Das histórias que preenchem

                                   Foto por: Milton Rodrigues Junior


Sente-se comigo que eu tenho muita coisa pra contar.

A paisagem ao meu redor muda em sua constância cadenciada, como há de ser.
Os dias de sol são lindos e cheios de nuvens brancas passeando pelo extenso azul; os dias cinzentos vêm acompanhados daquela expectativa de uma chuva que ora cai, ora se reserva para outro momento; os dias brancos e frios de neve são aqueles que pedem por mais cor. Porém mais do que tudo, o que mais se espalha por todos os cantos em que posso ver, são as histórias.
Há uma infinidade delas sendo vividas, contadas, escritas, compartilhadas, mas você deve estar se perguntando “o que diabos um banco pode saber sobre histórias?” e eu lhe respondo com a maior serenidade que um banco pode ter “eu sei de muita coisa”.
Sei, por exemplo, que todas as manhãs de quinta-feira a senhora do 60B se dirige à boulangerie Vie en Rose para comprar pães, enquanto o senhor do prédio ao lado passeia com seu cão, o que ela não sabe é que ele nutre sentimentos adocicados por ela, então ela apenas continua comprando pães. Sei também do breve caso de amor que se passou no café La vie sucrée entre a Sra. Jones e o pintor Antoine, essa é uma das minhas histórias preferidas, devo dizer.
Conheço as crianças pelo nome, pela voz e pelo riso. Acolho os turistas animados que vez ou outra se sentam para um descanso e me presenteiam com suas histórias de lugares distantes que só poderei imaginar como é.

Eu poderia ficar tagarelando por horas a fio, pois saiba você que eu tenho todo o tempo do mundo, contudo eu sei que o tempo é um recurso escasso na vida corrida das pessoas, mas gostaria de pedir a gentileza de tomar um minuto seu para contar aquela que acredito ser uma das melhores e mais antigas histórias que foram deixadas para mim.
A história se passou pouco antes da segunda metade do século XX, Camille era uma jovem moça que trabalhava na sapataria do pai. Ela me fazia companhia durante seus lanches da tarde e também quando decidia escapar das tarefas e observar as folhas caindo das árvores do parque naquele outono e foi exatamente numa de suas fugas que ela conheceu o rapaz Grégoire, um destemido sonhador, do raro tipo que se encontra em ruas movimentadas do centro da cidade. Ele, por sua vez, queria ser poeta.
“A magia da poesia é capturar o brilho das estrelas e amarrá-lo em versos tão lindos que a beleza da lua teria inveja”, você o ouviria dizer sorrindo, tentando inspirar as pessoas ao redor, mas outra beleza mais terrena lhe chamou a atenção.
Camille e eu observávamos a paisagem quando o olhar dos dois se encontrou, dizem que existem poucos instantes em que o tempo prende a respiração e esquece-se de correr, aquele foi um deles. Greg aproximou-se vestindo seu melhor sorriso, imagino que sua mente deveria estar cheia de linhas e versos emaranhados. Camille se remexeu delicadamente, acometida por borboletas voadoras em seu interior. Tão rápido quanto chegou o momento passou, como se o tempo despertasse de seu transe e tentasse compensar o deslize cometido. O pai dela a chamou para completar as tarefas e os dois se despediram por olhares sem nem a chance de trocar palavras.
Eu já vi muita coisa e sei determinar certos padrões ou clichês, se você preferir, sendo assim eu já suspeitava como a história iria se desenrolar. No dia seguinte lá estávamos Camille e eu quando Greg reapareceu.
“Um homem pode ter muitas tristezas em sua vida, mas nenhuma dói mais do que perder chances e ter que viver constantemente se perguntando o que poderia ter acontecido”, certamente ele teria que fazer uma chegada com seu charme usual.
Camille enrubesceu e então começaram a conversar. Eles eram de tratos fáceis, encontraram os pontos em comum, completaram as frases um do outro de um jeito bobo e divertido daqueles que podem ver o amor dobrando a esquina. E assim foram as tardes que se seguiram, eles sentavam-se comigo, compartilhavam segredinhos, sussurravam pequenas declarações, saboreavam sorvetes e trocaram o primeiro beijo.
Acompanhei de perto a emoção do apaixonar-se, a evolução dos sorrisos, a troca de olhares sugestivos e as lágrimas de tristeza e o sentimento de injustiça quando Greg recebeu a convocação para a guerra. Camille correu inconsolada pela rua de pedra, Greg a seguiu e por dias eu não os vi.
Comecei a ficar preocupado com a situação, prestando atenção nas conversas alheias em busca de notícias dos dois. O tempo passou e se encarregou de sanar minhas dúvidas. Camille voltou a se sentar comigo, dessa vez para ler as cartas que seu amado enviava enquanto a criança em sua barriga crescia.
“A lua me sorriu ontem a noite, mon amour”, ela leu em voz alta, “sorriu um sorriso cúmplice, como se soubesse um segredo que não quer contar, mas não resistiu ao meu charme e o revelou: em dois dias volto pra casa”. Dessa vez as lágrimas foram de alegria.
Eu estava lá quando os dois se reencontraram, ansioso para ouvir tudo que Greg teria para contar sobre sua aventura, que era como ele dizia. Estava lá também para receber o pequeno Matthieu em seu primeiro passeio.
Algumas histórias não tiveram um final tão feliz como essa, embora tenham trazido algum aprendizado, mas gosto daquelas que terminam bem,  daquelas cheias de sorrisos, reencontros, amores, vitórias. Sou um banco otimista assumido, acredito nas coisas boas.

Por fim, agradeço seu tempo e continuarei aqui convidando as pessoas a me contarem suas histórias ou a ouvir as minhas. Faça o mesmo onde quer que esteja, são raros aqueles que compartilham e escutam, então seja uma raridade.

Clique em Sra. Jones e Antoine para saber a história dos dois.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

1 sorrisos compartilhados:

Natália Pereira disse...

Sabe aqueles textos que fazem parte daqueles livros maravilhosos que tu senta na varanda em um dia de sol, de pernas pro ar e fica lendo sem querer que acabe de tão bom? Esse texto faz parte.
Beijos
Mundo de Nati