• Dos caminhos que se foram e dos que hão de ser




    Quando olhava para trás via sua vida como um longo pergaminho desenrolado, que se esticava em busca do horizonte até onde os olhos conseguiam ver, cheio de linhas preenchidas com as mais variadas palavras pinceladas pelo estilo característico daquele que o criou. Releu algumas de suas passagens preferidas; sorriu sorrisos diáfanos que outrora haviam sido coloridos; franziu a testa ao reviver trechos dos quais discordava dos caminhos tomados por seu criador; sentiu a coceira da rinite na ponta do nariz ao revisitar lembranças empoeiradas e esquecidas de parágrafos que jaziam lá no começo de tudo; olhou através do véu que cobria o passado e vislumbrou seus encontros e desencontros, amores e desamores, sabores e dissabores; escutou, ainda que abafado pela distância, o eco das músicas que lhe deram vida. Observou cada detalhe, tomando-os delicadamente nas mãos, como quem segura um filhote de pássaro, os olhos marejaram involuntariamente enquanto depositava sua história no bolso da calça surrada que vestia.

    Parado no ponto onde estava, no presente do que já foi, no passado de um futuro que será, preso no limbo de uma meia existência, ele tentava entender as opções que tinha. Olhava para frente e via o nada, uma trilha em branco, desprovida de continuidade, continuamente sem vida. Não havia cor, som ou sabor. Nada de amor, dor nem rancor. Apenas uma encruzilhada de um caminho só que ainda não aprendera a se bifurcar. Incertezas e interrupções bruscas, falas não ditas, frases não escritas e uma completa incompletude. Não havia como retroceder para páginas passadas, recolher-se miudamente entre as linhas e esperar. Mas esperar o quê? A espera era o mal de sua essência, era o esquecimento que o amarrava no mesmo lugar.

    Ele não estava só, sabia disso. Havia outros como ele, alguns em situações até piores, que caminhavam na linha tênue entre viver e deixar de existir. Alguns conhecidos empacados em páginas anteriores, congelados na expectativa do vir a ser, acorrentados num imaginário sem paredes. Todos eles estavam à deriva na vastidão de um mar sem movimento, com o nada em vista não importava para que lado olhassem.

    Ele pensou que deveria agir, tomar alguma atitude que o livrasse daquele anseio, que lhe desse novamente um propósito de vida, que lhe trouxesse as respostas dos porquês, onde, quando e como. Se o seu criador o esquecera trancafiado em uma gaveta escura, era seu dever elaborar uma fuga e fazer-se ser lembrado outra vez. O personagem ponderou por mais algum tempo de um tempo que não se media, buscando entender o paradoxo de seu mundo e encontrar uma maneira de esgueirar-se para outro. A estrada em branco pela frente precisava ser preenchida. Conversou com outros personagens, mandou recados para aqueles que não conseguiam lhe ouvir, trocaram ideias e arquitetaram um plano mirabolante.

    Pouco a pouco, começaram a construir seu próprio futuro, um mosaico montado com palavras recortadas de antigamente que preenchiam a brancura que havia pela frente. Transportaram para as páginas em branco travessões para dar vida a seus apelos, interrogações que questionavam o abandono, exclamações que demostravam suas insatisfações, uma porção de vírgulas, pontos finais e tudo mais que achavam que mereciam. A cada fragmento completado eles caminhavam mais próximo de uma verdade que nem sabiam o que era, desvendavam mistérios a seu bel prazer conforme seu vocabulário limitado permitia.

    No final o caminho percorrido estava mais longo, mais esburacado e desconexo, até, mas completo. Não havia mais amarras, mais ninguém perdido sem saber para onde ir nem pendurados em abismos esperando por salvação. Não foram todos que chegaram até ali, houve lágrimas, despedidas, tristezas misturadas com vitórias, alegrias misturadas com choro, tudo remendado um no outro da maneira mais perfeita que conseguiram fazer utilizando os retalhos de suas próprias histórias.

    Os personagens se preparavam para a colocação do último ponto final, daquela peça restante que completava todo o quebra-cabeça; o fizeram com pompa e glória, orgulhosos de terem aprendido a lição de que podiam escolher seus finais sem depender de um criador negligente.

    O que eles não sabiam nem nunca saberiam era que aquele era exatamente o destino deles concebido na cabeça do escritor

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    Porque o Dia do Escritor é um daqueles que precisam ser celebrados entre as palavras. 
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