Keblinger

Keblinger

A arte de ser ponte

| segunda-feira, 25 de julho de 2016

Acordou antes de o despertador tocar, sacudiu-se para fora de um sonho que já começava a desvanecer. Abriu as janelas, deu bom dia ao dia e sorriu um sorriso de menina quando o sol acenou lá do alto um cumprimento caloroso. Fez as atividades rotineiras da manhã ao som de um bom rock clássico, pois ela era daquelas que gostam de surpreender, variando da timidez num encontro casual com a ardência entre os lençóis até o gosto doce por poesias e rimas cadenciado pela agitação dos pés que jamais se esqueceram de como dançar.
Com a preguiça ainda enrolada em seu pescoço ela deu-se ao luxo de esticar-se languidamente na cama por uns minutos, clicando aqui e ali no teclado do celular, checando e enviando mensagens. Sorriu ao ver que, como de costume, a mensagem do namorado estava ali. Ele nunca se esquecia.
Sorveu uma xícara de café e então estava pronta para começar o dia.

Conta-se em uma lenda que quando a Lua não é vista no céu é porque se fez mulher e desceu à Terra para saciar seu desejo de estar com um homem. O que muitos não sabem é que ela é uma deusa que fora exilada por ter apetites carnais exagerados, contudo sempre que a sombra de algum irmão a esconde, ela, sorrateiramente, desce do céu, seduz um mortal e lhe proporciona a melhor noite de prazer de sua vida.
A triste história da Lua poderia ser uma história qualquer contada por um professor qualquer numa aula sobre mitologia, mas Salena descobriu que nem toda lenda é uma história de faz de contas.
Quando sua própria flor desabrochou e tornou-se uma mulher, ela recebeu a mais inesperada das visitas, um homem robusto e grisalho que alegava ser seu avô, e o mais inusitado de tudo era que ele acreditava cegamente que ela era filha da Lua. Obviamente ela não acreditou, até que o homem alinhou as estrelas apagadas em um caminho que só os dois podiam ver e permitiu que a Lua descesse ao seu encontro.
Salena não podia acreditar no que via, a mulher que veio dos céus tinha o que seria sua aparência dali a alguns anos. Um sorriso triste e brilhante, e lágrimas peroladas que deslizavam por sua face.
As duas foram deixadas a sós e a Lua contou à filha sua história.

Agitou os cabelos emaranhados, não gostava de prendê-los, pois até eles deveriam ter sua liberdade. Instigou os pensamentos, rememorando tudo da história até ali. Ela sabia para onde deveria ir, mas ainda havia um longo caminho a percorrer.
Desligou a música e deixou o silêncio espalhar-se pelo cômodo, tomando cada centímetro do ambiente, flutuando pelo ar feito uma onda invisível. Ela também gostava dos silêncios, eles tinham muito a dizer se você parasse para escutar.
Salena estava ali entre um silêncio e outro. Ela lhe contava tudo que precisava saber, sempre fora assim, com todos seus personagens. Ela sentia-se a ponte entre um mundo que ainda não existe para o mundo real, por isso escrever a encantou desde sempre.
Sentou-se diante do computador e escutou tudo que sua mente lhe dizia, transportando pensamentos para letras, que formavam as palavras de uma construção muito maior que si mesma. A magia do escrever é criar e aprender ao mesmo tempo, é fundir seu universo particular com as vidas inexistentes e viver mil vidas dentro de uma só.


Salena falava e ela ouvia. Ouvia e escrevia. Escrevia e vivia. 

Das poucas datas que fazem sentido para mim, essa é uma daquelas que eu não me perdoaria ao deixar passar em branco, visto que o branco pode ser um pesadelo para quem escreve. Então aqui está minha singela homenagem para o Dia do Escritor. Que as palavras estejam sempre na vida deles e de todos aqueles dispostos a cruzar aquela ponte imaginável em busca de maiores aventuras.

Das histórias que preenchem

| segunda-feira, 18 de abril de 2016
                                   Foto por: Milton Rodrigues Junior


Sente-se comigo que eu tenho muita coisa pra contar.

