é verso.

    Ela é quem segura minha mão quando precisa, quando eu preciso. É quem divide a cena comigo nas comédias e tragédias da vida. Ela é frase, é capítulo, é o livro todo. Ela é minha história favorita. Minha lembrança mais bonita, minha gargalhada mais sonora.
    Ela é beijo de bom dia e boa noite, é abraço de chegada e despedida, é amor e prazer.
    Ela é aquela que sabe o que dizer, que diz em silêncio e fala com o olhar. É quem ouve e compreende. É quem faz planos e acha graça quando metade deles não acontece como queria, pois há sempre uma história para contar.

    Foi ela que chegou de repente, esbarrou no meu caminho e clareou minha estrada. Foi por ser no momento ideal que tudo se fez certo. Foi por ser certo que tudo se fez real. Foi ela quem me deu novos sabores, apresentou novas cores e me fez respirar outros ares. É ela quem faz isso até hoje, me proporcionando novidades e quebrando rotinas. É ela quem me conhece e quem me aceita.

    Ela é a dona dos meus apelidos carinhosos e constrangedores. A companheira dos dias cinzentos e frios. A voz esperada nos fins de tarde. O amor que a vida me trouxe após vários desencontros.

    É ela que está lá quando olho para o futuro. É ela que está nos meus capítulos futuros. E foi para ela que essas palavras se juntaram. Só para ela.
  • O moreno cordelista



    No rancho fundo
    Bem pra lá do fim do mundo
    Onde a dor e a saudade
    Contam coisas da cidade (...)

    De todas as histórias de amor, as que mais doem são a dos amores não vividos.
    Vou lhe contar então a história de um moço que aprendeu a despejar sua dor em versos, enquanto espera que suas palavras encontrem sua fonte de inspiração.
    Não se assuste com as estrofes que encontrar pelo caminho, pois a história desse moço ora rima com amor, mas sempre rima com saudade.

    Todo dia ele sai de casa e vai até a cidade, carregando na mala surrada seu trabalho, sua arte. Nas ruas de pedra do centro ele monta sua barraca, pendura os barbantes e neles seus livretos repletos de versos tristes sobre um amor que jamais viveu.
    As pessoas já o conhecem pelo semblante pesaroso, pelo sorriso sem alegria e olhos marejados, mas nem todos que leem sua obra conhecem a dor que ele carrega no peito.

    Quando a noite se derrama,
    a lua sobe na encosta,
    lá de cima ela olha
    para o moço de quem gosta,
    mas ele só pensa na morena
    que um dia lhe deu as costas.

    Eles moravam a poucas fazendas de distância, estudavam na mesma classe e vez ou outra caminhavam juntos para casa depois das aulas. Com o tempo o amor pueril de criança começou a brotar no peito do menino e ele o alimentava com sonhos ingênuos e esperanças descabidas.
    Sonhava acordado, imaginando os dois em uma casinha simples, janta na mesa e um filho ou dois correndo no quintal. Nem sempre era assim, mas quando criava o futuro em sua mente, sua pequena morena sempre estava lá, com o sorriso radiante feito o sol que sai detrás de uma nuvem marota.

    Foi na infância que o moreno
    conheceu o tal do amor.
    Mal sabia o pobrezinho
    que o que lhe esperava era a dor,
    Pois a morena foi simbora
    para casar-se com o doutor.

    O tempo passou e ele permaneceu calado, guardou todo seu amor em uma gaveta escura e nunca permitiu que ela pudesse vê-lo. Ele não suportaria a dor de ser rejeitado e quando menos percebeu, havia trocado essa dor por uma que machucou na mesma medida.
    A pequena, certo dia, engraçou-se com o jovem médico da cidade. O doutor de fala mansa, bonito e bem vestido, conquistou a morena com seus modos educados e lhe entregou um amor cheio de promessas de aventuras pelo mundo afora.

    Desde então esse moreno
    afundou-se em solidão,
    pois sente em seu peito
    um despedaçado coração
    que bate descompassado
    por uma triste ilusão.

    Sua única companhia depois que ela se foi foram seus cadernos e a caneta. Ele começou a escrever histórias melancólicas em versos e rimas e com o tempo tornou-se famoso por aquilo que escrevia, atraindo várias pessoas curiosas pelo seu talento, contudo nunca conseguiu atrair aquela que mais queria.

    Até hoje ele espera
    pela volta da morena,
    enquanto escreve versos
    que sua dor amena,
    torcendo para que eles
    lhe tragam sua pequena.

    Quem sabe algum dia eles voltem a se encontrar ou que o coração do moreno se abra para um novo amor. Se isso acontecer, vamos torcer para que ele o viva dessa vez e não apenas escreva sobre o que poderia ter sido e não foi.


