A regência dos sentimentos



(…) It may sound absurd, but don't be naïve,
even heroes have the right to bleed
I may be disturbed, but won't you concede,
even heroes have the right to dream…

O rapaz murmurava constantemente entre sonhos e estado de vigília, as palavras fugiam de seus lábios sem trancas, mas jamais encontravam um destino. Elas corriam em busca de liberdade, porém eram sopradas pela vasta escuridão do silêncio noturno. As palavras que ele sempre procurou dizer e nunca encontrou.
Ele não era mais um rapaz inocente, ingênuo e dotado de uma fé inabalável de que tudo sempre seria bom. Ele aprendera a ser pragmático e isso era atribuído somente a ele e a mais ninguém. Ele não permitiu dissuasões nem argumentos, sua posição era irredutível e sua fortaleza de areia era impenetrável, ou assim ele acreditava que fosse.
Contudo, bastava a maré subir para que todo seu castelo fosse consumido pelas ondas. Ele compreendeu que sentimentos são como ondas que devastam praias desertas e engolem tudo o que veem pela frente. Ele sabia também que toda onda vem e vai – e quando vai, sua devastação é dobrada e os resquícios de tijolos que haviam aguentado bravamente ao primeiro ataque, se desfragmentam e são levados para o mar do abandono. Afogados no oceano profundo dos sentimentos náufragos que ficaram à deriva.

Apesar de suas convicções enraizadas em um âmago sem nexo algum, ele queria ser um herói. Ele sonhava em alterar o curso de alguma história e até em ter superpoderes que o distinguissem da multidão, ainda que se tornasse um rosto mascarado.
Ele erguia-se no parapeito da grande janela de seu quarto e imaginava como seria poder voar e provar o sabor do céu e a sensação de rasgar nuvens. Mas a realidade lhe lança um olhar desdenhoso, sacode a cabeça impaciente e pergunta quando ele vai deixar de ser imaturo e perceber que há uma distinção gigantesca entre sonho e loucura.
Ele então a encara e olha ao redor – a mesinha com seus remédios para dormir, a cama bagunçada e roupas espalhadas por todos os cantos do cômodo –, mas o vento lambe seu rosto e ele fecha os olhos por um segundo e voa.
Quem disse que a imaginação não pode ser real? Ele não cavalgou nas costas do vento no sentido literal, seria loucura pensar nisso, mas ele provou do gosto do céu e desvendou o segredo das nuvens de algodão, que não são de algodão, na verdade.

Outra onda o atingiu. A onda da solidão que passou despercebida por seu forte como se ele não fosse importante. Ele cultivava alguns sentimentos em seu peito, ele esperava categorizá-los e definir seu espaço no mundo. E durante sua espera o tempo vestido de hora lhe roubava miligramas de vida. Dia após dia. O tempo é um ladrão furtivo, tão dissimulado que se finge de amigo em certas ocasiões enquanto arquiteta seu grande plano que é esgotar-nos de sua companhia.
Então quando outra onda surge, traz a saudade em suas bolhas e a despeja na praia. A saudade é aquilo que a onda apenas traz e nunca leva. Ela se torna tão pesada que nem a força das águas consegue levar embora. Então ele sentia o peito arder e o ar faltar. A falta se torna presente e essa presença machuca.

Ele livrou-se da maré negativa, arrancou uma folha de caderno e escreveu “ainda espero resposta”, mesmo sem saber se existia uma pergunta, mesmo sem pensar qual era sua verdadeira esperança – mesmo sem esperar resposta alguma.
Dizem que quando a alma transborda, gotas de poesia se desprendem dos poros e regam as flores de versos. A grande beleza da poesia é saber rimar a realidade com algo irreal. É fazer a junção de mundos diferentes soar doce ao paladar. É unir contradições que se repelem sem medo de conflitos. É ousar sonhar ainda que o sonho se fantasie de loucura.

Ele fechou os olhos outra vez e concluiu que os sentimentos são trampolins que lhe dão impulso, mas cabe a cada um voar sem asas e desafiar a gravidade. 

Pauta para Bloínquês

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

2 sorrisos compartilhados:

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Se tem um contista que admiro e que me inspira, és tu meu amigo. Você tem uma capacidade soberba de delinear as histórias. É sutil, mas imensa esta tua habilidade em esparramar o sentimento nos contos, tornando-os essencialmente palpáveis e reais, mesmo que encapuzados por uma fantasia aparente, um sonho distante.
Este conto trespassa o limite do coração ao falar do quanto os sentimentos podem impulsionar a firmeza de nossos passos, a nossa vontade em viver, em sonhar, em tanto querer a felicidade encontrar. Os sonhos são permeados pela nossa intrínseca capacidade de imaginar, e principalmente de amar.

Cabe a cada um notar este poder que no peito há.

Lindo conto!!

Abração!

Gessy disse...

"Quem disse que a imaginação não pode ser real?" Li essa frase hoje no Facebook e pensei nela por um tempo. Agora encontro-a nesse texto tão poético que seria pedantismo de minha parte tentar caracterizá-lo.
Sobre a última frase faço apenas um pequeno comentário que pode até mesmo estar fora do contexto: Para voar, basta errar o chão.

Abraço!