A paisagem ao meu redor muda em sua constância cadenciada, como há de ser.
Os dias de sol são lindos e cheios de nuvens brancas passeando pelo extenso azul; os dias cinzentos vêm acompanhados daquela expectativa de uma chuva que ora cai, ora se reserva para outro momento; os dias brancos e frios de neve são aqueles que pedem por mais cor. Porém mais do que tudo, o que mais se espalha por todos os cantos em que posso ver, são as histórias.
Há uma infinidade delas sendo vividas, contadas, escritas, compartilhadas, mas você deve estar se perguntando “o que diabos um banco pode saber sobre histórias?” e eu lhe respondo com a maior serenidade que um banco pode ter “eu sei de muita coisa”.
Sei, por exemplo, que todas as manhãs de quinta-feira a senhora do 60B se dirige à boulangerie Vie en Rose para comprar pães, enquanto o senhor do prédio ao lado passeia com seu cão, o que ela não sabe é que ele nutre sentimentos adocicados por ela, então ela apenas continua comprando pães. Sei também do breve caso de amor que se passou no café La vie sucrée entre a Sra. Jones e o pintor Antoine, essa é uma das minhas histórias preferidas, devo dizer.
Conheço as crianças pelo nome, pela voz e pelo riso. Acolho os turistas animados que vez ou outra se sentam para um descanso e me presenteiam com suas histórias de lugares distantes que só poderei imaginar como é.

Eu poderia ficar tagarelando por horas a fio, pois saiba você que eu tenho todo o tempo do mundo, contudo eu sei que o tempo é um recurso escasso na vida corrida das pessoas, mas gostaria de pedir a gentileza de tomar um minuto seu para contar aquela que acredito ser uma das melhores e mais antigas histórias que foram deixadas para mim.
A história se passou pouco antes da segunda metade do século XX, Camille era uma jovem moça que trabalhava na sapataria do pai. Ela me fazia companhia durante seus lanches da tarde e também quando decidia escapar das tarefas e observar as folhas caindo das árvores do parque naquele outono e foi exatamente numa de suas fugas que ela conheceu o rapaz Grégoire, um destemido sonhador, do raro tipo que se encontra em ruas movimentadas do centro da cidade. Ele, por sua vez, queria ser poeta.
“A magia da poesia é capturar o brilho das estrelas e amarrá-lo em versos tão lindos que a beleza da lua teria inveja”, você o ouviria dizer sorrindo, tentando inspirar as pessoas ao redor, mas outra beleza mais terrena lhe chamou a atenção.
Camille e eu observávamos a paisagem quando o olhar dos dois se encontrou, dizem que existem poucos instantes em que o tempo prende a respiração e esquece-se de correr, aquele foi um deles. Greg aproximou-se vestindo seu melhor sorriso, imagino que sua mente deveria estar cheia de linhas e versos emaranhados. Camille se remexeu delicadamente, acometida por borboletas voadoras em seu interior. Tão rápido quanto chegou o momento passou, como se o tempo despertasse de seu transe e tentasse compensar o deslize cometido. O pai dela a chamou para completar as tarefas e os dois se despediram por olhares sem nem a chance de trocar palavras.
Eu já vi muita coisa e sei determinar certos padrões ou clichês, se você preferir, sendo assim eu já suspeitava como a história iria se desenrolar. No dia seguinte lá estávamos Camille e eu quando Greg reapareceu.
“Um homem pode ter muitas tristezas em sua vida, mas nenhuma dói mais do que perder chances e ter que viver constantemente se perguntando o que poderia ter acontecido”, certamente ele teria que fazer uma chegada com seu charme usual.
Camille enrubesceu e então começaram a conversar. Eles eram de tratos fáceis, encontraram os pontos em comum, completaram as frases um do outro de um jeito bobo e divertido daqueles que podem ver o amor dobrando a esquina. E assim foram as tardes que se seguiram, eles sentavam-se comigo, compartilhavam segredinhos, sussurravam pequenas declarações, saboreavam sorvetes e trocaram o primeiro beijo.
Acompanhei de perto a emoção do apaixonar-se, a evolução dos sorrisos, a troca de olhares sugestivos e as lágrimas de tristeza e o sentimento de injustiça quando Greg recebeu a convocação para a guerra. Camille correu inconsolada pela rua de pedra, Greg a seguiu e por dias eu não os vi.
Comecei a ficar preocupado com a situação, prestando atenção nas conversas alheias em busca de notícias dos dois. O tempo passou e se encarregou de sanar minhas dúvidas. Camille voltou a se sentar comigo, dessa vez para ler as cartas que seu amado enviava enquanto a criança em sua barriga crescia.
“A lua me sorriu ontem a noite, mon amour”, ela leu em voz alta, “sorriu um sorriso cúmplice, como se soubesse um segredo que não quer contar, mas não resistiu ao meu charme e o revelou: em dois dias volto pra casa”. Dessa vez as lágrimas foram de alegria.
Eu estava lá quando os dois se reencontraram, ansioso para ouvir tudo que Greg teria para contar sobre sua aventura, que era como ele dizia. Estava lá também para receber o pequeno Matthieu em seu primeiro passeio.
Algumas histórias não tiveram um final tão feliz como essa, embora tenham trazido algum aprendizado, mas gosto daquelas que terminam bem,  daquelas cheias de sorrisos, reencontros, amores, vitórias. Sou um banco otimista assumido, acredito nas coisas boas.

