O escritor que nunca viu

As palavras são meu mundo, minha realidade. Elas são e sempre foram meus olhos.
Minha vida sempre fora mergulhada na escuridão ou claridade, eu nunca soube ao certo. Nunca soube o que as palavras preto e branco significavam. Eu não sabia o que eram cores, portanto meu mundo é algo que você, que enxerga, não pode imaginar. Eu nasci assim, com olhos que jamais puderam ver a luz do sol e o brilho da lua e das estrelas. Sem poder ver, meus outros sentidos se tornaram mais aguçados. Minha audição era perfeita, meu tato de uma sensibilidade impressionante e meu olfato muito perspicaz, mas eu queria ver, eu queria ver aquilo que sempre havia sido a coisa mais importante em minha vida, eu queria ver as palavras, queria folhear um livro e poder devorar com os olhos aqueles caracteres interligados que formavam universos paralelos.
Minha mãe lia para mim desde quando eu era bem pequeno, no começo foi difícil para ambos, pois eu não conseguia imaginar como eram as coisas descritas e ela se frustrava por nem sempre conseguir me explicar... meu tato ajudou bastante nesse processo de conhecimento de formas e texturas, mas eu nunca soube o que eram cores. Eu queria tanto poder imaginar as cores e tudo aquilo que eu ouvia e não podia tocar, mas cada palavra que dava a mão para a outra, formando uma ciranda nas linhas sobre o papel me transportava para outro lugar e eu me deixava levar, sentia a leveza me puxar para dentro da página... eu fui heróis, vilões, protagonistas, poetas, trovadores. Eu fui o leitor que nunca leu.
As palavras tornaram a minha vida mais saborosa. Eu me empolgava em travessões, prendia a respiração em vírgulas, me deleitava nas reticências. Eu brincava com os pingos dos "is", me deitava na curvas do "s", me enroscava dentro dos "os". Meu mundo mágico de palavras, dois pontos, aspas, exclamações... mas nunca de pontos finais. Eu não queria que isso parasse, minha avidez por esse reino fabuloso de histórias era minha forma de dar cor a minha vida, ainda sem cor alguma existir.
A cada dose de leitura de minha mãe, eu mergulhava em sua voz que me guiava por lugares inesperados, que me dizia frases lindas, poéticas, suaves... a melodia do som das letras. Eu me entregava ao livro e sorvia cada detalhe mínimo que ele oferecia e fui tão seduzido por isso que eu desejei escrever.
Eu queria me tornar um escritor, criar histórias, personagens, edificar lugares que nunca estive, construir castelos de palavras e montanhas de expressões, eu queria gerar vida, vozes, colocar em palavras meus sentimentos.
As letras em braile possuíam uma forma diferente e eu nunca gostei disso, eu queria escrever nas letras que eu conhecia, nas formas que eu toquei. Pedi uma máquina de escrever para minha mãe, eu não quis um computador, e as teclas da máquina foram adaptadas de forma que eu pudesse reconhecer as letras ao tocá-las. Eu, a máquina e uma folha de papel em branco, a combinação peculiar que deu certo. Muitos criticaram meu entusiasmo e minha vontade de seguir em frente com aquilo, mas eu me apeguei aos incentivos sinceros e me atirei de corpo e alma no mundo das letras invisíveis.
Comecei a escrever aos poucos, a cada dia eu me colocava diante da máquina e deixava meus dedos brincarem sobre as teclas rígidas que estalavam enquanto marcavam o papel com as palavras que eu ordenava. Era uma sensação incrível, me descobri na escrita como eu nunca havia feito, me libertei da venda que eu mesmo havia me colocado. Minha mãe corrigia pequenos erros que escorregavam por entre meus dedos, mas com o tempo isso deixou de ser necessário, pois eu, a máquina e o papel éramos um só, mantínhamos uma cumplicidade invejável, meus melhores amigos e conhecedores de meus desejos e segredos.
A escrita me levou por caminhos secretos, abriu minha mente para cenários que eu criava e me dava voz, dava tom, dava gosto, cheiro, som e, além disso, me dava visão. Quem diria que um garoto cego pudesse escrever coisas tão belas de um mundo ao qual nunca vira? E assim fui atraindo a curiosidade das pessoas através de minhas palavras. Minha mãe pagava para publicar meus escritos no jornal da cidade.
Hoje em dia sou reconhecido pelo o que faço, as palavras que uno de forma sincera e singular me levaram a atingir um reconhecimento que eu nunca esperei. Eu nunca pude ler aquilo que eu escrevia, nunca pude ver a distribuição das letras no papel, a métrica utilizada pelos editores, nunca pude ver as cores das capas de livros que eu concebi. Todos eles eram partes de mim. Todos eram degraus da escada imaginária que me levou ao alto patamar dos meus sonhos mais incríveis e impossíveis. As palavras me rodeiam como crianças brincando de roda, as letras me sussurram variações, as pontuações me mantêm no ritmo e a escrita me domina... e eu me dôo por completo.
As palavras sempre foram e sempre serão meus olhos e é através delas que meu mundo ganha cor.

Esse conto foi escrito no ano passado para participar de um concurso cultural, porém é inédito aqui no blog.
Achei que seria interessante publicá-lo hoje, no Dia do Escritor. Aproveito para parabenizar a todos os escritores que temos por aí, famosos e amadores, contistas e contadores, cronistas, poetas, de gaveta, de guarda-roupa e afins. E também aos leitores, que são a alma da escrita e a levam adiante. 

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

4 sorrisos compartilhados:

Carlos F. Dourado disse...

Rodolpho mais uma vez de parabéns. Que lição de vida você quis passar nesse texto, não temos que ligar para as nossas deficiências e sempre seguir em frente.

Muito bom mesmo.

Jéssica Trabuco disse...

Que lindo moço, adorei.

Fuve disse...

Tem um selinho pra você no meu blog.

Tati disse...

Já nem sei mais o que ou como lhe dizer qualquer coisa.

Sim, te admiro muito, sua excelência na escrita é gigante e sua sensibilidade me toca sempre.

Muito bem escrito, muito bonito e reflexivo também.


Você é fera no que faz!