    Saí de meu ostracismo literário, pois o dia de hoje pede. Que os escritores de todos os tipos continuem encontrando sua inspiração e nos presenteando com as mais incríveis histórias, um feliz dia do escritor para todos esses lindos.
  • Que seja ímpar

                                              Foto por: Amanda Lisbôa

    ♪ "I wanna see the world,
    I wanna sail the ocean
    I wanna know what it feels like 
    to never come back again..." ♫

    Dizem que mares calmos nunca fazem bons marinheiros. É preciso emoção, caos e até um pouco de sofrimento para aprender certas coisas, pois as lições que a vida nos dá nem sempre são fáceis como a tabuada do cinco, a maioria dos problemas demanda muito mais paciência da qual, nem sempre, estamos dispostos a ceder. O aprender é cotidiano, há sempre algo novo para saber e descobrir. Sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre nós mesmos.
    Cada dia somos desafiados de alguma maneira, como um barquinho navegando em ondas ora tranquilas, ora furiosas e o mar, ah, o mar, ele é de uma imprevisibilidade assustadora. Não há como se preparar para as surpresas que aparecerão durante o percurso, jamais saberemos se uma pescaria vai render ou não nem se sairemos ilesos da viagem para poder aportar novamente.

    Certamente vamos cruzar com diversos outros navegantes, uns mais perdidos que outros; alguns guiados por bússolas, pelas estrelas, pelo vento; alguns seguros de para onde querem ir, mas não tão confiantes de como chegar lá; haverá aqueles que navegam há muito tempo e já adquiriram uma experiência razoável, mas que ainda cometerão erros; aqueles mais novos e aventureiros que ainda enfrentarão muito tempo ruim até o fim do trajeto. O fato é que todo tipo de pessoa, de sorte e de clima estarão à espera, saber reagir a eles é a prova maior.
    Haverá dias em que a tormenta será tão forte que pensaremos em desistir ou em ancorar em algum lugar ao qual não pertencemos; dias de sol que se transformarão em chuva e dias de chuva que se tornarão limpos feito paisagens pintadas; dias de solidão e dias de companheirismo; dias de abraços curtos nos encontros e de abraços longos nas despedidas; dias de todas as cores, sabores, tamanhos.

    Há uma nova viagem prestes a começar, um novo mar de possibilidades, escolhas e desafios pela frente. Desejo que as lições sejam aprendidas, que seu barco seja forte o bastante para resistir às provações, que sua tripulação seja a melhor possível. Que haja dias de sol e de chuva, de céu aberto e de nuvens coloridas. Que as ondas sejam amigáveis, principalmente quando você pensar em abandonar tudo. Que você veja novas cores, prove novos sabores, ouça novas melodias, sorria os sorrisos mais sinceros e dê as gargalhadas mais sonoras. Que encontre seu porto seguro se ainda não tiver ou mantenha-o se já o possuir.
    Desejo ainda que você torne sua viagem mais importante que seu destino. Que volte se for necessário, que ancore em outro lugar quando encontrar morada, que viva. Que essa nova aventura seja ímpar.

    Dizem também que depois da tempestade vem a calmaria. Que assim seja.

    2016 foi um daqueles anos que a gente ainda vai falar muito, seja mal ou bem, porque foi um ano que ainda estamos tentando entender e muita coisa a gente só entende depois de um certo tempo. Vamos aguardar então. Espero que o próximo ano seja memorável também, mas muito mais recheado de coisas boas, que os desafios sejam vencidos, que todos possam sair de sua zona de conforto e conhecer a si mesmos um pouco mais. Que grandes histórias estejam por vir.


  • 7 anos de sorrisos


    Datas são coisas que se tornaram constantes em minha vida, elas chegaram tão sorrateiras que quando percebi já estavam todas lá, esperando pacientemente seu dia de celebração, afinal sou sortudo a ponto de poder comemorar o dia do tradutor, do internacionalista, do escritor e do professor, além disso, tenho várias outras datas lindas que comemoro ao lado daquela que me faz sorrir dia após dia.
    E hoje, como não poderia deixar de ser, é aniversário do blog e puxa, ele já está com quase 10 anos de idade. Juro que nunca imaginei que fosse chegar até aqui. 7 anos, mais de 400 postagens e incontáveis memórias e bons momentos que passei do lado de cá da tela criando, aprendendo, escrevendo e crescendo, são muitos gerúndios, mas são muitos anos também.
    Tenho um grande apreço por esse meu cantinho, embora eu não seja tão dedicado a ele quanto fui nos seus primeiros anos, muita coisa mudou de lá para cá – eu sei que isso não justifica nenhum abandono – mas esse é um lugar do qual não importa quanto tempo eu passe longe, sei que sempre vou poder voltar e revisitar o antigo eu e suas criações mirabolantes e isso é incrível, principalmente por poder enxergar as mudanças que ocorreram em mim e na minha escrita.
    Tenho orgulho do que construí até aqui, não sei como serão os próximos anos, não vou fazer promessas que não sei se vou cumprir. Contudo, espero um dia aprender a parar de culpar o tempo pelo meu ser relapso e me responsabilizar completamente por não andar por aqui com mais frequência.

