Da arte de contar histórias



(...) No nosso livro a nossa história
é faz de conta ou é faz acontecer?

Levantou os olhos para confirmar que ela ainda estava lá, para se assegurar que toda aquela realidade era de fato real, pois ele sabia que sonhos costumam ser bons, mas nada se comparava àquilo.

Desde pequeno aprendera que histórias são feitas para serem contadas, não apenas aprisionadas em estantes empoeiradas ou nas gavetas obscuras da mente. Elas foram feitas para serem ouvidas e mais do que isso, ele descobriu que tão mais importante do que aquilo que se conta, é a maneira como se faz. Colecionador de histórias dos mais variados estilos, comprimentos, cores e sabores, ele tornou-se aquilo que sempre fora destinado a ser: um contador de histórias. Um fazedor de contas. Um libertador das palavras.
Pessoas gostam de ouvir histórias também, mais até do que contá-las e ele sempre esteve por perto e disposto a peneirar suas favoritas e levá-las numa sacola para onde quer que fosse, as mantendo sempre por perto para quando fossem requisitadas. Viver de histórias lhe satisfazia, lhe tirava o peso de sobreviver em um mundo no qual muitos se esqueceram de compartilhar. Ele aprendeu a sorrir, rir, chorar, dançar e cantar, com tudo o que contava, mas o que faltava – ainda que não soubesse – o esperava em estradas mais a frente.

Tão inesperado quanto a reviravolta de um bom filme de suspense, o amor se aproximou dele sorrateiro e silencioso, pousou em seu ombro feito uma mariposa acanhada e por ali se aconchegou. Logo ele que já havia se conformado com o fato de ser apenas o contador e não protagonista se viu mergulhado na melhor história que jamais contou.
Tragado tão intensamente por aquela onda de sorrisos e suspiros, descobriu que nadar naquele mar de sensações não era como as pessoas contavam, pois não há como contar com tamanha veracidade aquilo que só o coração é capaz de sentir, as palavras se perdem em busca de tradução, as exclamações apenas exclamam tolamente e resta apenas viver. Viver a história que reuniu tudo de melhor das outras.

Como um bom contador de histórias, ele soube pegar fragmentos da essência para transformar em palavras que pudessem ser ouvidas. Soube escolher os melhores trechos e paradas, as melhores frases de efeito para contar a sua mais bela história. Para fazer outros olhos brilharem e se inspirarem.

Piscou algumas vezes, ainda incerto se a realidade podia ser tão confortante e sim, era. Ela ainda estava lá, ao alcance de suas mãos. E o melhor de tudo era saber que a história não acabava ali e que cada amanhecer é uma chance de criar novas memórias.


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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

2 sorrisos compartilhados:

Rebeca Postigo disse...

Ser um contador de estórias é uma dádiva, um dom...
Que texto delícia de se ler, Rodolpho!!!

Bjo, bjo!!!

Mesmices & Epifanias

Joyce Silva disse...

A realidade raríssimas vezes tem o sabor tão melhor que um sonho bom, mas por razões desconhecidas deste universo 42, nós temos a felicidade de acordar todos os dias com mais uma chance de criar novas memórias, as nossas memórias.

Seus textos são sempre lindos, de palavras que transferem emoções leves, que nunca lhe falte palavras para continuar trazendo alegria a todos que leem.