Uma última conversa


(…) For auld lang syne, my dear
For auld lang syne,
We'll take a cup of kindness yet,
For auld lang syne…
Auld lang syne – Lea Michele

Aproximei-me discretamente daquele velho que estava prestes a partir e o interceptei. Por um fragmento de segundo, ele me olhou profundamente e sua boca cheia de rugas se abriu e formou uma pergunta:
- O que você tem a me dizer? – ao som daquelas palavras pus-me a refletir nas coisas.
- Tenho que confessar que não botei muita fé quando você apareceu e como não gosto de mudanças repentinas passei a te odiar por um tempo ao ponto de fechar os olhos para as coisas boas que surgiam. As lembranças frescas do que havia passado e ficado para trás me atormentavam e empurravam qualquer chance de esperança por um precipício de frustrações.
Ele não mudou suas feições enquanto eu falava, apenas meneou a cabeça, não sei se por concordância ou simplesmente por fazê-la. Continuei.
- Com o tempo, eu finalmente percebi que nem tudo estava tão mal quanto eu via, que havia sim motivos para sorrir e agradecer e até colher uma lembrança ou duas para levar adiante. Você me tirou bens preciosos, levou-os para um lugar tão distante que talvez eu nunca os veja outra vez, mas por outro lado, me presenteou com inúmeras outras coisas de valores particulares e especiais. Seus planos nem sempre são claros para mim, mas quando os reavalio sempre enxergo o melhor, apesar dos vários contratempos que ocorreram para se chegar até lá.
Ele suspirou, não pude dizer se foi de alívio ou de impaciência e então fez outra pergunta:
- Você sente que você tenha mudado? – mais uma vez parei para pensar por um instante.
- Acredito que grande parte do que agreguei e mantive foi devido a uma mudança interior, que já vinha acontecendo aos poucos, mas que se intensificou ultimamente – sorri naturalmente ao dizer isso – Tudo ao redor muda quando nós mudamos, certo? – ele fez que sim com a cabeça.
- Todos os dias em que te acompanhei não foi apenas para tirar-lhe ou dar-lhe coisas, foi para causar uma mudança dentro de ti. Foi para abrir lentamente teus olhos e mostrar que você pode fazer a diferença contanto que acredite nisso. Agora é uma época de reflexão, renovação, de repensar os valores e seus conceitos. Um período de nostalgia e esperança em que o passado se une aos desejos futuros que estão em seu coração no presente. Não descarte velhos pedidos e nem acenda novas chamas que em breve se apagarão, aprenda a discernir o que é possível e real, renove sua fé em você mesmo e busque aquilo que está em seu alcance e tão logo perceberá que até o que não estava você atingiu.
Aquelas palavras recaíram sobre meus ombros e eu pude sentir o peso delas.
- É, estou pronto para te dizer adeus, Ano Velho – ele sorriu e sacudiu a cabeça novamente, saí de seu caminho e antes que ele se afastasse muito acrescentei – peça que o Ano Novo desacelere os movimentos de translação, o tempo está correndo mais rápido do que posso acompanhar, quero aproveitar mais tudo o que tiver a oportunidade antes de ter que dizer adeus outra vez.
Ele virou-se com cuidado, acenou e então partiu, para o lugar aonde todos os anos velhos vão e jamais retornam, a não ser na memória da gente. 

É isso, pessoal, estamos chegando ao fim de mais um ano, que foi conturbado, perturbado, animado e recheado de surpresas e é exatamente tudo isso que desejo para todos no próximo ano e adicione também uma pitada de fé em si mesmos para que seus sonhos jamais se desvaneçam e sim se realizem conforme for a necessidade. Desejo também que as alegrias se multipliquem e que o amor chegue a ponto de transbordar, mas não transborde (ele é valioso demais para se desperdiçar) e que os ressentimentos, mágoas e tristeza possam encontrar seu modo de transformarem-se em algo positivo. Desejo que cada dia seja abençoado e que seja vivido com muito apreço, pois cada um deles é único, sem preço e insubstituível. Um feliz ano novo acompanhado de tudo que há de bom para você que está lendo isso e para um mundo cheio de problemas que precisa descobrir o que é a felicidade e solidariedade. 

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

1 sorrisos compartilhados:

Luana Natália disse...

Belo diálogo!
E que 2012 seja doce.