6.14.2019

(Re)conecte-se




♪ (...) I owned every second that this world could give

I saw so many places, the things that I did
Yeah with every broken bone
I swear I lived... ♫


Não era velho quando encarou-se no espelho, as rugas ainda se escondiam, mas davam sinal de sua futura presença, a quantidade de cabelo não era a mesma e uns fios brancos surgiam despretensiosos aqui e ali, os olhos que o encaravam de volta eram indagadores, inquisidores até, como se perguntassem “onde foi que você esqueceu de si mesmo no caminho?”. Mergulhou na pupila negra, ambiguamente rasa e profunda e deixou-se levar nas lembranças de tempos mais leves, saltitando em fragmentos perdidos na memória e revisitando velhas moradas.


Imaginou o tempo como um cão que gira sem parar em busca do próprio rabo, esse pensamento fez um riso desprender-se da garganta, engasgado e tímido como se não soubesse muito bem o que fazer na luz do dia. Lembrou-se então de uma variedade de risos e gargalhadas que fizeram parte da trilha sonora de um passado não tão antigo e sentiu no paladar o sabor agridoce da nostalgia que o aquecia por dentro feito um gole de chocolate quente num dia frio. A saudade de ser quem era em tempos despreocupados; a saudade da própria saudade.


Continuou em sua jornada, analisou algumas encruzilhadas vencidas e avistou o vulto de um eu anterior, de anos e décadas atrás, um eu inseguro de muita coisa, mas ciente de sua essência; um eu que sabia de si, do agora e não temia o futuro; um eu que mal sabia dos capítulos que se iniciariam e se encerrariam ao longo da vida. Aquele seu eu, menino, de fácil agrado, vivendo de aprendizados contínuos e erros achava que sim, mas não entendia da vida, ainda não.


A vida, por sua vez, havia lhe trazido tantas surpresas, nos mais diferentes embrulhos e nos mais improváveis momentos, preparando-lhe pouco a pouco para cada uma delas, costurando linhas invisíveis de uma tapeçaria que ele só compreenderia mais tarde ou talvez apenas fingiria estar entendendo os mecanismos e engrenagens da grande máquina do universo, como um pseudo-crítico-de-arte-moderna diante de um quadro que não significa muito além daquilo que se vê. Ele não sabia dar sentido para tudo, já desistira de tentar, pois tinha certeza que seria em vão, há muito mais com o que se preocupar e o tempo se tornou um bem valioso que não pode mais ser desperdiçado com pequenices.


Suspirou, mantendo a respiração presa por um segundo, retornando ao seu presente que olhava de seu rosto para o relógio, batendo impaciente o pé no chão num chamado para ação, reação, conexão ou qualquer outra coisa que o tirasse dali. Soltou o ar dos pulmões, sentindo o corpo ligeiramente mais leve, como se somente naquele instante estivesse compreendendo a máxima de que há momentos que podem ser eternos mesmo que já tenham acabados. Sorriu torto para si mesmo, desvencilhando-se do reflexo com um ar de quem sabia que algo importante havia acontecido, embora não soubesse exatamente o quê.
Compartilhe:    Facebook Twitter Google+
Continue lendo

7.25.2018

Dos caminhos que se foram e dos que hão de ser




Quando olhava para trás via sua vida como um longo pergaminho desenrolado, que se esticava em busca do horizonte até onde os olhos conseguiam ver, cheio de linhas preenchidas com as mais variadas palavras pinceladas pelo estilo característico daquele que o criou. Releu algumas de suas passagens preferidas; sorriu sorrisos diáfanos que outrora haviam sido coloridos; franziu a testa ao reviver trechos dos quais discordava dos caminhos tomados por seu criador; sentiu a coceira da rinite na ponta do nariz ao revisitar lembranças empoeiradas e esquecidas de parágrafos que jaziam lá no começo de tudo; olhou através do véu que cobria o passado e vislumbrou seus encontros e desencontros, amores e desamores, sabores e dissabores; escutou, ainda que abafado pela distância, o eco das músicas que lhe deram vida. Observou cada detalhe, tomando-os delicadamente nas mãos, como quem segura um filhote de pássaro, os olhos marejaram involuntariamente enquanto depositava sua história no bolso da calça surrada que vestia.

