O shyriano - Parte 4

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Hora do conto - Para entender leia a Parte 1Parte 2 e Parte 3



- Eu posso explicar tudo...  – Max começou, mas o pai ergueu a mão para interrompê-lo.
- Vá já para a cama, isto não são horas de um garoto estar acordado. Vamos – o pai esperou-o deitar-se. O olhar de Max buscou Kwinx, mas não o encontrou. O pai apagou a luz.
As estrelas no teto começaram a brilhar fracamente. O garoto dos olhos roxos apareceu do lado do telescópio.
- Você pode ficar invisível?
- Não – ele respondeu secamente – Me adaptei à cor ambiente. Mimetismo. Como um camaleão.
- Uau! – Max exclamou – Por que você veio?
- Eu não vim. Eu caí. – ele observou uma expressão formar-se no rosto do humano. Confusão. Incompreensão. Ele suspirou, foi algo novo e diferente. Então contou como tudo acontecera.


Ele estava numa simulação de corrida de orbes com outros shyrianos.
- Tudo aquilo que você vê não é real. O céu – ele contou. – Toda a extensão estelar é uma muralha entre o meu mundo e os demais.
- As estrelas não são reais? – Max indagou com pesar na voz.
- Não. E sim. Elas são luzes afixadas na muralha. A muralha nos protege...
- Mas as estrelas estão por toda parte no universo, como podem estar presas em algo?
- A muralha não é apenas uma barreira. É um campo imenso.
- Você está dizendo que o seu mundo é do tamanho de todo o universo?
Kwinx notou algo na voz do garoto. Ceticismo.
- Não. A muralha é. Meu mundo fica atrás da muralha. Lá é onde praticamos a corrida de orbes – ele apontou para a janela, para fora. Para o objeto prateado no gramado – Mas a muralha tem falhas, algumas rachaduras e fendas. Portais. Um outro shyriano – ele soltou um som gutural de raiva – bateu em meu orbe e me empurrou. Caí em uma fissura na muralha e a atravessei. Podemos controlar os orbes acima dela, mas uma força maior me impediu de voltar e eu caí. Caí em um dos planetas proibidos. O seu.
- Planetas proibidos?
- Nós temos o conhecimento de uma vasta parte do universo. De várias galáxias. Não deixamos Shyrejo. Nunca. Nosso mundo é nosso lar. Não se abandona o lar – ele experimentou uma sensação melancólica humana. Tristeza – Existem nove planetas dentro no nosso saber que são proibidos. Perigosos.
- Por que a Terra é um deles? – Max quis saber.
- Por causa dos humanos, obviamente. Eu preciso avisar Shyrejo que estou bem antes que...
Max sentiu um arrepio na nuca e esperou pelas palavras do shyriano.
- Antes que haja uma guerra.

EM BREVE - PARTE 5 

Quero...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012



Quero beijos molhados, lábios com gosto de paixão e textura de nuvem.
Quero o toque, a pele eriçada e os sentidos afiados feito lâminas.
Quero olhar com clima de mistério, sussurros ricocheteando pelas paredes e visões do paraíso.
Quero o calor do impulso, o contato da aproximação e o som dos gemidos.
Quero o aperto do prazer, o enlace da luxúria e o expurgo do pudor.

Quero a regência da lascívia e o despertar do pecador.
Quero o domínio das sensações e o sabor da tentação.
Quero a fome do desejo.

Quero o tempo preso em meus dedos, a liberdade do desbravar e suas mãos sobre mim.
Quero o desvendar do oculto, o cheiro do hálito libertino e a possessão da sua vergonha.
Quero trepidações dos ossos, distensão dos músculos e pressão da carne.
Quero trejeitos desnudos, fantasias desmascaradas e medos rasgados.
Quero o destroçar dos anseios, o riso do gozo e a pureza do acontecer.

Quero a face da verdade e o odor do clímax.
Quero sua voz me pedindo para devorar-te pouco a pouco.
Quero a sede de você.

