A solidão de ser só



Dê a ele o nome que quiser, as características que achar que o define. Dê a ele sonhos despedaçados e um pote de cola para juntar os pedaços. Dê a ele até um sobrenome, mas nada disso vai mudar o fato de que ele ainda se esconde nas entranhas de sua alma, nos cantos sem luz de seu mundo.

Ele não é de todo estranho, como aquelas crianças prodígios que resolvem equações monstruosas ou que detêm um vocabulário mais rebuscado que poetas de séculos passados, tampouco é aquele garoto sinistro que desenha círculos infindáveis dentro de outros círculos durante a aula de artes e que diz que só os fez porque as vozes mandaram. Ele é apenas só. Acompanhado de sua solidão docemente triste, sem fantasmas, sem ninguém.
Calado durante o jantar escuta silenciosamente os pais discutindo sobre ele. O pai quer que ele faça amigos, pratique esportes e atividades exaustivas, a mãe por outro lado aperta as mãos em nervosismo só de pensar que há algo de errado com o filho, teme até mesmo cogitar a ideia de procurar ajuda. Ele queria dizer a eles para não se preocuparem, ele está bem assim, acostumou-se em ser só, acomodou-se a esse fato como se a solidão e ele fossem feitos para estarem juntos, como peças desconexas que por algum motivo se entrelaçaram na caixa de brinquedos e parecem que sempre pertenceram uma a outra. Mas mesmo que ele tentasse dizer alguma coisa, os pais não o ouviriam, estavam presos em suas próprias convicções das quais ele não tinha parte em argumentar.
Na sala de aula ele resolvia os problemas matemáticos com afinco, escrevia as redações pedidas, fazia experimentos, analisava soluções, era um aluno bom, quieto, mas bom. Na hora do recreio sentava-se longe de todos, não participava das conversas, não queria fazer parte dos grupos estereotipados que se formavam e que provavelmente definiriam o futuro de cada membro, salvo algumas exceções que conseguiriam se desvincular dos rótulos ao longo da vida. Raramente faltava das aulas, gostava de aprender, seu único desconforto, porém, era quando lhe diziam que ele tinha que fazer isso ou aquilo porque era assim que as coisa eram e pronto. Ele não concordava com isso.
Refugiava-se em livros onde heróis derrotavam vilões e salvavam as donzelas indefesas, onde havia magia e tudo era possível. Vagava por esse mundo numa facilidade deslumbrante, mas não se via na pele de nenhum herói. Não tinha ambição de se tornar um salvador, um famoso de renome. Quanta dor de cabeça isso traria!

No parquinho aprendeu a nomear os pássaros que perpassavam e os gatos que vez ou outra corriam pelos muros. Saboreou a simplicidade de se deitar sob as árvores só para aproveitar a sombra fresca. Brincou no escorrega com seu sorriso pueril estampado no rosto, ainda que lhe faltasse um dente ou dois. Desenhou com as nuvens. Alimentou alguns cachorros de rua em troca de um olhar de gratidão tão sereno que fazia seu peito se encher de uma emoção ainda sem nome. Tentou se equilibrar no meio fio, desafiando a gravidade derrubá-lo. Mas foi na gangorra que encontrou seu maior problema, onde mesmo a gravidade olhou para o outro lado fingindo não ver o que acontecia só para não ajudá-lo a fazer a outra ponta do brinquedo descer.

Detrás dos arbustos, ela observou o menino calado sentar-se no brinquedo que era feito para duas pessoas. Olhou ao redor procurando enxergar alguém se aproximando dele, mas não encontrou ninguém. Por que só os meninos podem ser heróis?, ela pensou destemida, Talvez ele seja meu donzelo indefeso.

Assim, ela sacudiu os cabelos, jogando-os para trás e foi na direção daquele que se tornaria seu primeiro amor.

Iniciando 2016 no blog com a visita dessa tal de inspiração que resolveu aparecer num dia de sol. Até a próxima, sorridentes.  

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

2 sorrisos compartilhados:

Joyce Silva disse...

Das histórias lindas que só você sabe criar! Adoro suas inspirações, tinha ficado meio assim com o ‘heróis que salvam donzelas indefesas’, mas para variar você me surpreendeu com o final.
Que a inspiração te visite assim, inconstante mesmo, porque é na surpresa dos dias que encontramos as coisas mais belas.

<3 <3 <3 <3

Rebeca Postigo disse...

Quando somos quem realmente somos, as coisas não precisam ser forçadas...
Tudo vem naturalmente...
Que delícia te ler...
Estava com saudades desse cantinho...

Um beijo!!!