Porque sua vida é você quem faz

- Sim, eu posso cantar - ela disse em pensamentos, despreocupada com o que pudessem dizer.



Em meio a tantos pássaros canoros no meio da mata, onde o som se propaga e ecoa por quilômetros, ricocheteando nas árvores, havia uma coruja. Como não há nada melhor do que nomes para criar um laço de afeição, a chamaremos de Tália.
Tália era uma ave irônica e determinada, e saiba que isso não pode ser dito da maioria das aves, portanto ela era especial. É evidente que pios de coruja estão longe de serem considerados belos e inspiradores como canto dos rouxinóis, pássaros presunçosos (diga-se de passagem), mas nossa protagonista notívaga nunca se importou com a opinião alheia.
Todas as manhãs, antes de se embrenhar em sua toca e adormecer, ela escolhia um galho alto, numa clareira espaçosa e bastante acústica e soltava a voz. Seu canto esganiçado, ora desafinado, ora próximo ao considerado razoável, expandia-se pela floresta, arrepiando a copa das árvores e viajando nas costas do vento.
A maioria dos animais que acordavam com aquele despertador inconveniente se irritava e logo botavam uma carranca de mau humor na cara, não que isso incomodasse Tália. Ela fazia seu ritual musical fielmente todas as manhãs, até o dia em que abriu o bico e não ouviu sua voz estridente fluir para fora.
Apavorada, ela logo pensou que tivesse sido amaldiçoada pelas aves das belas vozes e que ficaria muda pelo resto da vida. Os dias se passaram e tudo o que ela conseguia produzir era o silêncio. O mais puro e assustador silêncio.
Tália, obviamente, recompôs-se e procurou ajuda. Em vão.
Quando suas esperanças estavam se esgotando, numa manhã fria de inverno, ela engasgou-se e ao tossir produziu um ínfimo ruído com a garganta. A chama da esperança flamejou.
Dias depois, ela estufou o peito, pomposamente, em seu palco improvisado e cantou. Cantou como se aquela fosse a última vez, errou e engoliu notas, atropelou a afinação e sentiu-se realizada, pois estava fazendo aquilo que a deixava feliz, independentemente da aprovação dos outros.
Tália não deixou de cantar quando lhe diziam que sua voz era horrorosa, ela não deixou de cantar quando a rouquidão a envolveu, porque cantar era sua essência e aquilo ninguém poderia lhe tirar.

Sim, eu sei que estou meio desaparecido e com poucas postagens, odeio isso, devo admitir, mas farei o possível para me manter mais presente (também sei que sempre digo isso, hehe).Vagando pelo we♥it, encontrei várias fotos (inspiradoras) de animais, e como tenho uma mente mirabolante e notando que a história de Abel e Ariel foi bem recebida, decidi escrever alguns contos protagonizados por bichos, espero que gostem da ideia e se divirtam como eu. Grande abraço.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

15 sorrisos compartilhados:

Inercya disse...

Encantadora, Rodolpho! Meus olhos brilharam com essa história.
Imagens inspiram e muito, né? :)
:*

Gislãne Gonçalves disse...

Nunca devemos parar a musica nem o cantar!

:)

Beijos

Felipe disse...

Cantando, dançando, vivendo, mudando, acreditando e não se importando com o que as outras pessoas falam assim faremos um vida que realmente queremos.

Jéssica Trabuco disse...

Postei algo parecido. Estamos na vida para sermos felizes, nos deliciarmos com ela.

Iasmin Cruz disse...

Oi o blog agora tem orkut e comunidade e em breve novidades pra vocês.
Links nessa postagem.

http://iasmincruz.blogspot.com/2011/08/novidades-o.html

Chris Macêdo disse...

Adoro seu blog. tem selinho pra você. Boa semana. Bjos

Srtª Vihh disse...

que fofo o texto, eu nunca tive nada contra corujas... muito pelo contrário.
bjOus
lindo aqui!

Tati disse...

Muito reflexivo.

Faz um bocado de tempo que eu não passo por aqui. Tentarei botar a leitura em dia.

Amei a reflexão, muito forte.

L. Sampaio disse...

Porque o que vale é fazermos as coisas que nos fazem feliz, do jeito que somos...
Bela mensagem!
beijos.

Milla disse...

Todos nós sabemos que somos nós que fazemos nossas vidas, mas mesmo assim, em alguns momentos, nos pegamos pensando no que os outros vão achar. Não acredito que devemos deixar de fazer algo que nos deixa feliz para agradar outra pessoa. Devemos viver por nós mesmos, mas depois viver por outra pessoa. Adorei o texto e a imagem.

Saudades de passar por aqui, ler seus textos e alimentar as carpas :)

Beijos

@iamaburguesinha disse...

O que dizer? Inspirador, Encantador, Cada palavrinha escrita aí me mostrou exatamente o que eu precisava ver hoje.

Alexandre Fernandes disse...

Bonito. Encantador. Mesmo com tudo o que lhe envolvia ela nunca deixou de cantar. Porque esta era sua essência.

Por mais feridos que estejamos, não podemos abandonar aquilo que nos torna especiais. O que é de fato nossa essência.

Lindo conto!

Abraços!

ps: pois é, tu anda sumido rs Aparece viu rs

Raíssa Klasman disse...

Tem um selo pra você lá no meu blog. Espalhe sorrisos e compartilhe essa idéia.
Beijo grande, :*
Raíssa

Ps: Link da postagem: http://smileonly-now.blogspot.com/2011/08/vem-participar-dessa-campanha.html

Gabriela Furtado disse...

Que saudades que eu tava de vir aqui e de ler teus contos. Aparece lá no blog.
Beeeijos, querido.

Laysa Boeing disse...

Muito lindo como tudo por aqui. Tão lindo que tenho um presente para você lá no meu blog.
http://palavrasasas.blogspot.com/2011/09/primeiro-presente-do-blog-escritores.html