Quero o momento arfante do delírio, o cravar das unhas e a força carnal.
Quero o entrelaçar da alma, a fusão dos corpos e o encaixe dos sentimentos.
Quero alimentar as vontades, entregar-me por completo e sorver seu mel.
Quero o silêncio depois do fim, o sorriso de contentamento e um suspiro escorregadio.
Quero a palavra não dita, o refrescar do suor e o sibilar do cuidado.

Quero semicerrar os olhos e adormecer com você em meus braços sabendo que vou acordar do seu lado. 

Galera, a próxima postagem será a continuação do conto em partes. Grande abraço.

O shyriano - Parte 3

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Hora do conto - Para entender leia a Parte 1 e Parte 2



Max agarrou o garoto pelo braço e o arrastou até sua bicicleta caída. Ele montou e fez um gesto para o outro subir na garupa, mas o que aconteceu deixou-lhe ainda mais perplexo. O garoto estranho sacudiu as mãos e o objeto metálico em que ele estava, deslocou-se pelo subsolo e rasgou a terra como uma bolha prateada no meio dos dois.
- Mais rápido. Mostre o caminho – o garoto disse e o puxou para dentro do globo.
A bicicleta ficou jazida no meio do campo quando o orbe afundou outra vez na terra.


O interior da esfera era oco e iluminado naturalmente, não havia telas, nem botões, nem luzes piscando. Apenas dois pinos na parte superior, feito estalactites de prata. O garoto o controlava de alguma forma que Max não soube explicar.
- Qual o caminho? – o garoto dos olhos violeta perguntou.
- Não sei me guiar por baixo da terra – Max falou tentando esconder o desapontamento.
- Para onde?  – o outro insistiu.
- Para casa...  – Max mal terminou de dizer e a esfera acelerou.
Houve um solavanco como quando o elevador está prestes a subir e a esfera abriu-se no meio. Eles estavam no quintal de Max. A grama bem cuidada pelo pai fora destruída e um buraco estava aberto no meio do gramado, com o que parecia ser uma laranja gigante de metal partida.
- Meu pai vai ficar uma fera – ele murmurou.
- Fera? – o garoto repetiu e viu um animal selvagem invadir seus pensamentos.
- Vamos, não podemos ficar aqui – Max disse.

ü

Em seu quarto, com o abajur ligado, Max encarou atenciosamente o garoto sentado em sua cama. Ele tinha a pele alva, a mais clara de todas que ele já vira e aqueles olhos violáceos que tanto lhe tiravam o sentido.
- O que é shyriano? – ele perguntou. (A pronúncia correta da palavra é siriano).
- Eu sou – o outro respondeu – Meu lar, Shyrejo (pronuncia-se Sreio) – ele apontou para o teto, mas Max entendeu que ele se referia ao espaço.
- Qual o seu nome? – o outro fez um som gutural incompreensível. – Não consigo falar seu nome, me desculpe. Posso te chamar de shyriano?
- Não. Shyriano não é nome, é ser. Eu sou – o garoto o repreendeu duramente. – Kwinx – ele repetiu o som de maneira mais humana.
- Kwinx?  É um bom nome. Eu sou Max.


Kwinx observou o quarto de Max e foi capaz de identificar várias coisas, por causa do processo de implantação de informações terráqueas quando tocou no humano. Seu olhar depositou-se no telescópio. Sem nenhuma mesura, ele foi até o objeto e fixou o olhar no céu. No universo.
Na muralha brilhante.

A porta do quarto se abriu repentinamente e a silhueta do pai de Max recortou-se na escuridão.
- O que está acontecendo aqui? – ele perguntou. Irritado.

EM BREVE - PARTE 4

O shyriano - Parte 2

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Hora do conto - Para entender leia a Parte 1





Tudo aconteceu muito rápido. A corrida. A prisão no orbe. A queda da muralha brilhante.
Ele agarrou-se firmemente aos pinos do núcleo do orbe enquanto sentia uma força devastadora sugá-lo para algum lugar. Logo as chamas envolveram toda a cápsula e a queda continuou por mais algum tempo até encontrar algo sólido que a interrompeu.
Ele conseguiu abrir o orbe metálico, que permanecera intacto durante todo o percurso e não sofrera nenhum dano com o impacto e o cheiro de fumaça tomou o ambiente.
Ao adaptar a vista para o local, não demorou muito para descobrir onde estava. Ele caíra em um dos nove planetas proibidos – a Terra.
Lembrou-se de seu treino e da fisionomia de um terráqueo e rapidamente tomou a forma de um.
Pouco tempo depois estava diante de um humano.

