Um dia daqueles



Sabe aqueles dias em que o vento cessa de soprar e a saudade resolve se esparramar pelo chão? Sim, eu sei que você sabe. Estou trancafiado em um dia desses, pois neles as horas se distraem com qualquer coisa trivial e esquecem-se de seguir adiante.
A manhã parece ter começado há dias, mas o sol ilumina o meu quarto há apenas poucas horas. Esses dias de saudade são um tanto engraçado, eles vêm inesperadamente como um vendedor de vassouras em plena tarde de quarta-feira e nos fazem revisitar vielas e becos já esquecidos de pensamentos. O interessante é que esses dias nos fazem sair da rotina.
Algumas nostalgias são mornas e aconchegantes, feito uma xícara de chocolate quente em noite fria de inverno, feito aquele seu cobertor preferido que combina com aquele livro perfeito que você nunca se cansa de se perder nas páginas. É, essas lembranças doce repuxam um sorriso de canto e por um momento tudo parece bom. Tristemente bom.
Outras lembranças, por outro lado não são queridas ao paladar, muito menos ao coração. Algumas delas, que estavam escondidas debaixo de pedras cheias de limo fogem de seu limbo para atormentar a mente que vaga perdida no tempo desse dia infindável.
Pensando bem, acho que gatilho de tudo isso foi ter sonhado com você. Não podemos controlar os sonhos nem convidados indesejados que possam vir a habitá-los durante a noite. Você veio me visitar em um mundo onírico esfumaçado. Estávamos passeando por uma alameda, uma versão daquela rua na qual corremos sob as árvores, fugidos de uma chuva passageira de verão que fustigava a cidade.
Um jardim muito parecido com o da realidade surgiu no sonho e fiz exatamente como tinha feito, roubei-lhe uma flor qualquer, cujo nome eu nunca soube, mas o perfume jamais me saiu da cabeça. Você sorriu com o gesto e beijou meu rosto em agradecimento. Toda a cena reproduzida com exímia semelhança da qual protagonizamos há um tempo que já deixei de contar.
Tudo mudou repentinamente, como é do feitio dos sonhos, a noite tomou conta do ambiente e uma lua extremamente encantadora para ter feito parte do que foi verdade iluminava o céu, mas você não estava lá para vê-la. Você nunca mais esteve.
Agora me recordo do sonho, pois ele desaparecera em alguma esquina de meu inconsciente assim que despertei inebriado numa sensação que se retorcia em meu estômago. Certamente estava pressentindo que hoje seria um dia daqueles. Nesse meio minuto em que minha irrealidade noturna bruscamente pipocou em minha mente eu penso em te escrever pra dizer que o teu silêncio me agride, embora eu já tenha me tornado imune a qualquer dor que essa agressão pudesse causar.
Sabe, escrever-te seria um bom passatempo para um dia arrastado, mas acho que talvez seria melhor assistir a lenta passagem de um caracol com uma concha pesada nas costas. Se teu silêncio é apenas o que tenho ao meu lado quando as lembranças emanam de suas terras longínquas, minhas palavras seriam desperdiçadas nas terras onde tuas novas lembranças fizeram morada.

Sabe esses dias em que o nada sussurra tolices e as músicas melancólicas acariciam os ouvidos? Sim, esses dias carregados de lentidão. Eles terminam, ou a campainha tocando te desprende do devaneio e te fisga para o agora.
Pode ser que aquele vendedor de vassouras não tenha um preço tão ruim assim, deixe-me ir lá checar.


Pauta para Bloínquês 

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

1 sorrisos compartilhados:

Gabriela Furtado disse...

Foi MUITO bom ler esse seu texto hoje! Deixou meu coração mais compreendido...num dia de saudade.
Beeeeijoooos