A arte de sussurrar nas entrelinhas

Nunca fui um grande entendedor da vida e de suas fases inconstantes. Muitas vezes me peguei perdido em pensamentos e dúvidas que eu mesmo criava para dar sentido nas coisas que eu via e ouvia. Confesso que por um tempo fui adepto de comparações que nunca me trouxeram benefício algum, assim como os julgamentos que fiz, precipitados ou não.
Não existem regras ou manuais que possam te ensinar como viver cada ano de sua vida. Aprendemos da forma mais natural e cruel possível, que é através dos erros, nossos ou dos outros.
Posso dizer que hoje em dia tenho mais discernimento do que é bom para mim, desenvolvi um senso crítico que prefiro manter secreto para não assustar as pessoas, da mesma forma que aprendi a manter-me indiferente a diversos tipos de coisas que normalmente me trariam problemas ou atrasos.
Parei de dar satisfações da minha vida para estranhos ou até mesmo para os conhecidos que não se importavam com isso. Há certas coisas que são melhores ditas quando não são contadas, afinal (se é que você entende essa contradição complicada).
O que eu mais carrego numa sacola por onde quer que eu vá são perguntas. Tenho mais perguntas do que respostas, exijo mais certezas do que jamais poderei ter.
Abomino com todas as minhas forças as malditas frustrações, que me atormentam dia e noite, como se rissem da minha cara dizendo “não foi desta vez”. Por dias a fio eu me odeio e procuro entender a minha insignificante existência, outros dias, porém, entendo que tenho que respeitar quem eu sou para que os outros façam o mesmo.
As terras intrincadas de minha mente são terrenos perigosos, não me atrevo a deixar ervas daninhas crescer por lá, caso contrário a infestação seria devastadora. Entendo que sou uma pessoa negligente e este, talvez, seja um dos meus maiores defeitos, mas mudar isso só depende de mim, certo? Eu preciso me ater àquelas responsabilidades que insisto em deixar de lado somente pelo prazer de não perder meu tempo ocioso com o que realmente é importante.
Um dos meus maiores trunfos é, definitivamente, meu entendimento com o mundo das palavras. É incrível como elas parecem me servir quando preciso delas e ironicamente desaparecer quando são indispensavelmente convocadas.
Já posicionei travessões onde não deveria e pontos finais em momentos errados. Já me equivoquei diversas vezes com as pontuações em geral e continuo fazendo isso até hoje. Não vivo as páginas de um livro perfeitamente escrito, sou um personagem errante, ora herói, ora vilão. Não me julgue pela capa danificada, meu interior pode te encantar ou repelir, mas no fundo isso depende mais de você do que de mim.
À noite, minhas preces silenciosas se refugiam na escuridão. Eu preciso dar vozes aos meus desejos, mas temo o que eles podem dizer.

E eu que achei que minha vida precisava de menos vírgulas, descobri que havia reticências demais.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

7 sorrisos compartilhados:

Carlos F. Dourado disse...

Gostei do texto Rodolpho. É pra refletir e muito. Você vive isso que descreveu?

Gessy disse...

Um anti-herói!
Belas palavras, embora retratem um drama nem um pouco belo que só quem vive, viveu ou está vivendo para entender.
Beijos.

Marcelo Soares disse...

Um dos melhores textos seu que ja li, sem duvidas. Viajei muito nesse texto, parei, refleti, re-li. Adorei. Temos varias coisas em comum se olharmos para experiencias ganhas com o 'evoluir' da vida. De heroi e anti-heroi, todos temos um pouco, né.

Abraço

Chris Macêdo disse...

Adoro seu blog. Tem selinho pra vc. Bjos

JanaFerraz disse...

Seu texto é reflexivo e profundo, principalmente quando olhamos para nós mesmos e para nossas vidas.
Nunca somos os mesmos o tempo inteiro, somos heróis e vilões!
Você é muito talentoso.

De hoje em diante marcarei presença pro aqui, já estou seguindo e volto sempre!
Também tenho um cantinho:
www.misturadinamica.blogspot.com
Ficarei feliz em te receber por lá.

Alexandre Fernandes disse...

Nossa! Estas palavras poderiam facilmente serem escritas por mim. eu me encontrei nelas Rodolpho, sério mesmo.

E é tão difícil encontrar algo que identifique um pouco esta suavidade que passa dentro de nós. os conflitos que temos por vezes geram esses questionamentos que fazem a gente pular abismos em busca de respostas. Porque é isto que nos empurra.

Não dá para exigir muito de nós, nem que possamos intervir no que observam e absorvem da gente. Apenas precisamos, com o nosso jeito singular de ser insinuar a beleza que ecoa em nós. O mais bonito no ser humano é apenas propagado em silêncio. E assim é com as belezas que ficam ocultas na alma. Elas precisam ser sussurradas e compartilhadas com extrema cautela. Só assim nos conhecemos e nos entendemos melhor. A mutualidade entre nós se torna algo gradual e essencial.

Abração!

Tati disse...

Esse eu já havia lido, mas definitivamente não sei comentar os seus textos.

Você é ótimo e sempre muito intenso.

Gostei muito desse, muito reflexivo também e muito verdadeiro.

"as terras intricadas de minha mente, são terremos perigosos, não me atrevo a deixar ervas daninhas crescer por lá..."

Admiro muito seu talento.