Por fim, agradeço seu tempo e continuarei aqui convidando as pessoas a me contarem suas histórias ou a ouvir as minhas. Faça o mesmo onde quer que esteja, são raros aqueles que compartilham e escutam, então seja uma raridade.

Clique em Sra. Jones e Antoine para saber a história dos dois.

As folhas, o carvalho e a caixa de correio

| segunda-feira, 21 de março de 2016


Ele jamais se esquecera dela, embora já fizesse alguns anos desde a última vez que a menina da fita azul no cabelo estivera ali. A memória do carvalho lhe servia muito bem, obrigado, apesar de seus cento e tantos anos – ele parara de contar quando sua idade ultrapassou seu número de galhos.
As flores conversadeiras se estendiam pelo gramado diante de si, incontáveis tagarelas sussurrando segredinhos e murmurando entre si sobre a mudança das estações, ouvi dizer que esse é um tópico muito importante a ser discutido entre elas, adoradoras da primavera.
A caixa de correio ainda está lá com seu bracinho erguido, caso você esteja imaginando e não, nenhuma flor conseguiu se tornar a pioneira em furtar uma carta de lá, mas elas ainda tentavam.
Ao longe vinha o moço de uniforme, com sua bolsa carregada de envelopes. O carvalho observou paciente, sorriu um sorriso de árvore, que é o único jeito que ele poderia sorrir e aguardou. O homem repousou brevemente em sua sombra, sentindo o vento abraçar-lhe como se fosse um visitante bem quisto nas redondezas. Do mesmo modo sucinto que veio, ele partiu. Dessa vez não deixou nenhuma correspondência na caixa cheia. Mas ora, a introdução dessa história está ficando longa demais, as flores, a menina e a caixa de correio fazem parte de outro capítulo, de um ciclo já encerrado, hoje quero falar sobre as folhas.

Uma árvore é um mundo. É um universo em si, do chão ao céu, com seus galhos se espreguiçando na direção de todos os pontos cardeais, como dedos apontando e sugerindo inúmeros caminhos a se seguir e aquele velho carvalho não haveria de ser diferente. Folhas novas, frescas e verdinhas nasciam constantemente em seus galhos, pequenos filhotes da natureza, curiosas sobre o mundo e felizes por fazer parte daquele em que viviam.
Algumas estavam posicionadas mais altas que as outras, mas nada que um grito ou outro não fizesse o trabalho para sua comunicação, além da ajuda do vento que sacudia os galhos numa melodia ora suave, ora agitada.
Havia insetos e pássaros também, toda uma possibilidade infinita de cores, tons e histórias. Ah, havia também o moço do uniforme, claro, e a menina que nunca mais foi vista. Todas as histórias eram contadas para as folhas mais novas, que ouviam atentamente, soltando exclamações quando necessário e esperando com a mais cega fé de que algo incrível pudesse acontecer ao redor enquanto estivessem por ali.

As flores lá embaixo estavam mais agitadas do que o normal naquele dia – conversando sem parar sobre moda, imagine só, estavam discutindo as tendências da próxima estação. Aquela que acabara de dobrar a esquina e trazia nas costas a promessa de um tempo mais ameno. Aquela que as folhas mais temiam.
O outono era como um conto de terror na beira da fogueira do acampamento das folhas, ele que era o responsável por roubar-lhes as matizes de verde a soprá-las para um destino que nenhuma jamais voltou para contar como foi. O carvalho já se acostumara com as idas e vindas do outono com seu roubo ousado, assim como sabia que outra estação lhe traria o verde novamente, rejuvenescendo-o, afinal, nada aparenta ser mais velho do que um carvalho careca.
Todas as folhas estavam apreensivas e assim permaneceriam pelos dias seguintes, olhando ao redor e agarradas com força em seu galho, se perguntando qual delas seria a primeira a vestir tons de amarelo e cair. As visitas do vento não eram mais tão auspiciosas e até a presença de pequenos animais lhes causavam tremores. Dizem que não é fácil ser uma folha no outono e também que não é raro ouvir o berro assustado de uma delas ao confundir uma borboleta valsando na brisa com seu colega de galho.