Parado no ponto onde estava, no presente do que já foi, no passado de um futuro que será, preso no limbo de uma meia existência, ele tentava entender as opções que tinha. Olhava para frente e via o nada, uma trilha em branco, desprovida de continuidade, continuamente sem vida. Não havia cor, som ou sabor. Nada de amor, dor nem rancor. Apenas uma encruzilhada de um caminho só que ainda não aprendera a se bifurcar. Incertezas e interrupções bruscas, falas não ditas, frases não escritas e uma completa incompletude. Não havia como retroceder para páginas passadas, recolher-se miudamente entre as linhas e esperar. Mas esperar o quê? A espera era o mal de sua essência, era o esquecimento que o amarrava no mesmo lugar.

Ele não estava só, sabia disso. Havia outros como ele, alguns em situações até piores, que caminhavam na linha tênue entre viver e deixar de existir. Alguns conhecidos empacados em páginas anteriores, congelados na expectativa do vir a ser, acorrentados num imaginário sem paredes. Todos eles estavam à deriva na vastidão de um mar sem movimento, com o nada em vista não importava para que lado olhassem.

Ele pensou que deveria agir, tomar alguma atitude que o livrasse daquele anseio, que lhe desse novamente um propósito de vida, que lhe trouxesse as respostas dos porquês, onde, quando e como. Se o seu criador o esquecera trancafiado em uma gaveta escura, era seu dever elaborar uma fuga e fazer-se ser lembrado outra vez. O personagem ponderou por mais algum tempo de um tempo que não se media, buscando entender o paradoxo de seu mundo e encontrar uma maneira de esgueirar-se para outro. A estrada em branco pela frente precisava ser preenchida. Conversou com outros personagens, mandou recados para aqueles que não conseguiam lhe ouvir, trocaram ideias e arquitetaram um plano mirabolante.

Pouco a pouco, começaram a construir seu próprio futuro, um mosaico montado com palavras recortadas de antigamente que preenchiam a brancura que havia pela frente. Transportaram para as páginas em branco travessões para dar vida a seus apelos, interrogações que questionavam o abandono, exclamações que demostravam suas insatisfações, uma porção de vírgulas, pontos finais e tudo mais que achavam que mereciam. A cada fragmento completado eles caminhavam mais próximo de uma verdade que nem sabiam o que era, desvendavam mistérios a seu bel prazer conforme seu vocabulário limitado permitia.

No final o caminho percorrido estava mais longo, mais esburacado e desconexo, até, mas completo. Não havia mais amarras, mais ninguém perdido sem saber para onde ir nem pendurados em abismos esperando por salvação. Não foram todos que chegaram até ali, houve lágrimas, despedidas, tristezas misturadas com vitórias, alegrias misturadas com choro, tudo remendado um no outro da maneira mais perfeita que conseguiram fazer utilizando os retalhos de suas próprias histórias.

Os personagens se preparavam para a colocação do último ponto final, daquela peça restante que completava todo o quebra-cabeça; o fizeram com pompa e glória, orgulhosos de terem aprendido a lição de que podiam escolher seus finais sem depender de um criador negligente.

O que eles não sabiam nem nunca saberiam era que aquele era exatamente o destino deles concebido na cabeça do escritor

.


Porque o Dia do Escritor é um daqueles que precisam ser celebrados entre as palavras. 
Compartilhe:    Facebook Twitter Google+
Continue lendo

12.29.2017

Sobre saber abrir e fechar portas



Existem inúmeros provérbios e ditados retirados dos maravilhosos clichês da sabedoria popular sobre os recomeços, mas não vai ser sobre eles que eu vou falar. Acredito que tão importante quanto saber recomeçar é saber dar continuidade ou finalizar. Você já parou para pensar em quantas coisas abandonou pelo caminho por algum motivo qualquer? Já pensou naqueles três pontinhos que colocou onde deveria haver uma vírgula ou até mesmo um ponto final?

Há uma certa dualidade nisso tudo, sobre o que deixar partir e o que levar adiante, mas acredito que cada um sabe sobre suas interrupções e conclusões. Cada um sabe quando é preciso ir em frente e quando terminar a jornada, embora seja sempre mais fácil falar do que fazer.

Há momentos em que sentimentos rotulados ou sem nome são mais fortes e nos fazem estancar no meio de um passo, desistir antes da próxima curva e guardar no bolso um sonho sufocado e irrealizado, mas não são esses momentos que nos definem. Há tanto mais para saber, ver e viver que parar no meio caminho me parece covardia demais. Se os finais são necessários, não os prenda, deixe-os surgir; se há que continuar, então prossiga.