ü

Max olhou para a cratera e se deparou com um garoto. Ele vestia uma blusa cinza e uma calça escura. Os pés estavam descalços e os cabelos cor de amêndoa dançavam feito um halo pela brisa, os olhos, porém, chamaram sua atenção. Eram roxos, de um roxo diferente de qualquer roxo que ele já tivesse visto.
O garoto estava dentro de uma grande esfera prateada e espelhada, o fogo começava a se extinguir e a fumaça espiralava e desaparecia no ar.
- Quem é você? – ele perguntou, ainda com os olhos arregalados.
Khir-kûn han tëuh – o garoto respondeu, mas sua voz soou feito o som de algum animal.
Max franziu a testa e estendeu a mão para ajudar o garoto levantar-se.


Ele observou a forma humana surgir em sua frente. Era um dos pequenos. Tinha uma expressão no rosto que ele não soube identificar. Medo, talvez? Não. Não era medo. Era algo diferente. Curiosidade? Quase. Espanto. Era isso.
O humano fez ruídos com a boca. Fala. Ele o imitou, mas pareceu surtir efeito contrário ao que esperava.
A mão do humano voltou-se para sua direção. Ameaça?
Ajuda. Ele constatou e agarrou-a para se levantar.
Assim que tocou a pele do humano todas as características, expressões, sentimentos, formas de comunicação e sensações dos terráqueos foram-lhe implantados.
- Eu sou o shyriano – ele disse e ouviu sua voz humanoide. Nem alta, nem baixa. Suave como uma lufada de ar.

ü

Max estava prestes a dizer alguma coisa quando viu que faróis intermitentes e coloridos se aproximavam do local. A polícia.
Ele tinha que tirar o garoto desconhecido dali.
- Venha.

EM BREVE - PARTE 3

O shyriano - Parte 1

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Hora do conto

Dizem que quando a lua se esconde e as estrelas piscam como vagalumes no céu negro, é noite de mistério. É noite vestida de enigma e cheia de sorrisos secretos. É a noite em que uma história incomum viu seu primeiro capítulo ganhar vida.




A cidade estava a alguns quilômetros de distância. Silenciosa e adormecida. Os campos cerrados em seus arredores observavam a brisa levantar uma fina nuvem de poeira para depois libertar os grãos nas mãos da gravidade. E a gravidade tem o poder de atrair tudo para seu centro, como uma luminária atrai um inseto.
Um clarão repentino. Um baque surdo da queda de algo pesado. E um buraco no chão - aqui começa a história.

ü

Max era um garoto que queria ser astronauta, tinha até um telescópio e aqueles adesivos de astros que brilham no escuro, pregados no teto de seu quarto. Ele costumava contrariar as ordens de seus pais para ir para a cama e esgueirava-se até a janela para observar o céu. Aquela noite não tinha luar, ele logo percebeu antes mesmo de botar o olho na lente do telescópio, mas as estrelas brilhavam encantadoras. Isso era o bastante.
Bem, isso seria o bastante se ele não tivesse vislumbrado algo envolto em chamas, caindo numa velocidade alucinante em algum lugar próxima da cidade.
O garoto livrou-se do telescópio e arregalou os olhos para a noite, segurando a respiração e sentindo a curiosidade afrouxar as amarras para libertar-se. Ele precisava descobrir o que era aquilo. Sim, e como precisava.
A casa estava escura, seus pais dormiam enquanto ele, muito sorrateiramente, saiu para o quintal, montou em sua bicicleta azul e branca e saiu pelas ruas desertas. Cruzando a madrugada e o sopro frio do vento.
Ele não pedalou muito para deixar a cidade, sua casa não era muito longe dos campos sem árvores. Ele e o pai, frequentemente, iam até lá para um amistoso jogo de beisebol.
Ao chegar ao campo, largou a bicicleta no chão duro de areia e correu até uma luz que brotava do chão. Seu rosto tornou-se uma máscara de espanto quando ele viu o que estava lá.

