Salte



Enquanto arrumava a mala para sair de viagem, me peguei pensando em como empacotei a mim mesmo nesse último ano, em como me tranquei em uma jaula, como se eu fosse um animal feroz. Percebi a própria efemeridade do tempo, em quão rápido os dias têm se tornado noites e em quão inesperadamente as coisas podem mudar. Para melhor ou para pior.
Peguei-me observando um metrô em uma estação deserta, os carros passando rápidos por mim enquanto eu apenas assistia, sem me dar conta de que aquele metrô era minha vida, passando batida, passando veloz em busca de algo ou em busca de nada, como um cão correndo atrás da própria cauda. Às vezes precisamos de um chacoalhão da realidade, de um peteleco bem dado para acordarmos – foi assim que saltei na frente do trem, agarrei minha vida pelas rédeas e disse a mim mesmo “agora eu vou viver”, porque a vida da gente muda, isso é inquestionável, mas ela muda ainda mais quando decidimos levá-la a algum lugar, quando finalmente decidimos dar-lhe um sentido.

A mala ainda não está de todo feita, ainda há algumas recordações para guardar, outras para retirar cuidadosamente e se deixar levar a uma visita nostálgica aos dias passados. Quando me vi desempacotado percebi também que algumas mudanças deveriam ser feitas, que era necessário adicionar um pouco de cor à toda aquela obscuridade, pois nenhuma aquarela está completa se possuir apenas tons de preto. Entendi que posso resgatar resquícios de memórias e trazer de volta à tona aquele velho sorriso surrado que sempre me serviu tão bem, pois a essência sempre fica, ela permanece quando o resto já se desvaneceu. Ela se prende aos fios cálidos da alma que se sacodem ao vento.

Que mude os tons, as matizes e até mesmo todas as cores, mas que aquilo que é real e vivo permaneça pulsante do lado de dentro; que as permissões sejam concedidas, que o peito seja escancarado e exiba um coração feito de carne, capaz de sangrar, capaz de sentir; que haja melhorias, toda edificação precisa passar por uma reforma uma vez ou outra; que se plantem sorrisos para que se colha felicidade; que o círculo daqueles que importam se expanda ao invés de encolher; que os dias futuros tenham sabores agradáveis, trazendo nas asas do tempo fontes de experiência e lembranças mornas como o sol das manhãs de primavera; que todo o clichê das festividades não se torne outra vez algo passageiro e sim uma catapulta para um salto ousado, um salto de “quero o novo”, um salto de fé... E que se nada do que se deseja realmente acontecer, que haja forças para recomeçar.  

Bem, terminei de arrumar a mala, agora é esperar a viagem começar, sentindo aquele frio na barriga que precede o inesperado. E que seja bom.


Queridos, eis aqui o último texto do ano, recheado nas entrelinhas, às vezes nem tão sutis assim. Mas meu desejo de ano novo é ousadia, que a coragem de arriscar fervilhe pelas veias e que todos os saltos possíveis sejam dados, independente da altura do abismo, afinal, nem sempre sabemos o que nos espera do outro lado, certo? Um feliz ano novo que se inicia e que as provações e peripécias do tempo me deixem passar mais vezes por aqui. Abraços.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

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