Keblinger

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O shyriano - Parte 4

| segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Hora do conto - Para entender leia a Parte 1Parte 2 e Parte 3



- Eu posso explicar tudo...  – Max começou, mas o pai ergueu a mão para interrompê-lo.
- Vá já para a cama, isto não são horas de um garoto estar acordado. Vamos – o pai esperou-o deitar-se. O olhar de Max buscou Kwinx, mas não o encontrou. O pai apagou a luz.
As estrelas no teto começaram a brilhar fracamente. O garoto dos olhos roxos apareceu do lado do telescópio.
- Você pode ficar invisível?
- Não – ele respondeu secamente – Me adaptei à cor ambiente. Mimetismo. Como um camaleão.
- Uau! – Max exclamou – Por que você veio?
- Eu não vim. Eu caí. – ele observou uma expressão formar-se no rosto do humano. Confusão. Incompreensão. Ele suspirou, foi algo novo e diferente. Então contou como tudo acontecera.


Ele estava numa simulação de corrida de orbes com outros shyrianos.
- Tudo aquilo que você vê não é real. O céu – ele contou. – Toda a extensão estelar é uma muralha entre o meu mundo e os demais.
- As estrelas não são reais? – Max indagou com pesar na voz.
- Não. E sim. Elas são luzes afixadas na muralha. A muralha nos protege...
- Mas as estrelas estão por toda parte no universo, como podem estar presas em algo?
- A muralha não é apenas uma barreira. É um campo imenso.
- Você está dizendo que o seu mundo é do tamanho de todo o universo?
Kwinx notou algo na voz do garoto. Ceticismo.
- Não. A muralha é. Meu mundo fica atrás da muralha. Lá é onde praticamos a corrida de orbes – ele apontou para a janela, para fora. Para o objeto prateado no gramado – Mas a muralha tem falhas, algumas rachaduras e fendas. Portais. Um outro shyriano – ele soltou um som gutural de raiva – bateu em meu orbe e me empurrou. Caí em uma fissura na muralha e a atravessei. Podemos controlar os orbes acima dela, mas uma força maior me impediu de voltar e eu caí. Caí em um dos planetas proibidos. O seu.
- Planetas proibidos?
- Nós temos o conhecimento de uma vasta parte do universo. De várias galáxias. Não deixamos Shyrejo. Nunca. Nosso mundo é nosso lar. Não se abandona o lar – ele experimentou uma sensação melancólica humana. Tristeza – Existem nove planetas dentro no nosso saber que são proibidos. Perigosos.
- Por que a Terra é um deles? – Max quis saber.
- Por causa dos humanos, obviamente. Eu preciso avisar Shyrejo que estou bem antes que...
Max sentiu um arrepio na nuca e esperou pelas palavras do shyriano.
- Antes que haja uma guerra.

EM BREVE - PARTE 5 

Quero...

| quinta-feira, 26 de janeiro de 2012


Quero beijos molhados, lábios com gosto de paixão e textura de nuvem.
Quero o toque, a pele eriçada e os sentidos afiados feito lâminas.
Quero olhar com clima de mistério, sussurros ricocheteando pelas paredes e visões do paraíso.
Quero o calor do impulso, o contato da aproximação e o som dos gemidos.
Quero o aperto do prazer, o enlace da luxúria e o expurgo do pudor.

Quero a regência da lascívia e o despertar do pecador.
Quero o domínio das sensações e o sabor da tentação.
Quero a fome do desejo.

Quero o tempo preso em meus dedos, a liberdade do desbravar e suas mãos sobre mim.
Quero o desvendar do oculto, o cheiro do hálito libertino e a possessão da sua vergonha.
Quero trepidações dos ossos, distensão dos músculos e pressão da carne.
Quero trejeitos desnudos, fantasias desmascaradas e medos rasgados.
Quero o destroçar dos anseios, o riso do gozo e a pureza do acontecer.

Quero a face da verdade e o odor do clímax.
Quero sua voz me pedindo para devorar-te pouco a pouco.
Quero a sede de você.