Algumas interrupções podem ser perigosas, pois elas ficam espreitando para nos assustar quando estivermos desprevenidos, ao mesmo tempo em que não são vistas, sua presença paira no ar como nuvens carregadas prestes a se rebelar e trazer tempestades, o melhor a se fazer é acabar com elas como se fossem ervas daninhas que corrompem a beleza de um jardim. É preciso ter coragem para dar um basta e convicção para torná-lo resistente o suficiente. É preciso vontade para impedi-las de continuar. Algumas portas devem ser trancadas de uma vez e suas chaves perdidas. Há passados que pertencem somente ao passado. Se puder fazer sozinho, faça, se não conseguir, peça ajuda. O importante é barrar que algumas coisas o persigam pelo resto da vida e te impeçam de viver.

Outras pausas, porém, foram feitas por impulso, foram deixadas de lado por receio, insegurança ou apenas esquecidas nas voltas do tempo. Elas podem nos assombrar pedindo por seus finais, e sempre presentes na lembrança do que nunca existiu e na tristeza do não saber. Tire a poeira daquele sonho engavetado e faça-o respirar cores novamente; substitua as expectativas frustrantes por uma esperança renovada e sem amarras; desempacote seus sorrisos e leve-os para passear; reconecte-se consigo mesmo e descubra novos brilhos dentro de seus olhos; aprenda novas canções ou cante sem saber a letra; destranque as portas que te impedem de seguir e viva.


Que a velha sabedoria dos ditos populares e de todos os clichês te ajudem a discernir os livramentos daquilo que merece uma segunda chance; que você possa enxergar as novas possibilidades e agarrar as oportunidades que surgirem pelo caminho; que nenhum sonho morra por falta de tentar; que nenhuma esperança se perca por fraquezas. Que seus novos capítulos tenham as mais variadas pontuações e menos reticências possíveis. 

Mais um ano que se termina e mais um que eu passei longe daqui, para variar, dessa vez eu procrastinei mesmo, não vou culpar o tempo. Meu desejo para 2018 é que o bom senso faça parte de cada um e nos permita usar as pontuações corretas nos parágrafos e travessões de nossas vidas. Que haja coragem para continuar, determinação para concluir e novas histórias para viver. 
Compartilhe:    Facebook Twitter Google+
Continue lendo

11.16.2017

Esse eu fiz para ela


(...) She's the hand that I wanna hold,
The story that never gets old
She's a melody flowing soft and sweet
She's the song that I wanna sing...


Ela é aquela que acorda nas manhãs com um sorriso no rosto e música na alma e avisa o sol que está na hora de brilhar. É quem fita o horizonte com olhos cheios de esperança, pois sabe que a promessa de um dia bom está esperando na esquina. É quem canta sem saber a letra e sorri os sorrisos mais doces de café da manhã.
Ela é quem tropeça nos próprios pés e ri de si mesma, é quem consegue desestruturar as fibras do universo somente por fazer parte dele e o universo em si, assim como a vida e tudo mais a agradecem por ser desse jeito.
É ela que enxerga o melhor das pessoas com uma lente de aumento e que traz o melhor de mim com uma facilidade de dar inveja. E ela que me inspira e é para ela que eu escrevo.

Ela é canção, é dança, é arte. É poema, é rima, é verso.

Ela é quem segura minha mão quando precisa, quando eu preciso. É quem divide a cena comigo nas comédias e tragédias da vida. Ela é frase, é capítulo, é o livro todo. Ela é minha história favorita. Minha lembrança mais bonita, minha gargalhada mais sonora.
Ela é beijo de bom dia e boa noite, é abraço de chegada e despedida, é amor e prazer.
Ela é aquela que sabe o que dizer, que diz em silêncio e fala com o olhar. É quem ouve e compreende. É quem faz planos e acha graça quando metade deles não acontece como queria, pois há sempre uma história para contar.

Foi ela que chegou de repente, esbarrou no meu caminho e clareou minha estrada. Foi por ser no momento ideal que tudo se fez certo. Foi por ser certo que tudo se fez real. Foi ela quem me deu novos sabores, apresentou novas cores e me fez respirar outros ares. É ela quem faz isso até hoje, me proporcionando novidades e quebrando rotinas. É ela quem me conhece e quem me aceita.

Ela é a dona dos meus apelidos carinhosos e constrangedores. A companheira dos dias cinzentos e frios. A voz esperada nos fins de tarde. O amor que a vida me trouxe após vários desencontros.

É ela que está lá quando olho para o futuro. É ela que está nos meus capítulos futuros. E foi para ela que essas palavras se juntaram. Só para ela.
Compartilhe:    Facebook Twitter Google+
Continue lendo

7.25.2017

O moreno cordelista



No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade (...)

