O que o espelho não vê



Ainda me encaro no espelho tentando desvendar a pessoa que sou, tentando buscar aquele que um dia eu fui e que hoje me faz tanta falta. O espelho, porém, tão frio e raso jamais conseguirá me mostrar a profundidade de meu âmago obscuro, talvez essa nem seja sua função, afinal.
As estações mudam, as paisagens mudam, os ares mudam, então é normal mudar, certo? Esse é um ponto extremamente ambíguo para se parar, uma encruzilhada no meio caminho não com duas saídas, mas com várias. Sempre tive receio de mudar, não mudar espontaneamente, entenda bem, mas de ser consequência de uma mudança, não mudo pelas pessoas, nunca o fiz e acreditei cegamente que isso era verdade, sem saber que era mais uma tremenda mentira que eu me contava. Ora, se eu mudei foi por algum motivo, foi pelas pessoas, foi por mim. Mudar, no entanto, consiste numa faca de dois gumes com ambos os lados afiadíssimos. Mudei tão drasticamente que o próprio espelho hoje já não me reconhece mais, abracei um ceticismo tão fervoroso quanto as crenças de uma beata, atirei minha inocência em um poço escuro e a tranquei por lá, troquei uma máscara que podia não ser tão bela por outra realmente asquerosa. Assim como o espelho me pergunta quem eu sou, eu também busco encontrar essa resposta, busco o trilho perdido daquela pessoa calorosa que fugiu de medo do que estava se tornando.
Não percebemos de imediato tudo o que acontece em nossa volta, muito menos o que acontece dentro de nós mesmos, mas algumas pessoas sim. Elas são capazes de mergulhar em nossas íris e enxergar a mudança, pois elas também estão encarando os olhos de um estranho. Elas também precisam saber onde está aquele que desapareceu.
Caí em esquecimento dentro de mim mesmo e quando reajo de uma maneira antiquada, como aquele que sumiu reagiria é como se eu me sentisse controlado. Como se eu fosse o boneco preso às amarras e o ventríloquo ao mesmo tempo.
Quando você percebe que não gosta mais do reflexo que te encara pelo espelho, talvez seja a hora de mudar outra vez, a hora de cavar à procura daquilo que se perdeu e voltamos exatamente naquele ponto de parada na encruzilhada, diante de uma placa repleta de direções escritas em uma língua que você não consegue entender, pelo menos ainda não. É preciso então um instinto razoavelmente aguçado para escolher qual caminho seguir, pois ficar parado vendo as nuvens se arrastarem sobre a cabeça não é uma opção.
E embora eu saiba disso, há um bom tempo, devo confessar, ainda estou parado encarando aquela placa, como se ela fosse um monstro assustador cheio de garras compridas. Sinto a brisa soprar, vinda de cada caminho com promessas de aventuras, novidades e sussurrando segredos que ainda não posso compreender.


Queria que o homem trancado no espelho pudesse me ajudar, mas ele mudou demais e já não se importa em me estender a mão. Ele apenas observa apaticamente a minha indecisão, contendo um sorriso maldoso e fazendo julgamentos que ecoam em minha mente, que por uma infelicidade intencional, também é a dele. 

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

1 sorrisos compartilhados:

Mary disse...

Adorei o texto também estou nessa fase, me encarando e vendo o quanto mudei.

Voltando à ativa :D

Beijoos