Nenhum havia caído até aquele final de tarde que se tornaria histórico, portanto todas elas viram quando a caixa de correio finalmente pôs seu braço para descansar. Uma moça de cabelos esvoaçantes retirara todo seu conteúdo e lia atentamente cada palavra nos envelopes, em sua expressão se via um misto de nostalgia com ternura. Seu olhar cruzou o horizonte na direção de uma casa abandonada no fim da colina.


Enquanto isso todas as flores a observavam em silêncio, o mesmo pensamento repousado em cada pétala. Será que ela voltou?

Para ler a história da menina de fita azul, clique no link em destaque do texto. Que a inspiração do outono se faça presente com mais frequência para nós.

A solidão de ser só

| sexta-feira, 22 de janeiro de 2016


Dê a ele o nome que quiser, as características que achar que o define. Dê a ele sonhos despedaçados e um pote de cola para juntar os pedaços. Dê a ele até um sobrenome, mas nada disso vai mudar o fato de que ele ainda se esconde nas entranhas de sua alma, nos cantos sem luz de seu mundo.

Ele não é de todo estranho, como aquelas crianças prodígios que resolvem equações monstruosas ou que detêm um vocabulário mais rebuscado que poetas de séculos passados, tampouco é aquele garoto sinistro que desenha círculos infindáveis dentro de outros círculos durante a aula de artes e que diz que só os fez porque as vozes mandaram. Ele é apenas só. Acompanhado de sua solidão docemente triste, sem fantasmas, sem ninguém.
Calado durante o jantar escuta silenciosamente os pais discutindo sobre ele. O pai quer que ele faça amigos, pratique esportes e atividades exaustivas, a mãe por outro lado aperta as mãos em nervosismo só de pensar que há algo de errado com o filho, teme até mesmo cogitar a ideia de procurar ajuda. Ele queria dizer a eles para não se preocuparem, ele está bem assim, acostumou-se em ser só, acomodou-se a esse fato como se a solidão e ele fossem feitos para estarem juntos, como peças desconexas que por algum motivo se entrelaçaram na caixa de brinquedos e parecem que sempre pertenceram uma a outra. Mas mesmo que ele tentasse dizer alguma coisa, os pais não o ouviriam, estavam presos em suas próprias convicções das quais ele não tinha parte em argumentar.
Na sala de aula ele resolvia os problemas matemáticos com afinco, escrevia as redações pedidas, fazia experimentos, analisava soluções, era um aluno bom, quieto, mas bom. Na hora do recreio sentava-se longe de todos, não participava das conversas, não queria fazer parte dos grupos estereotipados que se formavam e que provavelmente definiriam o futuro de cada membro, salvo algumas exceções que conseguiriam se desvincular dos rótulos ao longo da vida. Raramente faltava das aulas, gostava de aprender, seu único desconforto, porém, era quando lhe diziam que ele tinha que fazer isso ou aquilo porque era assim que as coisa eram e pronto. Ele não concordava com isso.
Refugiava-se em livros onde heróis derrotavam vilões e salvavam as donzelas indefesas, onde havia magia e tudo era possível. Vagava por esse mundo numa facilidade deslumbrante, mas não se via na pele de nenhum herói. Não tinha ambição de se tornar um salvador, um famoso de renome. Quanta dor de cabeça isso traria!

No parquinho aprendeu a nomear os pássaros que perpassavam e os gatos que vez ou outra corriam pelos muros. Saboreou a simplicidade de se deitar sob as árvores só para aproveitar a sombra fresca. Brincou no escorrega com seu sorriso pueril estampado no rosto, ainda que lhe faltasse um dente ou dois. Desenhou com as nuvens. Alimentou alguns cachorros de rua em troca de um olhar de gratidão tão sereno que fazia seu peito se encher de uma emoção ainda sem nome. Tentou se equilibrar no meio fio, desafiando a gravidade derrubá-lo. Mas foi na gangorra que encontrou seu maior problema, onde mesmo a gravidade olhou para o outro lado fingindo não ver o que acontecia só para não ajudá-lo a fazer a outra ponta do brinquedo descer.