De todas as histórias de amor, as que mais doem são a dos amores não vividos.
Vou lhe contar então a história de um moço que aprendeu a despejar sua dor em versos, enquanto espera que suas palavras encontrem sua fonte de inspiração.
Não se assuste com as estrofes que encontrar pelo caminho, pois a história desse moço ora rima com amor, mas sempre rima com saudade.

Todo dia ele sai de casa e vai até a cidade, carregando na mala surrada seu trabalho, sua arte. Nas ruas de pedra do centro ele monta sua barraca, pendura os barbantes e neles seus livretos repletos de versos tristes sobre um amor que jamais viveu.
As pessoas já o conhecem pelo semblante pesaroso, pelo sorriso sem alegria e olhos marejados, mas nem todos que leem sua obra conhecem a dor que ele carrega no peito.

Quando a noite se derrama,
a lua sobe na encosta,
lá de cima ela olha
para o moço de quem gosta,
mas ele só pensa na morena
que um dia lhe deu as costas.

Eles moravam a poucas fazendas de distância, estudavam na mesma classe e vez ou outra caminhavam juntos para casa depois das aulas. Com o tempo o amor pueril de criança começou a brotar no peito do menino e ele o alimentava com sonhos ingênuos e esperanças descabidas.
Sonhava acordado, imaginando os dois em uma casinha simples, janta na mesa e um filho ou dois correndo no quintal. Nem sempre era assim, mas quando criava o futuro em sua mente, sua pequena morena sempre estava lá, com o sorriso radiante feito o sol que sai detrás de uma nuvem marota.

Foi na infância que o moreno
conheceu o tal do amor.
Mal sabia o pobrezinho
que o que lhe esperava era a dor,
Pois a morena foi simbora
para casar-se com o doutor.

O tempo passou e ele permaneceu calado, guardou todo seu amor em uma gaveta escura e nunca permitiu que ela pudesse vê-lo. Ele não suportaria a dor de ser rejeitado e quando menos percebeu, havia trocado essa dor por uma que machucou na mesma medida.
A pequena, certo dia, engraçou-se com o jovem médico da cidade. O doutor de fala mansa, bonito e bem vestido, conquistou a morena com seus modos educados e lhe entregou um amor cheio de promessas de aventuras pelo mundo afora.

Desde então esse moreno
afundou-se em solidão,
pois sente em seu peito
um despedaçado coração
que bate descompassado
por uma triste ilusão.

Sua única companhia depois que ela se foi foram seus cadernos e a caneta. Ele começou a escrever histórias melancólicas em versos e rimas e com o tempo tornou-se famoso por aquilo que escrevia, atraindo várias pessoas curiosas pelo seu talento, contudo nunca conseguiu atrair aquela que mais queria.

Até hoje ele espera
pela volta da morena,
enquanto escreve versos
que sua dor amena,
torcendo para que eles
lhe tragam sua pequena.

Quem sabe algum dia eles voltem a se encontrar ou que o coração do moreno se abra para um novo amor. Se isso acontecer, vamos torcer para que ele o viva dessa vez e não apenas escreva sobre o que poderia ter sido e não foi.


Saí de meu ostracismo literário, pois o dia de hoje pede. Que os escritores de todos os tipos continuem encontrando sua inspiração e nos presenteando com as mais incríveis histórias, um feliz dia do escritor para todos esses lindos.
Compartilhe:    Facebook Twitter Google+
Continue lendo

12.30.2016

Que seja ímpar

                                          Foto por: Amanda Lisbôa

♪ "I wanna see the world,
I wanna sail the ocean
I wanna know what it feels like 
to never come back again..." ♫

Dizem que mares calmos nunca fazem bons marinheiros. É preciso emoção, caos e até um pouco de sofrimento para aprender certas coisas, pois as lições que a vida nos dá nem sempre são fáceis como a tabuada do cinco, a maioria dos problemas demanda muito mais paciência da qual, nem sempre, estamos dispostos a ceder. O aprender é cotidiano, há sempre algo novo para saber e descobrir. Sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre nós mesmos.
Cada dia somos desafiados de alguma maneira, como um barquinho navegando em ondas ora tranquilas, ora furiosas e o mar, ah, o mar, ele é de uma imprevisibilidade assustadora. Não há como se preparar para as surpresas que aparecerão durante o percurso, jamais saberemos se uma pescaria vai render ou não nem se sairemos ilesos da viagem para poder aportar novamente.