Quero o momento arfante do delírio, o cravar das unhas e a força carnal.
Quero o entrelaçar da alma, a fusão dos corpos e o encaixe dos sentimentos.
Quero alimentar as vontades, entregar-me por completo e sorver seu mel.
Quero o silêncio depois do fim, o sorriso de contentamento e um suspiro escorregadio.
Quero a palavra não dita, o refrescar do suor e o sibilar do cuidado.

Quero semicerrar os olhos e adormecer com você em meus braços sabendo que vou acordar do seu lado. 

Galera, a próxima postagem será a continuação do conto em partes. Grande abraço.

O shyriano - Parte 3

| segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Hora do conto - Para entender leia a Parte 1 e Parte 2



Max agarrou o garoto pelo braço e o arrastou até sua bicicleta caída. Ele montou e fez um gesto para o outro subir na garupa, mas o que aconteceu deixou-lhe ainda mais perplexo. O garoto estranho sacudiu as mãos e o objeto metálico em que ele estava, deslocou-se pelo subsolo e rasgou a terra como uma bolha prateada no meio dos dois.
- Mais rápido. Mostre o caminho – o garoto disse e o puxou para dentro do globo.
A bicicleta ficou jazida no meio do campo quando o orbe afundou outra vez na terra.


O interior da esfera era oco e iluminado naturalmente, não havia telas, nem botões, nem luzes piscando. Apenas dois pinos na parte superior, feito estalactites de prata. O garoto o controlava de alguma forma que Max não soube explicar.
- Qual o caminho? – o garoto dos olhos violeta perguntou.
- Não sei me guiar por baixo da terra – Max falou tentando esconder o desapontamento.
- Para onde?  – o outro insistiu.
- Para casa...  – Max mal terminou de dizer e a esfera acelerou.
Houve um solavanco como quando o elevador está prestes a subir e a esfera abriu-se no meio. Eles estavam no quintal de Max. A grama bem cuidada pelo pai fora destruída e um buraco estava aberto no meio do gramado, com o que parecia ser uma laranja gigante de metal partida.
- Meu pai vai ficar uma fera – ele murmurou.
- Fera? – o garoto repetiu e viu um animal selvagem invadir seus pensamentos.
- Vamos, não podemos ficar aqui – Max disse.

ü

Em seu quarto, com o abajur ligado, Max encarou atenciosamente o garoto sentado em sua cama. Ele tinha a pele alva, a mais clara de todas que ele já vira e aqueles olhos violáceos que tanto lhe tiravam o sentido.
- O que é shyriano? – ele perguntou. (A pronúncia correta da palavra é siriano).
- Eu sou – o outro respondeu – Meu lar, Shyrejo (pronuncia-se Sreio) – ele apontou para o teto, mas Max entendeu que ele se referia ao espaço.
- Qual o seu nome? – o outro fez um som gutural incompreensível. – Não consigo falar seu nome, me desculpe. Posso te chamar de shyriano?
- Não. Shyriano não é nome, é ser. Eu sou – o garoto o repreendeu duramente. – Kwinx – ele repetiu o som de maneira mais humana.
- Kwinx?  É um bom nome. Eu sou Max.


Kwinx observou o quarto de Max e foi capaz de identificar várias coisas, por causa do processo de implantação de informações terráqueas quando tocou no humano. Seu olhar depositou-se no telescópio. Sem nenhuma mesura, ele foi até o objeto e fixou o olhar no céu. No universo.
Na muralha brilhante.

A porta do quarto se abriu repentinamente e a silhueta do pai de Max recortou-se na escuridão.
- O que está acontecendo aqui? – ele perguntou. Irritado.

