A gaiola de sentimentos


Era uma vez um moço que se preocupava em demasia com uma vida que ainda não existia, enquanto saciava seus dias presentes com doses de alegrias efêmeras, que eram viciantes como droga.
Ele tinha medo da velocidade do tempo e apesar de admitir seu descuido com o hoje, pouco fazia para alterar o modo como as coisas andavam. Bem, a verdade é que ele sempre esperava que tudo se ajeitasse por conta própria, certas responsabilidades lhe causavam náuseas, portanto ele se permitia negligenciar os afazeres mais importantes.
Você acredita que até as questões sentimentais, que ele raramente experimentava, eram deixadas de lado? Estupidez, sim, concordo plenamente. Porém, ele tinha o dom de aprisionar seus sentimentos mais belos entre parágrafos e construções lindamente produzidas, ele acreditava que só assim, seus momentos de emoção jamais morreriam. Ele não entendia de maneira completa que para eternizar o que se sente é preciso libertar a voz do coração ao invés de calá-la.
E em seu peito, ele possuía uma gaiola cheia de sentimentos, seguramente trancada e à prova de qualquer tentativa de invasão. Aquele era um perímetro vigiado 24 horas por dia, com direito a alarme contra intrusos e há quem diga que pode até haver um sistema de autodestruição se, por qualquer descuido, a porta da gaiola vir a ser aberta.
Quanta cautela para quê, afinal? Apenas para assistir a vida passar despercebida e acumular frustrações e perguntas sem respostas. Não há rédea que segure a impetuosidade do tempo. Não há relógio capaz de fazer as horas andarem para trás. E a maior tristeza desse moço é sua consciência de tudo isso. É a maldita resignação arraigada em seu âmago.
Seu amor inveterado pela liberdade lhe distraía e impedia de amar o resto. Há quem afirme que ninguém precisa do resto para ser feliz, mas e se a felicidade residir exatamente no resto? Não seria o resto o mais importante então?
A maioria das pessoas espera por um final feliz ou torce para que ele aconteça ao ler um livro ou ver um filme, esperemos assim que haja uma falha no sistema de segurança desse moço para que a gaiola possa ser escancarada e libertar todos os seus sentimentos trancafiados. Esperemos também que ainda haja tempo para que ele aproveite da liberdade de todos eles e deixe de se sentir arrependido pelo tempo perdido, pois convenhamos que quase todos aqueles que acreditam em finais felizes, também acreditam na premissa do “antes tarde do que nunca”.

O moço entendia que algumas histórias tristes servem apenas para alertar aqueles que deixam a vida no piloto automático. Ele só está cansado de protagonizar uma delas.

Porque algumas conversas em SMS podem inspirar.


Compartilhe

Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

4 sorrisos compartilhados:

Deise Lima disse...

Deixar de aprisionar é muito difícil pra quem a muito tempo faz isso, não é fácil de repente abrir a portinha da gaiola e deixar com que todos voem, mas não é impossível. Eu andei pensando, que eu talvez seja um pouco desse moço,mas quero mudar a partir de agora.

Abraço, Rody!

Tanara Adriano disse...

Adorei!
Que sms deve ter sido este ein?

Receba mais querido, se o resultado for posts incríveis como este!

Beeeijos!
:*

Ariela disse...

Mas que texto mais lindo!
Nunca imaginei que um assunto desses pudesse ser escrito com tanta suavidade sem deixar de ser profundo.
Fico feliz por ter passado por aqui, acho que li o texto certo na hora certa e muita coisa fez um pouco mais de sentido.
Um grande abraço!

Tati Tosta disse...

Sim Rodolpho, você continua conseguindo, surpreendendo, nos fazendo sentir as cenas, sentir as palavras e sentir também - você! -


Amei, muito bonito e intenso.