Certamente vamos cruzar com diversos outros navegantes, uns mais perdidos que outros; alguns guiados por bússolas, pelas estrelas, pelo vento; alguns seguros de para onde querem ir, mas não tão confiantes de como chegar lá; haverá aqueles que navegam há muito tempo e já adquiriram uma experiência razoável, mas que ainda cometerão erros; aqueles mais novos e aventureiros que ainda enfrentarão muito tempo ruim até o fim do trajeto. O fato é que todo tipo de pessoa, de sorte e de clima estarão à espera, saber reagir a eles é a prova maior.
Haverá dias em que a tormenta será tão forte que pensaremos em desistir ou em ancorar em algum lugar ao qual não pertencemos; dias de sol que se transformarão em chuva e dias de chuva que se tornarão limpos feito paisagens pintadas; dias de solidão e dias de companheirismo; dias de abraços curtos nos encontros e de abraços longos nas despedidas; dias de todas as cores, sabores, tamanhos.

Há uma nova viagem prestes a começar, um novo mar de possibilidades, escolhas e desafios pela frente. Desejo que as lições sejam aprendidas, que seu barco seja forte o bastante para resistir às provações, que sua tripulação seja a melhor possível. Que haja dias de sol e de chuva, de céu aberto e de nuvens coloridas. Que as ondas sejam amigáveis, principalmente quando você pensar em abandonar tudo. Que você veja novas cores, prove novos sabores, ouça novas melodias, sorria os sorrisos mais sinceros e dê as gargalhadas mais sonoras. Que encontre seu porto seguro se ainda não tiver ou mantenha-o se já o possuir.
Desejo ainda que você torne sua viagem mais importante que seu destino. Que volte se for necessário, que ancore em outro lugar quando encontrar morada, que viva. Que essa nova aventura seja ímpar.

Dizem também que depois da tempestade vem a calmaria. Que assim seja.

2016 foi um daqueles anos que a gente ainda vai falar muito, seja mal ou bem, porque foi um ano que ainda estamos tentando entender e muita coisa a gente só entende depois de um certo tempo. Vamos aguardar então. Espero que o próximo ano seja memorável também, mas muito mais recheado de coisas boas, que os desafios sejam vencidos, que todos possam sair de sua zona de conforto e conhecer a si mesmos um pouco mais. Que grandes histórias estejam por vir.


Compartilhe:    Facebook Twitter Google+
Continue lendo

11.03.2016

7 anos de sorrisos


Datas são coisas que se tornaram constantes em minha vida, elas chegaram tão sorrateiras que quando percebi já estavam todas lá, esperando pacientemente seu dia de celebração, afinal sou sortudo a ponto de poder comemorar o dia do tradutor, do internacionalista, do escritor e do professor, além disso, tenho várias outras datas lindas que comemoro ao lado daquela que me faz sorrir dia após dia.
E hoje, como não poderia deixar de ser, é aniversário do blog e puxa, ele já está com quase 10 anos de idade. Juro que nunca imaginei que fosse chegar até aqui. 7 anos, mais de 400 postagens e incontáveis memórias e bons momentos que passei do lado de cá da tela criando, aprendendo, escrevendo e crescendo, são muitos gerúndios, mas são muitos anos também.
Tenho um grande apreço por esse meu cantinho, embora eu não seja tão dedicado a ele quanto fui nos seus primeiros anos, muita coisa mudou de lá para cá – eu sei que isso não justifica nenhum abandono – mas esse é um lugar do qual não importa quanto tempo eu passe longe, sei que sempre vou poder voltar e revisitar o antigo eu e suas criações mirabolantes e isso é incrível, principalmente por poder enxergar as mudanças que ocorreram em mim e na minha escrita.
Tenho orgulho do que construí até aqui, não sei como serão os próximos anos, não vou fazer promessas que não sei se vou cumprir. Contudo, espero um dia aprender a parar de culpar o tempo pelo meu ser relapso e me responsabilizar completamente por não andar por aqui com mais frequência.

A quem ainda se perde no meu caminho e vem nessa direção, meu singelo agradecimento e que nossos caminhos possam se topar mais vezes.
Compartilhe:    Facebook Twitter Google+
Continue lendo

10.10.2016

A moça, as flores e a caixa de correio



As flores sempre estiveram ao seu redor, como pequenas confidentes e conhecedoras dos segredos que ela não contava para ninguém. Ali na floricultura em que trabalhava, a moça havia aprendido a arte de cuidar de suas amigas coloridas, desde borrifadas de água em dias de calor a sussurros de incentivos aos botões que tinham preguiça em desabrochar. Por falar nisso, as raízes da história dessa moça estavam fincadas em um lugar muito longe dali, onde as flores também faziam parte. Talvez seja importante para o seguimento dessa narrativa que você saiba do que estou falando e mais uma vez perdoe-me a intromissão de me colocar no meio da história de modo tão invasivo.