EM BREVE - PARTE 4

O shyriano - Parte 2

| quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Hora do conto - Para entender leia a Parte 1





Tudo aconteceu muito rápido. A corrida. A prisão no orbe. A queda da muralha brilhante.
Ele agarrou-se firmemente aos pinos do núcleo do orbe enquanto sentia uma força devastadora sugá-lo para algum lugar. Logo as chamas envolveram toda a cápsula e a queda continuou por mais algum tempo até encontrar algo sólido que a interrompeu.
Ele conseguiu abrir o orbe metálico, que permanecera intacto durante todo o percurso e não sofrera nenhum dano com o impacto e o cheiro de fumaça tomou o ambiente.
Ao adaptar a vista para o local, não demorou muito para descobrir onde estava. Ele caíra em um dos nove planetas proibidos – a Terra.
Lembrou-se de seu treino e da fisionomia de um terráqueo e rapidamente tomou a forma de um.
Pouco tempo depois estava diante de um humano.

ü

Max olhou para a cratera e se deparou com um garoto. Ele vestia uma blusa cinza e uma calça escura. Os pés estavam descalços e os cabelos cor de amêndoa dançavam feito um halo pela brisa, os olhos, porém, chamaram sua atenção. Eram roxos, de um roxo diferente de qualquer roxo que ele já tivesse visto.
O garoto estava dentro de uma grande esfera prateada e espelhada, o fogo começava a se extinguir e a fumaça espiralava e desaparecia no ar.
- Quem é você? – ele perguntou, ainda com os olhos arregalados.
Khir-kûn han tëuh – o garoto respondeu, mas sua voz soou feito o som de algum animal.
Max franziu a testa e estendeu a mão para ajudar o garoto levantar-se.


Ele observou a forma humana surgir em sua frente. Era um dos pequenos. Tinha uma expressão no rosto que ele não soube identificar. Medo, talvez? Não. Não era medo. Era algo diferente. Curiosidade? Quase. Espanto. Era isso.
O humano fez ruídos com a boca. Fala. Ele o imitou, mas pareceu surtir efeito contrário ao que esperava.
A mão do humano voltou-se para sua direção. Ameaça?
Ajuda. Ele constatou e agarrou-a para se levantar.
Assim que tocou a pele do humano todas as características, expressões, sentimentos, formas de comunicação e sensações dos terráqueos foram-lhe implantados.
- Eu sou o shyriano – ele disse e ouviu sua voz humanoide. Nem alta, nem baixa. Suave como uma lufada de ar.

ü

Max estava prestes a dizer alguma coisa quando viu que faróis intermitentes e coloridos se aproximavam do local. A polícia.
Ele tinha que tirar o garoto desconhecido dali.
- Venha.

EM BREVE - PARTE 3

O shyriano - Parte 1

| segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Hora do conto

Dizem que quando a lua se esconde e as estrelas piscam como vagalumes no céu negro, é noite de mistério. É noite vestida de enigma e cheia de sorrisos secretos. É a noite em que uma história incomum viu seu primeiro capítulo ganhar vida.




A cidade estava a alguns quilômetros de distância. Silenciosa e adormecida. Os campos cerrados em seus arredores observavam a brisa levantar uma fina nuvem de poeira para depois libertar os grãos nas mãos da gravidade. E a gravidade tem o poder de atrair tudo para seu centro, como uma luminária atrai um inseto.
Um clarão repentino. Um baque surdo da queda de algo pesado. E um buraco no chão - aqui começa a história.

ü

Max era um garoto que queria ser astronauta, tinha até um telescópio e aqueles adesivos de astros que brilham no escuro, pregados no teto de seu quarto. Ele costumava contrariar as ordens de seus pais para ir para a cama e esgueirava-se até a janela para observar o céu. Aquela noite não tinha luar, ele logo percebeu antes mesmo de botar o olho na lente do telescópio, mas as estrelas brilhavam encantadoras. Isso era o bastante.
Bem, isso seria o bastante se ele não tivesse vislumbrado algo envolto em chamas, caindo numa velocidade alucinante em algum lugar próxima da cidade.
O garoto livrou-se do telescópio e arregalou os olhos para a noite, segurando a respiração e sentindo a curiosidade afrouxar as amarras para libertar-se. Ele precisava descobrir o que era aquilo. Sim, e como precisava.
A casa estava escura, seus pais dormiam enquanto ele, muito sorrateiramente, saiu para o quintal, montou em sua bicicleta azul e branca e saiu pelas ruas desertas. Cruzando a madrugada e o sopro frio do vento.
Ele não pedalou muito para deixar a cidade, sua casa não era muito longe dos campos sem árvores. Ele e o pai, frequentemente, iam até lá para um amistoso jogo de beisebol.
Ao chegar ao campo, largou a bicicleta no chão duro de areia e correu até uma luz que brotava do chão. Seu rosto tornou-se uma máscara de espanto quando ele viu o que estava lá.