Detrás dos arbustos, ela observou o menino calado sentar-se no brinquedo que era feito para duas pessoas. Olhou ao redor procurando enxergar alguém se aproximando dele, mas não encontrou ninguém. Por que só os meninos podem ser heróis?, ela pensou destemida, Talvez ele seja meu donzelo indefeso.

Assim, ela sacudiu os cabelos, jogando-os para trás e foi na direção daquele que se tornaria seu primeiro amor.

Iniciando 2016 no blog com a visita dessa tal de inspiração que resolveu aparecer num dia de sol. Até a próxima, sorridentes.  

As coisas boas estão aguardando

| quinta-feira, 31 de dezembro de 2015


Às vezes as melhores coisas que acontecerão na sua vida acontecerão por acaso, como uma chuva inesperada que resolveu se desprender de uma nuvem acinzentada. Mas há que saber, e ainda até se conformar, que para alguns inícios são necessários alguns fins, aquele lance de que duas coisas não podem ocupar o mesmo espaço e tal que um físico teria muito mais propriedade para falar do que eu, o fato é que não há muita complicação nessa equação. É um entendimento corriqueiro, cotidiano, daqueles que a gente nem pensa muito porque já sabe. Porque já aprendeu desde pequenininho.
Voltemos então para as melhores coisas, aquelas que ficam esperando por você, contando os segundos com os olhinhos grudados nos ponteiros do relógio, tremendo de ansiedade por sua chegada. Elas são realmente muito boas nessa coisa de esperar. Afinal, construções levam tempo para serem erguidas, histórias levam tempo para serem escritas e anos levam tempo para passar, alguns particularmente mais do que outros, mas as suas melhores coisas esperam por você, sem vacilar, sem exaustão.
Que a sua, a minha, a nossa caminhada seja em passo leve na direção daquilo que é bom. Que a simplicidade passeie ao nosso lado, que os mais bobos clichês nos rodeiem pelas calçadas e que, acima de tudo, possamos ver. O enxergar nem sempre é fácil, pois nuvens de incerteza, como aquelas acinzentadas que carregam chuva, pairam em nossa cabeça e desfocam nossa visão. Que a gente veja, então. Veja e entenda que há coisas pelas quais não vale a pena pensar demais. Até arriscar pode ser simples, às vezes, basta acreditar, assuste seus medos ao fazer isso.

Que venha o novo, pois mudanças trazem a boa-venturança das novidades, do desconhecido, das surpresas pelo caminho. Que você mude por você e para você, troque suas cores, seus sabores, seus olhares. Rasgue tudo aquilo que não lhe traz bem. Cultive somente aquilo que lhe agrada. Que a sensibilidade exagerada populista e pseudo-política-culta-intelectual passe longe de você. O mundo já está cheio de pobres infelizes cumprindo esse papel em todas as redes possíveis. Dê voz a si mesmo. Lute suas lutas. Sorria suas vitórias. Tire algo de suas derrotas.

Para você eu desejo que seja simples. Para o homem eu desejo que aprenda a ser mais humano. Para o mundo, bem, para o mundo eu desejo que o homem consiga realizar esse meu desejo.

E que suas melhores coisas te alcancem nos dias que estão por vir.

Última postagem do ano, sorridentes. Para mim eu desejo mais tempo e mais inspiração para voltar mais vezes à minha própria casa, sinto a poeira bailar pelo ar toda vez que apareço por aqui. Mas enfim, desejo que 2016 seja para você tudo aquilo que 2015 não foi e muito mais. Um incrível ano novo com direito a tudo de melhor que há. Abraços.


6 anos de sorrisos

| terça-feira, 3 de novembro de 2015

Há um tempo venho negligenciando essa data, por vezes até me esquecendo dela, devo admitir, mas hoje decidi que não deixaria passar sem ao menos umas breves palavras, afinal de contas devo grande parte do meu aprimoramento na escrita ao blog. Hoje enfim, 6 anos de postagens.
6 anos de vários personagens criados, alguns dos quais me identifiquei mais que outros, alguns dos quais até me ensinaram algumas coisas durante seu processo de criação, alguns dos quais eu jamais esquecerei, não importa o número de vezes que o tempo dê em torno de si. 6 anos da fusão do irreal com partes de mim mesmo.
Não vou me estender muito mais, essa postagem foi apenas para me lembrar mais vezes das palavras guardadas aqui, daquelas que um dia foram tão presentes e andam perdidas nas sombras, esperando pacientemente que um facho de luz as encontre.