Fora há vários anos que ela, então uma menina, junto de sua família, morava na fazenda de leite. Ela adorava o cheiro das manhãs de primavera e a promessa de chuvas delicadas que regavam os jardins do mundo. Lá de longe observava a estrada de terra batida onde a caixa de correio acenava com seu bracinho sempre que estava de barriga cheia, então ela corria ao seu encontro, a fita azul em seu cabelo sacudindo pelo vento, recolhia todos os envelopes, saudava o velho carvalho e voltava para casa com ar satisfeito de quem acaba de fazer uma tarefa com louvor.
Um dia, ao fazer seu dever de coletora das cartas, ela levara consigo o terrível destino de sua família. Uma ordem de despejo. Algo sobre o alto custo dos impostos, que ela não entendeu muito bem na época, só sabia que teriam que deixar a casa. O dia de partir foi extremamente triste, quando ela olhou para sua casa pela última vez e a viu tornar-se um pontinho distante no horizonte na medida em que se afastava do cenário de sua história de vida.

Desde que partira, ela só havia retornado à casa poucos meses atrás, no início do outono. Como instigada por seu espírito de criança, ela recolheu as cartas e botou o braço da caixa de correio para descansar. Pouco havia mudado. As flores ainda estavam lá. O velho carvalho também. E a casa abandonada.

Em seu trabalho na floricultura, ela assistia os sorrisos das pessoas que compravam e imaginava qual seria a história por trás deles. Havia um rapaz que quase toda semana aparecia e comprava uma flor diferente. Apenas uma e de uma cor variada a cada vez. Ele sempre aparentava estar um tanto nervoso e inseguro, mas ela o atendia da melhor maneira que podia.
- Eu sempre fiquei imaginando qual seria sua favorita – ele enfim falou e apontou para as flores.
- Todas elas são – ela admitiu – Você deve ter alguém que gosta muito de flores.
- Na verdade não – seu sorriso tornou-se embaraçado – Eu só venho até aqui para poder ter ver e acabo comprando uma flor para não ficar muito sem graça – o rosto corou-se.
Ela abaixou a cabeça constrangida e sentiu o rosto queimar. Um sorriso involuntário não se conteve. Ele percebeu que havia cometido um erro e afastou-se em silêncio.
- Sempre tive uma queda pelas petúnias – ela murmurou enquanto ele se aproximava da porta.

Os dois passaram a se conhecer aos poucos e entre flores a história deles começou a ser escrita. Ambos compartilhavam de várias coisas em comum e uma semente de sentimento começou a brotar no peito de cada um. Ela enfim encontrou alguém além das flores a quem pudesse contar seus sonhos e desejos.
Numa tarde de sol de primavera, ela o levou até a casa na colina, contou-lhe sua história e confessou que estava fazendo o possível para recuperá-la. Ele disse que a ajudaria com o que fosse necessário e o vento ao redor trouxe burburinhos de comemoração. Ela não disse nada na hora, mas jurava que eram as flores na estrada festejando seu retorno.


Se ela vai conseguir realizar seu sonho, só o tempo vai dizer. Por ora, façamos como as flores, vamos torcer.

Essa história é a terceira parte e conclusão de uma história começada há mais de cinco anos (sim, eu sei, é muito tempo), mas cada parte se mantem por si só. A quem se interessar pode ler as anteriores aqui e aqui.
Compartilhe:    Facebook Twitter Google+
Continue lendo

7.25.2016

A arte de ser ponte


Acordou antes de o despertador tocar, sacudiu-se para fora de um sonho que já começava a desvanecer. Abriu as janelas, deu bom dia ao dia e sorriu um sorriso de menina quando o sol acenou lá do alto um cumprimento caloroso. Fez as atividades rotineiras da manhã ao som de um bom rock clássico, pois ela era daquelas que gostam de surpreender, variando da timidez num encontro casual com a ardência entre os lençóis até o gosto doce por poesias e rimas cadenciado pela agitação dos pés que jamais se esqueceram de como dançar.
Com a preguiça ainda enrolada em seu pescoço ela deu-se ao luxo de esticar-se languidamente na cama por uns minutos, clicando aqui e ali no teclado do celular, checando e enviando mensagens. Sorriu ao ver que, como de costume, a mensagem do namorado estava ali. Ele nunca se esquecia.
Sorveu uma xícara de café e então estava pronta para começar o dia.

