Dance comigo

Ela me encarou com aqueles olhos ocos e tão sedentos de vida e me pediu que eu lhe contasse tudo.
- Mas me diga apenas o que for bom – seus lábios se moveram e as palavras escorreram tão puras que trouxeram uma onda de tristeza. E eu a contei tudo. Tudo o que era bom.


A rua estava molhada, o céu estava molhado e até mesmo a noite não conseguira ser imune ao intenso banho que a chuva derramou. As gotas de água cristalinas e geladas se atiravam em queda livre e borrifavam o mundo numa cascata prateada. Não havia lua naquela noite, apenas o breu e o véu da escuridão na face da cidade.
Eu dirigia cautelosamente devido ao asfalto molhado e quando enveredei por uma rua de fácil acesso, me deparei com um carro parado no acostamento. As luzes piscavam animadamente, como se estivessem felizes pela chuva que caía. Eu estacionei ao lado do veículo e tentei enxergar através do vidro embaçado e através da cortina de chuva, mas não consegui.
Saí do carro e lá na rua estava uma moça. Ela não notou minha presença de imediato. Ela tinha o rosto voltado para o céu, os olhos fechados e os braços abertos e girava... Girava feito uma bailarina, dançando ao som das gotas que deslizavam por seu corpo e penetravam em suas roupas.
- Com licença – eu disse com certa insegurança e ela lançou-me um olhar maroto e saltitou para perto de mim.
- Não é mágico? – ela perguntou e abriu os braços outra vez, girando ao redor de si mesma.
- Você está bem? Quer que eu chame alguém?
- Estou ótima – ela me respondeu e um sorriso desabrochou em seu rosto – Dance comigo.
Eu recuei intrigado e ela me puxou. Não sei por quanto tempo relutei até deixar-me levar pelo leve balanço de seus movimentos e pelo ritmo cadenciado da chuva, que continuava a cair,  tocando a melodia para nossa dança.
- É mágico – eu respondi finalmente e ela sorriu outra vez. E era bom ver o seu sorriso.

Ela piscou assim que eu terminei de contar, como se estivesse presa nas imagens que visualizava em sua mente.
- Eles ficaram juntos? – ela perguntou e seus olhos me encararam. Tão vazios de lembranças e aquilo me apunhalava na alma e me fazia chorar por dentro.
- Sim, eles ficaram juntos por muito tempo e foram tão felizes que tal felicidade não se cabe em palavras – eu contei.
Ela sorriu ternamente e fechou os olhos para se entregar ao sono.
Enquanto eu a observava dormir, eu sentia a dor cavar mais fundo dentro de mim, forjando uma toca para se alojar e permanecer definitivamente.
Ela não se lembrava mais das coisas. Ela não se lembrava de ser a moça na chuva, com o sorriso, com a alegria e espontaneidade, mas ela se lembrava de mim, pelos menos isso a doença não lhe tirou e todas as noites, antes que ela adormeça, eu lhe conto a história de quando nós nos conhecemos e ainda tenho a esperança de que talvez um dia ela se lembre e de que seu sorriso doce daquela noite possa chover em mim outra vez. 

Pauta para Bloínquês

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

11 sorrisos compartilhados:

Babi disse...

Lembrou-me muito de "Diário de uma paixão". Me intrigou o título, porque tudo o que tem dança no meio eu leio e me encanto, seu texto me alegrou! Porque até a chuva tem sua cadência.

Beijo, Rod.

Gessy disse...

Confesso que também lembrou-me o filme citado acima. O conjunto (texto, imagem, título) ficou esplêndido. O que não pode acontecer numa noite chuvosa...?

Manie disse...

poxa, rodolpho, eu nunca mais te visitei =( que leitora malvada, me sinto mal por isso... eu amo seu blog, e você sabe que está na lista dos meus favoritos... o tempo, como sempre, me pune e me esmaga e me prende nessa rotina chata, dai não dá tempo (chora)

que saudade de ler seus textos e alimentar as carpas hahaha... eu amei esse acima e por incrível que pareça, quando li o primeiro comentário também me remeteu O diário de uma paixão, devido à chuva... eu não vi o filme, mas amei o livro.

amei demais, lindo texto!

Deise Lima disse...

Hey Rody, assim como a Manie, eu tenho visitada pouco o seu blog e tantos outros nos últimos tempos, mas hoje resolvi parar me aqui e me deparo com esse lindo e incrível texto.
Até as ultimas linhas eu estava esperando uma coisa diferente e mudei de ideia duas vezes até você me surpreender e encantar com o final, caramba me emocionei. E lembrei mais uma vez de como temos que aproveitar cada momento intensamente.
Abraços=*

Flor de Lótus disse...

Oi,Rodolpho!Que texto lindo,mas com um final triste nessas horas que eu me dou te conta do quão frágil nós somos, um dia de uma hora pra outra nossa memória pode começar a nos trair...
Beijosss

Marina disse...

De tirar o fôlego.

Sara R. Carneiro disse...

EU LI E RELI E RELI E RELI E ESTOU ARREPIADA. Tô concorrendo junto contigo no bloínquês e quer saber? Faço questão de perder pra ti, pra esse texto, pra essas palavras, pra esse talento, pra essa essência. Nossa, dentre tantos textos bons esse é o que eu mais gostei, definitivamente. Parabéns Rô *-* O beijo de sempre na testa (:

Caroline Araújo disse...

O seu estilo de escrita já me é familiar e eu sempre fico encantada com os seus textos, mas devo confessar-lhe que esse foi o que mais me fascinou. A descrição sublime do cenário e das emoções das personagens associou-se muitíssimo bem ao modo doce e belo como você abordou o tema. Além de notar uma ortografia impecável, também pude dançar entre as suas palavras e entre a fidelidade ao tema proposto. Parabéns.
E digo isso não só como moderadora do Projeto Bloínques, mas também como leitora apaixonada que sou.

Avaliação - Projeto Bloínques, moderadora Caroline Araújo.

Alexandre Fernandes disse...

As emoções que se encontram num choque doce de almas amantes. Regidas por uma chuva de encantos. Lágrimas de emoção pingadas pelos olhos divinos do amor... vindas lá de cima, do céu mais lindo que envolve os amores com fitas de cetim, douradas...

Acho fantástico a forma como você constroi os sentimentos, como formula os encontros, as palavras.

Você escreve barbaridade meu amigo...

É inspirador te ler. Quero ser tão bom contista quanto você... rs

Abração!

Rebeca Postigo disse...

De arrepiar!!!
LINDÍSSIMO CONTO!!!
Imaginei cada detalhe com a mesma doçura que narraste...
Amei!!!

Bjs

Scarlat Assunção disse...

É incrível. Intenso e ao mesmo tempo encantador e leve.
Tu escreves de uma forma linda!