Que no próximo aniversário eu possa comemorar uma assiduidade mais significante por essas bandas. E a você que ainda tropeça no meio do caminho e vem parar aqui, eu só devo agradecer pela visita. E volte se puder, se quiser... ou apenas para um "olá" casual.

Para acalmar a espera delas

| terça-feira, 13 de outubro de 2015

Elas estavam por todo lado ao seu redor, umas mais tímidas que as outras, encarando-o com aquele olhar apreensivo de quem quer dizer algo, mas não sabe como, outras mais espalhafatosas, vestidas de cores berrantes implorando por atenção, algumas ainda cientes de sua importância não se davam muito ao trabalho de pedir para serem notadas. Elas se esticavam nas lombadas dos livros, se agarravam nas embalagens dos produtos que comprava, dependuravam-se nos lembretes que ele pregava na parede torcendo para não escorregarem do papel. As palavras sempre estiveram por perto.
Elas sabiam que ele, sendo movido pela escrita, tinha um poder incrível nas mãos, não entendiam, porém, porque ele não o usava mais.

Talvez tenha sido culpa do tempo, das questões mais urgentes da vida, das prioridades que exigem mais de si do que as palavras jamais o fizeram, o fato é que ele as deixou ir, soltou sua mão em uma avenida caótica e turbulenta e perdeu-se delas no meio do caminho, numa ruela ou travessa qualquer. Talvez tenha sido a criatividade que o abandonara, afinal, indo passear em jardins mais floridos e perfumados ou quem sabe o mundo já não o inspirava como antigamente.
Ele não as esqueceu por completo, vez ou outra revisita seu arcabouço só para sentir aquela calorosa nostalgia aquecer seu peito enquanto sente uma pontada de frustração por ter deixado as coisas chegarem naquele ponto. Suas próprias velhas palavras lhe acenavam da distância do tempo passado, relutantes a desaparecerem numa névoa de esquecimento. Elas sempre encontram seu caminho de volta e ele sabia que elas sempre estariam lá, de braços abertos para recebê-lo com pompa e glória. Então ele sente aquele gostinho doce da tristeza perpassar seu paladar, compreende até mesmo o valor que manter-se longe pode causar e como a maturidade tem seu papel a desempenhar.  
Seus olhos ainda contêm aquele senso de busca por qualquer resquício de inspiração, seus ouvidos ainda prestam atenção com carinho às letras das canções, vasculhando versos que lhe instigarão a escrever e enquanto se deita ele se permite flutuar em devaneios sobre um mundo no qual pudesse se livrar da ferrugem que teimosamente se instalou em seu ombro, mas adormece antes de conceber ideias totalmente formuladas e, tragado pela pressa do dia seguinte, se esquece mais uma vez das palavras. E não escreve.

Elas apenas esperam, afinal o que mais lhes resta a fazer? Sentam-se desoladas na beira das linhas, se misturam com outras de teor menos poético e mais prático e direcionado ou simplesmente o observam dormir, desejando que, pelo menos, em sonhos eles possam estar juntos outra vez. 

Porque, às vezes, a saudade de escrever aperta um pouco mais.

O doutor das palavras

| sábado, 25 de julho de 2015


Com precisão cirúrgica ele costurava uma palavra na outra, fazendo suturas e operações complexas por horas a fio. Cortava daqui, pregava de lá. Seus dedos firmes sobre o teclado feito as mãos de um cardiologista que segura um coração partido. Olhos pacientes e analíticos como os de um neurocirurgião que vasculha o resultado de uma ressonância magnética em busca de um pontinho ínfimo que não deveria estar ali.
Metódico, perfeccionista, autocrítico até a raiz dos cabelos, não admitia que seus períodos e sentenças fossem desconexos. Unia tudo muito bem com linhas de raciocínio elaboradas para causar exatamente aquilo que ele esperava. Horror, surpresa, alegria. Sorria ao deslizar por frases afiadas feito um bisturi. Deliciava-se no caos de sua própria sala de operação de traumas. Adorava o silêncio de seu quarto à meia luz contrastando com a cacofonia que retumbava em sua mente.
Não nascera para ser doutor, embora esse fosse o desejo de seus pais. Não gostava de ver o sangue em suas mãos, apesar de ter cometido vários homicídios, ora com uma caneta em mãos, ora na tela de seu computador. Ele nascera para escrever, desde cedo sempre soubera disso. Amou as palavras antes de se apaixonar pela primeira vez na infância. Dançou sua primeira valsa na companhia de livros. Dormiu ao som dos sussurros dolorosos de um poeta. Sonhou sonhos de fantasia, ficção e autobiográficos até. Acordou para ser escritor.