Conta-se em uma lenda que quando a Lua não é vista no céu é porque se fez mulher e desceu à Terra para saciar seu desejo de estar com um homem. O que muitos não sabem é que ela é uma deusa que fora exilada por ter apetites carnais exagerados, contudo sempre que a sombra de algum irmão a esconde, ela, sorrateiramente, desce do céu, seduz um mortal e lhe proporciona a melhor noite de prazer de sua vida.
A triste história da Lua poderia ser uma história qualquer contada por um professor qualquer numa aula sobre mitologia, mas Salena descobriu que nem toda lenda é uma história de faz de contas.
Quando sua própria flor desabrochou e tornou-se uma mulher, ela recebeu a mais inesperada das visitas, um homem robusto e grisalho que alegava ser seu avô, e o mais inusitado de tudo era que ele acreditava cegamente que ela era filha da Lua. Obviamente ela não acreditou, até que o homem alinhou as estrelas apagadas em um caminho que só os dois podiam ver e permitiu que a Lua descesse ao seu encontro.
Salena não podia acreditar no que via, a mulher que veio dos céus tinha o que seria sua aparência dali a alguns anos. Um sorriso triste e brilhante, e lágrimas peroladas que deslizavam por sua face.
As duas foram deixadas a sós e a Lua contou à filha sua história.

Agitou os cabelos emaranhados, não gostava de prendê-los, pois até eles deveriam ter sua liberdade. Instigou os pensamentos, rememorando tudo da história até ali. Ela sabia para onde deveria ir, mas ainda havia um longo caminho a percorrer.
Desligou a música e deixou o silêncio espalhar-se pelo cômodo, tomando cada centímetro do ambiente, flutuando pelo ar feito uma onda invisível. Ela também gostava dos silêncios, eles tinham muito a dizer se você parasse para escutar.
Salena estava ali entre um silêncio e outro. Ela lhe contava tudo que precisava saber, sempre fora assim, com todos seus personagens. Ela sentia-se a ponte entre um mundo que ainda não existe para o mundo real, por isso escrever a encantou desde sempre.
Sentou-se diante do computador e escutou tudo que sua mente lhe dizia, transportando pensamentos para letras, que formavam as palavras de uma construção muito maior que si mesma. A magia do escrever é criar e aprender ao mesmo tempo, é fundir seu universo particular com as vidas inexistentes e viver mil vidas dentro de uma só.


Salena falava e ela ouvia. Ouvia e escrevia. Escrevia e vivia. 

Das poucas datas que fazem sentido para mim, essa é uma daquelas que eu não me perdoaria ao deixar passar em branco, visto que o branco pode ser um pesadelo para quem escreve. Então aqui está minha singela homenagem para o Dia do Escritor. Que as palavras estejam sempre na vida deles e de todos aqueles dispostos a cruzar aquela ponte imaginável em busca de maiores aventuras.
Compartilhe:    Facebook Twitter Google+
Continue lendo

4.18.2016

Das histórias que preenchem

                                   Foto por: Milton Rodrigues Junior


Sente-se comigo que eu tenho muita coisa pra contar.

A paisagem ao meu redor muda em sua constância cadenciada, como há de ser.
Os dias de sol são lindos e cheios de nuvens brancas passeando pelo extenso azul; os dias cinzentos vêm acompanhados daquela expectativa de uma chuva que ora cai, ora se reserva para outro momento; os dias brancos e frios de neve são aqueles que pedem por mais cor. Porém mais do que tudo, o que mais se espalha por todos os cantos em que posso ver, são as histórias.
Há uma infinidade delas sendo vividas, contadas, escritas, compartilhadas, mas você deve estar se perguntando “o que diabos um banco pode saber sobre histórias?” e eu lhe respondo com a maior serenidade que um banco pode ter “eu sei de muita coisa”.
Sei, por exemplo, que todas as manhãs de quinta-feira a senhora do 60B se dirige à boulangerie Vie en Rose para comprar pães, enquanto o senhor do prédio ao lado passeia com seu cão, o que ela não sabe é que ele nutre sentimentos adocicados por ela, então ela apenas continua comprando pães. Sei também do breve caso de amor que se passou no café La vie sucrée entre a Sra. Jones e o pintor Antoine, essa é uma das minhas histórias preferidas, devo dizer.
Conheço as crianças pelo nome, pela voz e pelo riso. Acolho os turistas animados que vez ou outra se sentam para um descanso e me presenteiam com suas histórias de lugares distantes que só poderei imaginar como é.