EM BREVE - PARTE 2

Galera, fazia tempo que eu não escrevia esses contos em partes, mas a ideia me voltou (junto com uma pitada de inspiração). Posso dizer que esse conto é um dos mais diferentes que já escrevi e está sendo bem legal enveredar por um caminho desconhecido. Espero que gostem. Grande abraço.

Espero-te na varanda

| sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quer ler esta carta?
Não

Clique em sim para ler meu primeiro texto de 2012 na Franquia. Abraços, seus sorridentes.

As faces do céu

| segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Feche os olhos e veja com o coração – recomendei antes de começar a contar.


O primeiro lírio desabrochara. Na paisagem bucólica o céu azul predominava se estendendo até o horizonte, as nuvens alvíssimas flutuavam exuberantes no alto, mais parecendo feitas de algodão. O vento suave fazia os campos de aveia parecer palcos cheios de bailarinos sincronizados. O sol nascente irradiava uma luz cálida e revigorante. Borboletas e abelhas dividiam o ar em voos contínuos e acrobáticos, pousando aleatoriamente em flores e exercendo seus papéis naturais de polinizadoras (...)

Ele me ouvia, encantado pelas palavras do livro. Continuei.

(...) Se você parar para enxergar mais profundamente, verá as ínfimas características da natureza e daquilo que o cerca, deixe a pressa de lado e ignore o restante da correria que lhe puxa pelo braço, há muito mais para ser visto além do alcance dos olhos.
Talvez se você escutar o silêncio ouvirá o leve murmúrio das águas cristalinas de um riacho perdido entre as pedras. Os peixes coloridos dançando em seu leito são ternos e lhe darão paz. O sussurro do vento lhe contará segredos e compartilhará as histórias esquecidas pelo tempo...

Ele ainda mantinha os olhos fechados e um sorriso pueril desenhou-se em seu rosto e então me lembrei daquela fotografia.

Certo dia eu estava com seu avô, no mirante do campo. Alto e imponente – fechei o livro e passei a proferir minhas próprias palavras – Sempre que eu estava lá tinha a utópica sensação de que podia beliscar o infinito ao erguer os braços, mas eu era só um garoto na época, o que eu poderia realmente saber?
O dia já estava cansado e se preparava para sua despedida majestosa. O horizonte vestiu-se de um tom salmão e as nuvens começaram a se dispersar. Simples e delicadas.
Ouvi o riso leve do meu pai, feito a brisa mansa de uma tarde de primavera e quando encontrei seu olhar percebi que ele estava perdido em alguma coisa.
Você pode abrir os olhos agora.

Ele fez como eu pedi e eu lhe entreguei a foto daquilo que prendeu a atenção de meu pai naquele ocaso mágico. Ele sorriu ao ver a imagem.

Seu avô me disse naquele instante uma frase que jamais esquecerei. Ele voltou seu olhar para mim e comentou com sua total naturalidade:
- É através da natureza que Deus nos mostra como é emoldurar no céu o seu sorriso – e a cena diante de nós sorria. As aves sorriam. O sol sorria. E até mesmo a tristeza que poderia existir poupou um segundo do seu tempo para sorrir também.
Ao observar aquela imagem, retornei pela estrada das memórias doces e vivi aquele momento outra vez.
Um dia eu o levarei até o velho mirante, filho, e você verá toda essa beleza com seus olhos.

Ele sorriu, sacudiu a cabeça e seu olhar se perdeu naquele fragmento de tempo congelado num pedaço de papel.

Pauta para Bloínquês
 

Copyright © 2010 A arte de um sorriso