    A quem ainda se perde no meu caminho e vem nessa direção, meu singelo agradecimento e que nossos caminhos possam se topar mais vezes.
  • A moça, as flores e a caixa de correio



    As flores sempre estiveram ao seu redor, como pequenas confidentes e conhecedoras dos segredos que ela não contava para ninguém. Ali na floricultura em que trabalhava, a moça havia aprendido a arte de cuidar de suas amigas coloridas, desde borrifadas de água em dias de calor a sussurros de incentivos aos botões que tinham preguiça em desabrochar. Por falar nisso, as raízes da história dessa moça estavam fincadas em um lugar muito longe dali, onde as flores também faziam parte. Talvez seja importante para o seguimento dessa narrativa que você saiba do que estou falando e mais uma vez perdoe-me a intromissão de me colocar no meio da história de modo tão invasivo.

    Fora há vários anos que ela, então uma menina, junto de sua família, morava na fazenda de leite. Ela adorava o cheiro das manhãs de primavera e a promessa de chuvas delicadas que regavam os jardins do mundo. Lá de longe observava a estrada de terra batida onde a caixa de correio acenava com seu bracinho sempre que estava de barriga cheia, então ela corria ao seu encontro, a fita azul em seu cabelo sacudindo pelo vento, recolhia todos os envelopes, saudava o velho carvalho e voltava para casa com ar satisfeito de quem acaba de fazer uma tarefa com louvor.
    Um dia, ao fazer seu dever de coletora das cartas, ela levara consigo o terrível destino de sua família. Uma ordem de despejo. Algo sobre o alto custo dos impostos, que ela não entendeu muito bem na época, só sabia que teriam que deixar a casa. O dia de partir foi extremamente triste, quando ela olhou para sua casa pela última vez e a viu tornar-se um pontinho distante no horizonte na medida em que se afastava do cenário de sua história de vida.

    Desde que partira, ela só havia retornado à casa poucos meses atrás, no início do outono. Como instigada por seu espírito de criança, ela recolheu as cartas e botou o braço da caixa de correio para descansar. Pouco havia mudado. As flores ainda estavam lá. O velho carvalho também. E a casa abandonada.

    Em seu trabalho na floricultura, ela assistia os sorrisos das pessoas que compravam e imaginava qual seria a história por trás deles. Havia um rapaz que quase toda semana aparecia e comprava uma flor diferente. Apenas uma e de uma cor variada a cada vez. Ele sempre aparentava estar um tanto nervoso e inseguro, mas ela o atendia da melhor maneira que podia.
    - Eu sempre fiquei imaginando qual seria sua favorita – ele enfim falou e apontou para as flores.
    - Todas elas são – ela admitiu – Você deve ter alguém que gosta muito de flores.
    - Na verdade não – seu sorriso tornou-se embaraçado – Eu só venho até aqui para poder ter ver e acabo comprando uma flor para não ficar muito sem graça – o rosto corou-se.
    Ela abaixou a cabeça constrangida e sentiu o rosto queimar. Um sorriso involuntário não se conteve. Ele percebeu que havia cometido um erro e afastou-se em silêncio.
    - Sempre tive uma queda pelas petúnias – ela murmurou enquanto ele se aproximava da porta.

    Os dois passaram a se conhecer aos poucos e entre flores a história deles começou a ser escrita. Ambos compartilhavam de várias coisas em comum e uma semente de sentimento começou a brotar no peito de cada um. Ela enfim encontrou alguém além das flores a quem pudesse contar seus sonhos e desejos.
    Numa tarde de sol de primavera, ela o levou até a casa na colina, contou-lhe sua história e confessou que estava fazendo o possível para recuperá-la. Ele disse que a ajudaria com o que fosse necessário e o vento ao redor trouxe burburinhos de comemoração. Ela não disse nada na hora, mas jurava que eram as flores na estrada festejando seu retorno.


    Se ela vai conseguir realizar seu sonho, só o tempo vai dizer. Por ora, façamos como as flores, vamos torcer.

    Essa história é a terceira parte e conclusão de uma história começada há mais de cinco anos (sim, eu sei, é muito tempo), mas cada parte se mantem por si só. A quem se interessar pode ler as anteriores aqui e aqui.
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