EM BREVE - PARTE 2

Galera, fazia tempo que eu não escrevia esses contos em partes, mas a ideia me voltou (junto com uma pitada de inspiração). Posso dizer que esse conto é um dos mais diferentes que já escrevi e está sendo bem legal enveredar por um caminho desconhecido. Espero que gostem. Grande abraço.

Espero-te na varanda

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012


Quer ler esta carta?
Não

Clique em sim para ler meu primeiro texto de 2012 na Franquia. Abraços, seus sorridentes.

As faces do céu

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Feche os olhos e veja com o coração – recomendei antes de começar a contar.


O primeiro lírio desabrochara. Na paisagem bucólica o céu azul predominava se estendendo até o horizonte, as nuvens alvíssimas flutuavam exuberantes no alto, mais parecendo feitas de algodão. O vento suave fazia os campos de aveia parecer palcos cheios de bailarinos sincronizados. O sol nascente irradiava uma luz cálida e revigorante. Borboletas e abelhas dividiam o ar em voos contínuos e acrobáticos, pousando aleatoriamente em flores e exercendo seus papéis naturais de polinizadoras (...)

Ele me ouvia, encantado pelas palavras do livro. Continuei.

(...) Se você parar para enxergar mais profundamente, verá as ínfimas características da natureza e daquilo que o cerca, deixe a pressa de lado e ignore o restante da correria que lhe puxa pelo braço, há muito mais para ser visto além do alcance dos olhos.
Talvez se você escutar o silêncio ouvirá o leve murmúrio das águas cristalinas de um riacho perdido entre as pedras. Os peixes coloridos dançando em seu leito são ternos e lhe darão paz. O sussurro do vento lhe contará segredos e compartilhará as histórias esquecidas pelo tempo...

Ele ainda mantinha os olhos fechados e um sorriso pueril desenhou-se em seu rosto e então me lembrei daquela fotografia.

Certo dia eu estava com seu avô, no mirante do campo. Alto e imponente – fechei o livro e passei a proferir minhas próprias palavras – Sempre que eu estava lá tinha a utópica sensação de que podia beliscar o infinito ao erguer os braços, mas eu era só um garoto na época, o que eu poderia realmente saber?
O dia já estava cansado e se preparava para sua despedida majestosa. O horizonte vestiu-se de um tom salmão e as nuvens começaram a se dispersar. Simples e delicadas.
Ouvi o riso leve do meu pai, feito a brisa mansa de uma tarde de primavera e quando encontrei seu olhar percebi que ele estava perdido em alguma coisa.
Você pode abrir os olhos agora.

Ele fez como eu pedi e eu lhe entreguei a foto daquilo que prendeu a atenção de meu pai naquele ocaso mágico. Ele sorriu ao ver a imagem.

Seu avô me disse naquele instante uma frase que jamais esquecerei. Ele voltou seu olhar para mim e comentou com sua total naturalidade:
- É através da natureza que Deus nos mostra como é emoldurar no céu o seu sorriso – e a cena diante de nós sorria. As aves sorriam. O sol sorria. E até mesmo a tristeza que poderia existir poupou um segundo do seu tempo para sorrir também.
Ao observar aquela imagem, retornei pela estrada das memórias doces e vivi aquele momento outra vez.
Um dia eu o levarei até o velho mirante, filho, e você verá toda essa beleza com seus olhos.

Ele sorriu, sacudiu a cabeça e seu olhar se perdeu naquele fragmento de tempo congelado num pedaço de papel.

