Apocalipse psicanalítico


Para um possível id enlouquecido

Meu psicólogo costumava dizer “não deixe os sentimentos se acumularem, eles precisam transbordar, se não conseguir conversar, então escreva”, agora eu vejo que isso pode ser uma boa ideia. Já conversei com as ondas que se quebravam na rebentação, mas o mar apenas me atirou murmúrios lamuriosos; já parei em esquinas de ruínas e bati papo com os destroços; já monologuei bastante, essa é a verdade e conversar com seres abstratos é ainda mais insano do que falar sozinho. O que ele (meu psicólogo) diria disso tudo?
Bem, acho que nunca vou saber disso. A questão é que o mundo acabou. Coisa trágica! Mas seria menos trágico se o meu mundo tivesse acabado também. Ser o único sobrevivente vagando pelos escombros está começando a afetar ligeiramente a minha sanidade, por isso estou me escrevendo esta carta, para que eu saiba, lá na frente, que eu já fui lúcido uma vez.
Não sei há quanto tempo tenho andado pelas ruas e avenidas desertas, qual seria o propósito de contar o tempo agora? Ah, quem se importa? Eu só não imaginei que o fim do mundo, o Apocalipse, o Armagedom .. esse evento grandioso de vários nomes pudesse ser tão entediante. Eu jurava que haveria grupos de sobreviventes, não foi isso que os filmes mostraram? Ele (meu psicólogo, de novo) diria que esse meu sarcasmo e senso de humor negro são mecanismos de defesa e todo aquele blablablá de eu não querer expor meus verdadeiros sentimentos.
É, pode ser que ele tenha razão, fazer piada com coisa séria não está sendo de grande ajuda. O MUNDO ACABOU. Apesar de tudo, isso soa como uma grande piada cósmica.
A humanidade sempre teve essa prepotência exagerada de se achar o centro do universo, não é? Mas cadê vocês agora? Onde está o governo americano e a NASA que deveriam ter previsto tudo isso? Besteira, tudo besteira. Ninguém estava preparado quando a coisa toda começou, ninguém teve para onde fugir dos furacões terríveis nem como se esconder dos terremotos, maremotos e todo aquele abalo colossal que implodiu toda a massa humana. Achei que os zumbis seriam nosso fim, errei feio. É, estou mais uma vez usando meu humor sagaz para me proteger, agindo como um idiota, devo admitir, pois sou o único por aqui.
Minha mente se perde em vários devaneios e quando me dou conta, a noite já engoliu o dia. Eu penso nela nesses momentos. Mais do que sofrer e chorar pela perda gigantesca de tudo, a dor que me consome é por tê-la perdido. Eu amei e amar parecia ser uma coisa que eu jamais fosse ser capaz de fazer. Mas amei. Eu a amei tão profundamente que acredito que não amar vai ser o motivo de minha loucura. Olha só eu finalmente expondo minha verdadeira face e olha só quanta inutilidade fazer isso nesse instante. Tem como eu ser mais patético? Não, nem mesmo conversar com o mar é.
Confesso que já pensei em me juntar aos outros, mas seria egoísmo demais da minha parte terminar com a minha vida enquanto fui o único permitido a continuar com ela. Por que eu? Já me fiz essa pergunta inúmeras vezes, algumas delas em voz alta, mas nem mesmo o vento quente e poeirento soube me responder. Como eu pude ser tão ruim a ponto de nem poder morrer? Essa é maior tragédia de todas: seguir em frente. Não há motivos, não há para onde ir, simplesmente não há mais nada. Contudo eu vou continuar, sim, vou continuar por ela, porque enquanto eu viver ela vive aqui em mim e mesmo o fim de tudo não parece tão desolador. Eu realmente não acredito muito nessa última frase, mas ela me mantém em frente.
Você, eu dos dias futuros, prometa ler essa carta todos os dias até acreditar que deve haver alguma razão sórdida para nossa sobrevivência. Vamos percorrer as estradas destruídas em busca de algo, pode ser que outro infeliz também tenha sobrevivido e esteja conversando com postes caídos em algum lugar.
Pode ser que ainda haja esperança. Pode ser.
Eu espero que sim.

De um superego que ainda resta.

Pauta para Bloínquês 
Bom, galera, misturei elementos de sátira e drama na carta junto a termos da Psicologia com o propósito de ilustrar uma mente perturbada e com o tal do choque pós-traumático. Foi diferente do que eu costumo fazer, mas espero que gostem. Abraços.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

3 sorrisos compartilhados:

V. disse...

"acredito que não amar vai ser o motivo da minha loucura."


Outro dia eu estava pensando numa frase de um dos livros que gosto muito... "para não sofrer era preciso também não amar." mas será que é mesmo possível? acho que na verdade a realidade é que "é impossível ser feliz sozinho..." quero dizer sem pelos temos ter por companhia o amor por alguém.

Eu gostei viu Rodolpho.

beijos

Mony Gabriely disse...

Gostei muito deste texto, principalmente da sua maneira de escrever. Acho que diferenciou muito dos demais textos da edição Cartas do Bloínquês. :*

percepcaooculta.blogspot.com

Matheus Pacheco disse...

Olá!
Estou reunindo Blogueiros!

O blog é o Guerra no papel: http://www.guerranopapel.com/


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