O espetáculo da vida alheia



- Olhe só, lá vai aquele afeminado do filho da Lúcia, que roupa mais extravagante é aquela? Deus me livre! – Ofélia murmurou consigo mesma enquanto observava o rapaz por detrás da cortina da janela da frente. Achava um descaramento o menino andar com calças jeans tão apertadas e camisetas com estampas coloridas demais para dias comuns – Não sei como ele não tem vergonha.
Perdeu-o de vista logo a tempo de ver Lucília encostar-se à fachada da casa, do outro lado da rua, com um livro na mão.
- Aquela é outra tonta solitária, não desgruda a cara dos livros e acha que vai encontrar um namorado, coitadinha! – a velha resmungou e soltou estalidos de desaprovação com a boca.
A televisão estava sintonizada em um canal que vivia à custa de fofocas sobre celebridades, comentando os deslizes e comportamentos imorais dos famosos. A velha lançou o olhar por cima do ombro e viu na manchete a foto de uma atriz que havia sido pega traindo o marido com o diretor da novela, que obviamente também era casado.
Ofélia perdeu o interesse na moça e seu livro quando o solteirão da rua com seus trinta e poucos anos passou caminhando pela calçada.
- Este é outro que deve jogar no mesmo time do menino da Lúcia, já vi os dois de papinho numa noite dessas... solteiro nessa idade, não pode ser um bom sujeito – o homem fora o último a se mudar para a rua, ainda se via perdido e não conhecia quase ninguém, mas era educado com todos – Pobre Lucília! – a velha exclamou ao perceber o olhar encabulado que a moça jogava ao rapaz.
Mudou de posição no sofá, suas costas começavam a doer, mas continuou a observar como sempre fazia. Observava e comentava com seus botões que concordavam em silêncio com tudo que ela dizia.
- Aquele ali anda traindo a coitada da Paula...
- Sr. Odilon descobriu que está com câncer de próstata, Deus o ajude!
- Olhe lá, a Beth tentou imitar o corte de cabelo da mocinha da novela e ficou parecendo uma maritaca depenada...
- Olha o drogado do filho da Rosana. Deus me livre!
- Quem é aquele moço conversando com a Tina? Só pode ser mais um rolo dessa safada!
A TV exibiu outro caso de adultério, uma prisão por posse de drogas e o acidente de um cantor que dirigia embriagado. Ofélia murmurava ininteligível ao ouvir cada história.
- Já fiquei sabendo que a Adriana está querendo o divórcio, aquele marido dela não pode ver um rabo de saia que já fica todo assanhado...
- A nova namorada do Luquinha é uma gracinha, mas é tão burrinha, coitada...
Assim Dona Ofélia passava as manhãs antes do almoço, as tardes antes do chá e a noitinha antes da janta, observando analiticamente as pessoas que viviam ao seu redor. Quando ia para cama comentava com seu velho suas teorias mais interessantes e interpretava suas respostas monossilábicas como um sinal de apoio.


- Apareceu uma mocinha hoje, lá pelas quatro horas querendo me fazer umas perguntas, disse que era de um tal de IBGE. Aqui pra ela – disse Ofélia ao marido e fez um gesto com os braços – Não quero ninguém se metendo na minha vida. Deus me livre!

Diferente do que costumo escrever, essa foi uma crônica/crítica do cotidiano e daquelas pessoas que adoram cuidar mais da vida dos outros do que das próprias.

Lucília tem uma história só dela, clique no nome da moça e dê uma espiada também

Compartilhe

Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

7 sorrisos compartilhados:

Hilza de Oliveira disse...

Preocupou-se tanto em cuidar da vida dos outros que esqueceu-se da própria.
Ótimas observações!

Emi disse...

Fiquei pensando na quantidade de Ofélias que vejo por aí. Ótimo texto, Rodolpho, uma crítica com um excelente toque de humor.
Engraçado que é sempre assim, né? Se metem tanto na vida dos outros e nem sentem. Fico me perguntando se em algum momento a ficha dessas pessoas cai, tipo: ''Chega. Hora de cuidar da minha vida um pouco.'' Enfim, só levando a coisa com humor mesmo.

Beijo!

Sara Raquel disse...

Fiquei aqui imaginando que tem grandes chances da dona Ofélia ser moradora aqui da minha rua. Ou melhor, toda rua tem uma Ofélia. Mais um texto muito bom, Rod. Adorei o final, dei uma risadinha gostosa.
Beijos.

Mariana Leal disse...

Creio que essa dona Ofélia seja minha vizinha rs

Graziele Santos disse...

Como diz a Globo: A vida alheia é mais interessante que a sua. (Eles fizeram um seriado com esse nome se não me engano) rs

Ariela disse...

E não basta apenas querer saber da vida alheia, precisa-se fazer isso com um tom de julgamento.
No fim, Dona Ofélia é a típica pessoa que "faz para os outros o que não gostaria que fizessem para si".
Fiquei muito feliz em voltar aqui no seu blog, muito bom texto!
Um beijo

Skyline Spirit disse...

pretty nice blog, following :)