Enquanto caminhava pelas ruas, observador como era, analisava o tráfego, as pessoas, os comportamentos, as situações. Tudo ao redor era fonte de inspiração, todos eram histórias. Um sorriso que espiava em busca de seu par, um beijo trocado por enamorados de mãos dadas caminhando pelo parque, a risada das crianças correndo pelas calçadas, o cheiro convidativo que vinha da padaria ao seu encontro, uma melodia atrevida que se esgueirava por uma janela aberta no segundo andar, uma foto em preto e branco no jornal, a conversa entre desconhecidos no ponto de ônibus. Há vários universos encostados uns nos outros.
Na vitrine da pequena livraria do bairro, aquela cheia de livros já empoeirados, esquecida entre lojas de roupas e de sapatos, lá estava seu livro. Aclamado pela crítica, bem recebido por leitores afoitos, aplaudido de pé nas estantes por toda a parte.
Sorriu ao ver a capa lindamente produzida pela editora, a fonte do título, a cor das letras. Encheu-se de alegria até pelas páginas levemente amareladas do miolo, essas não cansavam as vistas, ele sabia. Era realmente um sentimento extraordinário ter pessoas interessadas em suas palavras, até mesmo aquelas pessoas que retiravam frases de seu livro e as publicavam fora de contexto pelas redes sociais. Era emocionante ser lido, a verdade era essa.
Encarou mais uma vez o livro através da vitrine, antes de se despedir. Dessa vez sentiu uma pontada de tristeza no peito, uma dorzinha que nenhum médico seria capaz de curar, um pontinho que jamais apareceria em um raio X. O nome atribuído ao autor daquele livro não era o seu. Suspirou tristemente ao contemplar seu destino, deixara de ser um escritor de gaveta para se tornar um escritor fantasma. Vendeu sua alma por um valor aquém do merecido.


Talvez em algum outro universo o nome reconhecido seja o seu. Ou talvez por lá ele se torne um médico, afinal. 

Há datas que sempre merecem ser celebradas e hoje é uma delas, pois hoje é o dia daquele que encontra uma maneira de dizer o que os outros não conseguem através de suas palavras. Dia daquele que pega as palavras pelas mãos e as mostra o caminho a seguir, aquele que, às vezes, até atravessa a rua com elas para que não haja risco nenhum. Portanto, um feliz dia do escritor para todos que fazem desse dom uma bela arte aos olhos alheios.

O que se esconde por trás das palavras

| segunda-feira, 29 de junho de 2015

Sempre fui daquele tipo de gente que segurava as palavras na mão com tanta força que no momento em que elas deveriam ser soltas já estavam tão atadas à minha palma que nem mesmo fortes sacudidelas as faziam sair. Sendo assim, sempre fui também muito calado ao que era intrínseco ao coração, achava que se era algo só meu, só do meu sentir, do meu querer, do meu pronome possessivo meu e de mais ninguém então não deveria compartilhar.
Porém há vários tipos de palavras e a escrita foi aquela que eu jamais consegui conter dentro de mim, pois ela pulsava por minhas veias, sussurrava secretamente em meus ouvidos e se mostrava em toda sua invisibilidade presa na minha retina. Então tão natural quanto respirar meus dedos aprenderam a dançar, primeiramente uma valsa sutil e acanhada na companhia de uma caneta qualquer, depois no salão de um teclado, tornando as palavras visíveis a cada passo trôpego da barrinha que se movia da esquerda para a direita, revelando os segredos guardados na melodia das letras e no som das teclas.
Entretanto ser recebedor das palavras não foi algo que eu costumava ser, eu as distribuía em textos construídos com o melhor uso possível do talento que eu acredito possuir, mas recebê-las? Não, não eu. Ter alguém disposto a depositá-las diante de mim como presentes nunca foi algo que cheguei a cogitar, pois, veja bem, sempre soube ser eu o doador de palavras, não o receptor.
Mas surpresas hão de vir pelo caminho. Feito aquela música que você está pensando e de repente escuta tocar em algum lugar, como uma coincidência muito bem arquitetada pelo destino.
Disse ali no início que sempre fui aquele que segurava as palavras, sim, disse no pretérito perfeito e o mais perfeito é que fique no pretérito mesmo, pois aprendi que as palavras não devem viver aprisionadas nas palmas das mãos ou na escuridão de uma boca fechada. Pelo menos não aquelas palavras destinadas à pessoa que te ensinou essa preciosa lição.
Hoje eu me tornei um receptor. Descobri que o que se esconde por trás das palavras são pessoas. E descobri também que assim como eu várias pessoas são feitas de palavras, várias delas são doadoras universais, mas que também podem receber algumas vez ou outra. Por trás das palavras também há sentimento, dos mais variados tipos possíveis. Então falemos deles, libertemo-los das trancas da língua e dos nós dos dedos, que enxerguemos suas cores ao vento e inventemos novos matizes.