Eu poderia ficar tagarelando por horas a fio, pois saiba você que eu tenho todo o tempo do mundo, contudo eu sei que o tempo é um recurso escasso na vida corrida das pessoas, mas gostaria de pedir a gentileza de tomar um minuto seu para contar aquela que acredito ser uma das melhores e mais antigas histórias que foram deixadas para mim.
A história se passou pouco antes da segunda metade do século XX, Camille era uma jovem moça que trabalhava na sapataria do pai. Ela me fazia companhia durante seus lanches da tarde e também quando decidia escapar das tarefas e observar as folhas caindo das árvores do parque naquele outono e foi exatamente numa de suas fugas que ela conheceu o rapaz Grégoire, um destemido sonhador, do raro tipo que se encontra em ruas movimentadas do centro da cidade. Ele, por sua vez, queria ser poeta.
“A magia da poesia é capturar o brilho das estrelas e amarrá-lo em versos tão lindos que a beleza da lua teria inveja”, você o ouviria dizer sorrindo, tentando inspirar as pessoas ao redor, mas outra beleza mais terrena lhe chamou a atenção.
Camille e eu observávamos a paisagem quando o olhar dos dois se encontrou, dizem que existem poucos instantes em que o tempo prende a respiração e esquece-se de correr, aquele foi um deles. Greg aproximou-se vestindo seu melhor sorriso, imagino que sua mente deveria estar cheia de linhas e versos emaranhados. Camille se remexeu delicadamente, acometida por borboletas voadoras em seu interior. Tão rápido quanto chegou o momento passou, como se o tempo despertasse de seu transe e tentasse compensar o deslize cometido. O pai dela a chamou para completar as tarefas e os dois se despediram por olhares sem nem a chance de trocar palavras.
Eu já vi muita coisa e sei determinar certos padrões ou clichês, se você preferir, sendo assim eu já suspeitava como a história iria se desenrolar. No dia seguinte lá estávamos Camille e eu quando Greg reapareceu.
“Um homem pode ter muitas tristezas em sua vida, mas nenhuma dói mais do que perder chances e ter que viver constantemente se perguntando o que poderia ter acontecido”, certamente ele teria que fazer uma chegada com seu charme usual.
Camille enrubesceu e então começaram a conversar. Eles eram de tratos fáceis, encontraram os pontos em comum, completaram as frases um do outro de um jeito bobo e divertido daqueles que podem ver o amor dobrando a esquina. E assim foram as tardes que se seguiram, eles sentavam-se comigo, compartilhavam segredinhos, sussurravam pequenas declarações, saboreavam sorvetes e trocaram o primeiro beijo.
Acompanhei de perto a emoção do apaixonar-se, a evolução dos sorrisos, a troca de olhares sugestivos e as lágrimas de tristeza e o sentimento de injustiça quando Greg recebeu a convocação para a guerra. Camille correu inconsolada pela rua de pedra, Greg a seguiu e por dias eu não os vi.
Comecei a ficar preocupado com a situação, prestando atenção nas conversas alheias em busca de notícias dos dois. O tempo passou e se encarregou de sanar minhas dúvidas. Camille voltou a se sentar comigo, dessa vez para ler as cartas que seu amado enviava enquanto a criança em sua barriga crescia.
“A lua me sorriu ontem a noite, mon amour”, ela leu em voz alta, “sorriu um sorriso cúmplice, como se soubesse um segredo que não quer contar, mas não resistiu ao meu charme e o revelou: em dois dias volto pra casa”. Dessa vez as lágrimas foram de alegria.
Eu estava lá quando os dois se reencontraram, ansioso para ouvir tudo que Greg teria para contar sobre sua aventura, que era como ele dizia. Estava lá também para receber o pequeno Matthieu em seu primeiro passeio.
Algumas histórias não tiveram um final tão feliz como essa, embora tenham trazido algum aprendizado, mas gosto daquelas que terminam bem,  daquelas cheias de sorrisos, reencontros, amores, vitórias. Sou um banco otimista assumido, acredito nas coisas boas.

Por fim, agradeço seu tempo e continuarei aqui convidando as pessoas a me contarem suas histórias ou a ouvir as minhas. Faça o mesmo onde quer que esteja, são raros aqueles que compartilham e escutam, então seja uma raridade.

Clique em Sra. Jones e Antoine para saber a história dos dois.
Compartilhe:    Facebook Twitter Google+
Continue lendo