Pauta para Bloínquês

Uma última conversa

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011


(…) For auld lang syne, my dear
For auld lang syne,
We'll take a cup of kindness yet,
For auld lang syne…
Auld lang syne – Lea Michele

Aproximei-me discretamente daquele velho que estava prestes a partir e o interceptei. Por um fragmento de segundo, ele me olhou profundamente e sua boca cheia de rugas se abriu e formou uma pergunta:
- O que você tem a me dizer? – ao som daquelas palavras pus-me a refletir nas coisas.
- Tenho que confessar que não botei muita fé quando você apareceu e como não gosto de mudanças repentinas passei a te odiar por um tempo ao ponto de fechar os olhos para as coisas boas que surgiam. As lembranças frescas do que havia passado e ficado para trás me atormentavam e empurravam qualquer chance de esperança por um precipício de frustrações.
Ele não mudou suas feições enquanto eu falava, apenas meneou a cabeça, não sei se por concordância ou simplesmente por fazê-la. Continuei.
- Com o tempo, eu finalmente percebi que nem tudo estava tão mal quanto eu via, que havia sim motivos para sorrir e agradecer e até colher uma lembrança ou duas para levar adiante. Você me tirou bens preciosos, levou-os para um lugar tão distante que talvez eu nunca os veja outra vez, mas por outro lado, me presenteou com inúmeras outras coisas de valores particulares e especiais. Seus planos nem sempre são claros para mim, mas quando os reavalio sempre enxergo o melhor, apesar dos vários contratempos que ocorreram para se chegar até lá.
Ele suspirou, não pude dizer se foi de alívio ou de impaciência e então fez outra pergunta:
- Você sente que você tenha mudado? – mais uma vez parei para pensar por um instante.
- Acredito que grande parte do que agreguei e mantive foi devido a uma mudança interior, que já vinha acontecendo aos poucos, mas que se intensificou ultimamente – sorri naturalmente ao dizer isso – Tudo ao redor muda quando nós mudamos, certo? – ele fez que sim com a cabeça.
- Todos os dias em que te acompanhei não foi apenas para tirar-lhe ou dar-lhe coisas, foi para causar uma mudança dentro de ti. Foi para abrir lentamente teus olhos e mostrar que você pode fazer a diferença contanto que acredite nisso. Agora é uma época de reflexão, renovação, de repensar os valores e seus conceitos. Um período de nostalgia e esperança em que o passado se une aos desejos futuros que estão em seu coração no presente. Não descarte velhos pedidos e nem acenda novas chamas que em breve se apagarão, aprenda a discernir o que é possível e real, renove sua fé em você mesmo e busque aquilo que está em seu alcance e tão logo perceberá que até o que não estava você atingiu.
Aquelas palavras recaíram sobre meus ombros e eu pude sentir o peso delas.
- É, estou pronto para te dizer adeus, Ano Velho – ele sorriu e sacudiu a cabeça novamente, saí de seu caminho e antes que ele se afastasse muito acrescentei – peça que o Ano Novo desacelere os movimentos de translação, o tempo está correndo mais rápido do que posso acompanhar, quero aproveitar mais tudo o que tiver a oportunidade antes de ter que dizer adeus outra vez.
Ele virou-se com cuidado, acenou e então partiu, para o lugar aonde todos os anos velhos vão e jamais retornam, a não ser na memória da gente. 

É isso, pessoal, estamos chegando ao fim de mais um ano, que foi conturbado, perturbado, animado e recheado de surpresas e é exatamente tudo isso que desejo para todos no próximo ano e adicione também uma pitada de fé em si mesmos para que seus sonhos jamais se desvaneçam e sim se realizem conforme for a necessidade. Desejo também que as alegrias se multipliquem e que o amor chegue a ponto de transbordar, mas não transborde (ele é valioso demais para se desperdiçar) e que os ressentimentos, mágoas e tristeza possam encontrar seu modo de transformarem-se em algo positivo. Desejo que cada dia seja abençoado e que seja vivido com muito apreço, pois cada um deles é único, sem preço e insubstituível. Um feliz ano novo acompanhado de tudo que há de bom para você que está lendo isso e para um mundo cheio de problemas que precisa descobrir o que é a felicidade e solidariedade. 

