O moreno cordelista



No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade (...)

De todas as histórias de amor, as que mais doem são a dos amores não vividos.
Vou lhe contar então a história de um moço que aprendeu a despejar sua dor em versos, enquanto espera que suas palavras encontrem sua fonte de inspiração.
Não se assuste com as estrofes que encontrar pelo caminho, pois a história desse moço ora rima com amor, mas sempre rima com saudade.

Todo dia ele sai de casa e vai até a cidade, carregando na mala surrada seu trabalho, sua arte. Nas ruas de pedra do centro ele monta sua barraca, pendura os barbantes e neles seus livretos repletos de versos tristes sobre um amor que jamais viveu.
As pessoas já o conhecem pelo semblante pesaroso, pelo sorriso sem alegria e olhos marejados, mas nem todos que leem sua obra conhecem a dor que ele carrega no peito.

Quando a noite se derrama,
a lua sobe na encosta,
lá de cima ela olha
para o moço de quem gosta,
mas ele só pensa na morena
que um dia lhe deu as costas.

Eles moravam a poucas fazendas de distância, estudavam na mesma classe e vez ou outra caminhavam juntos para casa depois das aulas. Com o tempo o amor pueril de criança começou a brotar no peito do menino e ele o alimentava com sonhos ingênuos e esperanças descabidas.
Sonhava acordado, imaginando os dois em uma casinha simples, janta na mesa e um filho ou dois correndo no quintal. Nem sempre era assim, mas quando criava o futuro em sua mente, sua pequena morena sempre estava lá, com o sorriso radiante feito o sol que sai detrás de uma nuvem marota.

Foi na infância que o moreno
conheceu o tal do amor.
Mal sabia o pobrezinho
que o que lhe esperava era a dor,
Pois a morena foi simbora
para casar-se com o doutor.

O tempo passou e ele permaneceu calado, guardou todo seu amor em uma gaveta escura e nunca permitiu que ela pudesse vê-lo. Ele não suportaria a dor de ser rejeitado e quando menos percebeu, havia trocado essa dor por uma que machucou na mesma medida.
A pequena, certo dia, engraçou-se com o jovem médico da cidade. O doutor de fala mansa, bonito e bem vestido, conquistou a morena com seus modos educados e lhe entregou um amor cheio de promessas de aventuras pelo mundo afora.

Desde então esse moreno
afundou-se em solidão,
pois sente em seu peito
um despedaçado coração
que bate descompassado
por uma triste ilusão.

Sua única companhia depois que ela se foi foram seus cadernos e a caneta. Ele começou a escrever histórias melancólicas em versos e rimas e com o tempo tornou-se famoso por aquilo que escrevia, atraindo várias pessoas curiosas pelo seu talento, contudo nunca conseguiu atrair aquela que mais queria.

Até hoje ele espera
pela volta da morena,
enquanto escreve versos
que sua dor amena,
torcendo para que eles
lhe tragam sua pequena.

Quem sabe algum dia eles voltem a se encontrar ou que o coração do moreno se abra para um novo amor. Se isso acontecer, vamos torcer para que ele o viva dessa vez e não apenas escreva sobre o que poderia ter sido e não foi.


Saí de meu ostracismo literário, pois o dia de hoje pede. Que os escritores de todos os tipos continuem encontrando sua inspiração e nos presenteando com as mais incríveis histórias, um feliz dia do escritor para todos esses lindos.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

1 sorrisos compartilhados:

Joyce Silva disse...

Agora eu terei um texto seu para lembrar da música certa! hahahahaha Um feliz dia do escritor para aquele que me escreveu a melhor história de amor comigo! Parabéns pelas suas palavras!

Que o moreno do texto encontre um amor para viver e não só para escrever <3