Hoje eu sei que receber as palavras é tão bom quanto doá-las. Sei disso porque meus dias são mais coloridos por causa das belas palavras, daquelas três palavras, do sentimento por trás delas e das ações que as comprovam. Porque eu tenho uma doadora comigo, que adora me surpreender de tempos em tempos com embrulhos inesperados em forma de textos e declarações. Então nada mais justo do que usar dessas minhas palavras para doar meu pequeno obrigado diante da grandeza de tudo que ela me ensinou a sentir e viver.

E sim, eu sei que sou um cara sortudo.

Sobre a imagem: porque é em alemão ~ e há ótimas palavras nesse idioma e porque é pra ela.
E claro, devo deixar aqui o link do blog da moça encantadora que vem me ensinando a encontrar as palavras há muito perdidas dentro de mim ~> O que se esconde por trás das palavras. Apreciem.

Das datas que pedem flores, ou não

| sexta-feira, 12 de junho de 2015


(...) Coisa linda
Vou pronde você está
Não precisa nem chamar...

O moço que há até certo tempo não era afeito de celebrar datas que não fossem seus aniversários descobriu o sabor de outras datas e hoje não quer mais saber de trocar de paladar.

Além de novos sabores adocicados, ele conseguiu ser capaz de desanuviar seus olhos e enxergar diversas novas matizes escondidas em cada pincelada de cor que existe no mundo, assim como destrancou palavras dentro de si que jamais haviam atingido a superfície. Um moço distraidamente sortudo e, portanto, universalmente agradecido.

A moça que sempre preferira comemorar as datas recheadas de chocolate surpreendeu-se ao perceber que há outras datas tão deliciosamente saborosas quanto bombons, trufas e afins.

Ao mesmo tempo pôde apreender melhor as canções alegres daqueles passarinhos cheios de fôlego nas manhãs de domingo, sentiu-se mais ainda abraçada pelo toque do vento que trazia consigo a lembrança de um cheiro que se tornou tão seu enquanto confidenciava segredinhos com a lua silenciosa. Uma moça ocasionalmente distraída e, sendo assim, grata a vida e tudo mais. 

Esses dois podem ser vistos passeando de mãos dadas por calçadas, cochichando secretamente em bancos de praças, sorrindo um sorriso só deles enquanto observam o desenho das nuvens. Você pode até conhecê-los, são exímios dançarinos com dois pares de pés esquerdos, cantores graciosamente desafinados, desastrosamente apaixonados.
Eles podem ser você, seu amigo de infância, seu conhecido apenas de “bom dia”, seu colega de trabalho ou de escola, seu vizinho. Podem ser estranhos na fila do banco, transeuntes das ruas do centro da cidade, desconhecidos na mesa ao lado do bar.
Eles são aquele casal que dá graça de ver, que por entenderem que “o lar é onde o coração está”, encontraram no outro sua casa. São um mais um. São singularmente um plural. São dois caminhos que se esbarraram numa encruzilhada do avesso.

É bonito de ver quando a vida coloca moços e moças assim frente a frente, como peças em um tabuleiro que não podem mais seguir sozinhas, na qual o encaixe dos dedos é tão certeiro que não há porque se soltar. Não há o querer se soltar.
E por ser tão bonito de ver é que o mundo deveria ter mais encontros assim.
Por mais moços e moças apaixonados, por mais versos delicados, por mais abraços e beijos. Por mais amor.

Que mais pessoas encontrem o sabor dessas datas. 

Porque hoje é dia de abraçar bem forte, beijar sem pressa e estar perto daquela pessoa que você permitiu estar contigo e que se permitiu a sua presença. Porque hoje pede celebração, pede romance, pede sorrisos partilhados. Porque hoje a comemoração não é um presente objeto, mas sim o amor concreto. Então deixo aqui meu feliz dia dos namorados.
 

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