O menino que acreditou

sábado, 24 de dezembro de 2011



Londres – meados de 1800

O destino é cruel se você é pobre e a vida não dá a mínima para isso, aprendi essa lição da pior maneira possível, acredite. As pessoas têm fachadas e tantos lados quanto a soma de vários dados, algumas tendem a ser boas, generosas e, até certo ponto, altruístas, ao passo que outras desenvolvem sentimentos amargos e se tornam más, de qualquer forma, não devo julgar. Aliás, julgar é o que menos faço, pois aprendi também que quando se trata do ser humano, podemos nos surpreender. Sempre.
Nasci em um berço qualquer, fui abandonado em uma viela qualquer e levado para um orfanato qualquer. Hoje ajudo a comandar o lugar, mas não estou aqui para falar de mim.

Na primavera passada – época do desabrochar das flores e de temperaturas amenas com gosto de família e abraço de mãe – acolhemos Oscar. Franzino, pequeno para a idade e extremamente curioso e falador. Durante suas primeiras semanas aqui ele não teve problemas em se enturmar, mas nunca falava de sua origem.
O verão expulsou a primavera e iluminou a casa velha em que moramos, as janelas foram abertas para o vento entrar e percorrer os quartos e brincar com as crianças – assim a temporada de visitas começou. Sorrisos foram ensinados, cumprimentos e boas maneiras foram mais cobrados, tudo na mais pura intenção de deixar aquelas portas em rumo de um novo lar, ou talvez o primeiro lugar que pudesse verdadeiramente receber esse nome.
Lembro-me do empenho de Oscar para ajudar todos os outros meninos, enquanto se escondia quando uma família tentava conversar com ele.
- Ainda não chegou a minha vez – ele me disse sem rodeios quando perguntei o motivo.
As visitas diminuíram até cessarem por completo. Três crianças encontraram quem chamar de mãe e pai.
Assim que o outono começou a varrer as folhas das árvores e abaixar a temperatura, começamos a nos preparar para o inverno. A mais devastadora das estações. O inverno é impiedoso e seu frio espalha-se pelas veias, tentando nos congelar de dentro para fora.
Vivemos da ajuda das pessoas boas e infelizmente elas parecem estar deixando de existir.
Quando dezembro deu as caras, avistei o sorriso mais exuberante no rosto de Oscar, que passou a correr pelos corredores berrando que o Natal estava próximo e quando não lhe davam atenção, ele atirava um bola de neve para se fazer notar.
- O Natal é minha época preferida – ele comentou muito sugestivamente – Pedi uma família para o Papai Noel – e seu sorriso tímido surgiu outra vez. Eu não soube o que dizer, apenas afaguei seus cabelos bagunçados e voltei para meus afazeres.
Na semana do Natal, numa manhã criteriosamente gelada, acordei pelos murmúrios alvoroçados das crianças no pátio. Caminhei até lá, esfregando os olhos para afastar o sono e me deparei com Oscar, na calçada, segurando o que parecia ser um pequeno pinheiro em frangalhos.
- Não é assim que as coisas funcionam aqui – eu lhe disse severamente, tomado pelo mau humor de ter sido acordado –, o Natal não existe dessa porta para dentro.
- Só porque você perdeu a fé no Natal, não significa que o Natal perdeu a fé em você – ele rebateu muito sabiamente e entrou com o pinheiro. As outras crianças o abraçaram e trataram de ajudá-lo a enfeitar a árvore.

O Natal chegou e passou, os pedidos feitos rapidamente foram esquecidos na manhã seguinte. Esgueirei-me para o quarto de Oscar, para ver como ele estava.
- Não foi dessa vez – ele me disse e seu sorriso não apareceu –, mas eu sei que um dia meu pedido vai se realizar, como sei que depois desse inverno virá a primavera.

Vários invernos se passaram e ainda muitos tornarão a passar e todo Natal, aquele garotinho de olhar sorridente, que agora se tornou um homem quase feito busca uma árvore e a enfeita para aquecer a magia da esperança dentro de cada criança que tenha um pedido semelhante ao seu. 

Pauta para Bloínquês
Bom, galera, Natal é época de doação, assim como deixei exposto no conto. É uma época para olhar mais intimamente e assim olhar para o outro e deixar aquela fagulha de fé e esperança crescer, para que ela não se perca em outros períodos. Desejo a todos um Natal maravilhoso, independente de como você tenha decidido passá-lo. Grande abraço.

Nuances de uma amizade - Ele

terça-feira, 20 de dezembro de 2011



♫ (...) When I can’t find the words
You teach my heart to speak... 
You make it real - James Morrison

Nós homens somos mais práticos, desapegados e calados. Não que isso seja uma regra geral, mas normalmente é assim que é, portanto as coisas nem sempre funcionam de acordo com o que temos em mente.
A ideia de se prender a uma garota é, no mínimo, assustadora – poucos homens sonham com uma esposa, filhos e um churrasco no quintal com os vizinhos estranhos –, e eu, definitivamente, não faço parte desse pouco. É óbvio que deve ser incrível encontrar aquela garota perfeita que seja compreensiva, até quando você não diz nada, que ria das suas idiotices mais estúpidas e que tenha orgulho de te ter por perto só para dizer que te pertence. A garota que não se incomode em lhe dizer verdades que você nem sempre quer ouvir e que lhe dê conselhos quando precisar. Eu conheço uma garota assim.
A garota ideal, nesse caso, é minha melhor amiga. É estranho ver nela todas as qualidades que deveriam estar em outras garotas, pois somos amigos... bem, somos algo mais que isso.
Ela é aquela que me abraça sem arranjar uma desculpa, que me beija sem receio e segura minha mão só para sentir o calor do meu toque. Ela sorri ao olhar para mim e com isso me arranca um sorriso singelo e natural, sem motivo. Ela me olha por minutos sem dizer uma palavra e me encara na tentativa de permanecer séria, mas sempre perde e cai na risada. Ela é aquilo que preenche a falta de não ter alguém e se encaixa de forma tão perfeita que não há necessidade de mais ninguém.
Nós fizemos um acordo de não deixar que os sentimentos se infiltrassem no que temos, pois perderia todo o sentido, afinal, quando perguntam, respondemos que somos só amigos. E somos, não é?
Eu nunca me preocupei em dar um nome diferente ao que temos. Se é amizade colorida, aquarela ou tinta guache, não importa... ou não importava. Às vezes eu tenho a curiosidade em saber o que temos de verdade, em saber o que é isso que nos mantém unidos e enlaçados nessa forma que é tão simples e pura.
Ela é meu porto-seguro quando sinto uma tempestade pela frente, é quem me vem na mente quando tenho uma novidade pra contar, é quem compartilha meu sucesso e fracasso e quem sorri e chora ao meu lado, mas serão estas apenas cores de nossa amizade? Acho que preciso mesmo de uma resposta, mas não tão depressa.
Talvez devamos viver o que temos de forma despreocupada, como temos feito, até o dia em que... Não, não gosto de pensar que pode surgir outro alguém. A mera hipótese de perdê-la me assusta terrivelmente – sentimentos que deveriam ficar ofuscados parecem estar encontrando cores vibrantes para se fazerem notar.
Qual a ideia dela de tudo isso? Aonde ela pensa que vamos chegar? Se é que caminhamos na direção de algo. Não tenho mais certeza das coisas e as dúvidas traiçoeiras me encaram no escuro, indagando respostas, que eu não tenho.
Já disse que os homens são adeptos do silêncio e quando se veem nesse tipo de situação, preferem que lhe digam o que fazer, mas se ela disser que devemos parar? Ou cabe a mim esta decisão? Não. Não quero tê-la por perto sem suas cores.

Cadê aquela maluca com seu olhar pensativo para alegrar meu dia? Preciso dela agora, para dar o acalento que meu coração pede. Só ela consegue decifrar o silêncio em mim e este é um silêncio incrivelmente barulhento, mas ela entende. Entende até o que eu não digo. 

Alimente as carpas