O fim da rodovia


O hálito do inverno embaçava o vidro do carro. Do lado de fora a neve se espalhava pelo acostamento e na rua se viam as marcas de pneus. Do lado de dentro, três pessoas se refugiavam com o aquecedor ligado. No rádio tocava uma música baixa que servia apenas de som ambiente enquanto a mulher no volante discutia algo banal com o homem sentado ao seu lado.
Eles estavam indo de volta para casa depois de saírem da casa dos pais dela, que por sinal eram os sogros dele, contudo eles não chegariam a seu destino. Pelo menos, não todos eles.
As vozes alteradas nos bancos da frente acordaram o bebê de dois anos que dormia confortavelmente em seu assento especial no banco traseiro, com isso outra discussão se iniciou e a culpa era atirada de um lado para o outro.
– Cuidado – ele gritou quando a mulher distraiu-se com o bebê, mas ela não conseguiu desviar a tempo.

O ônibus estava com metade de sua lotação de costume, normalmente excursões como aquela para feiras de exposições em cidades vizinhas atraía um número razoável de velhas senhoras cansadas da monotonia das tardes em suas varandas com as agulhas de tricô e de crianças que acompanhavam as avós.
O motorista era novo na empresa de transporte, mas conhecia ambas as cidades como a palma de sua mão, assim como a rodovia que ligava as duas. Ele passara a noite anterior em claro por ter descoberto que a mulher o estava traindo.
O sono aproximou-se de mansinho e acomodou-se em seus ombros, sussurrando uma canção de ninar em seus ouvidos. Suas pálpebras começaram a pesar e a cabeça tombava de minuto em minuto, de repente tudo ficou escuro. Ele não ouviu os gritos assustados dos passageiros nem percebeu quando o ônibus invadiu a pista no sentido contrário.

O carro tentou desviar, mas bateu de frente com o ônibus, que o atirou para fora da pista. O ônibus derrapou pelo asfalto liso pela neve e tombou.
Um homem conseguiu sair dos destroços do carro, todo ferido e encarou horrorizado o resultado do acidente.
O motorista do ônibus acordou e viu-se dentro de um pesadelo real. Tudo estava escuro, havia pessoas machucadas e gemidos. Sua cabeça doía e estava manchada de sangue. Ele tentou caminhar por cima dos assentos para checar se havia alguém em estado grave e ouviu um grito desesperado do lado de fora.
O homem com cortes no rosto sentiu as lágrimas queimarem as feridas. O vento gelado desaparecera, não havia testemunhas. Dentro do carro não havia sobreviventes.
Não houve vítimas fatais no ônibus, apenas algumas contusões e cortes superficiais. O motorista abriu a saída de emergência e deparou-se com um homem ajoelhado ao lado do outro veículo envolvido no acidente.
Quando ele viu o que causara, seus problemas tornaram-se insignificantes. Bastou um minuto de descuido para que aquelas vidas se perdessem. Ele viu a dor estampada nos olhos molhados do homem que perdera sua família e sentiu o peso da culpa afundar seus ombros, sem saber o que dizer.
– A culpa é minha – ele ouviu o homem dizer. – Eu não deveria ter deixado-a dirigir.
“A culpa é da maldita da minha mulher”, o motorista do ônibus pensou.
A culpa certamente era de alguém, mas apontar culpados não era suficiente. Nada mudaria o que aconteceu.
A vida leva tempo para ser construída, mas pode se acabar em questão de segundos, seja por ordem do acaso ou pela mão do homem. A vida é como estar numa estrada incerta, ora escorregadia, ora cheia de curvas misteriosas, cabe ao condutor estar atento a cada detalhe.
O motorista do ônibus aprendeu que evitar os erros dói menos do que se culpar e que por mais que se tente, algumas coisas não podem ser desfeitas.

Pauta para Bloínquês
Galera, sei que estou devendo várias visitas, mas o fato é que ainda estou desconectado do mundo e sem muito tempo. Estou escrevendo um livro, que está consumindo minha inspiração, por isso a frequência das postagens diminuiu. Enfim, agradeço a quem tira um tempo aqui nas páginas do blog e pelos comentários sempre gentis, que aprecio muito. Até a próxima, não se esqueçam de votar no Top Blog e um grande abraço.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

8 sorrisos compartilhados:

Bell Souza disse...

O conto é realmente brilhante. A sua facilidade de expor seus sentimentos é inquietante de tão real. Eu sou fã do seu trabalho, desse talento surreal para contar histórias.
(só não gostei da história em si, porque eu estava toda alegrinha e agora? depressiva... ahauhduah)

A Escafandrista disse...

Voltando pra conferir teus contos, que eu adoro. A imagem tbm é bem legal, estava com saudades de vir aqui. Bjinhus.

Rebeca Postigo disse...

Belo texto!!!
Me fez refletir sobre muitas coisas...
Obrigada!!!

Bjs

Inercya disse...

Procurar a culpa não vai mudar no que aconteceu. São coisas em que o destino trabalha e acontece, não tem volta.

Gosto muito da sua maneira de descrever as cenas, os pensamentos.
Já pensou em ser roteirista? :)
:*

Babizinha disse...

De conto à vida real... Fico imaginando quantas tragédias ou erros são necessários para nós pensarmos no valor de cada pessoa ou de nossa própria vida.
Volto a repetir, também sou uma admiradora sua!

Cadê você na minha vida "twittíca", Rodolpho? rs

Beijos.

Dani Ferreira disse...

~ "Apontar culpados não era o suficiente. Nada mudaria o que aconteceu." Pois é, depois que o erro foi cometido, nada muda mesmo. Resta o arrependimento e a lição para não errar novamente.
Bgs :*

Marcelo Soares disse...

Tem um video no youtube, bastante famoso, da andressa, menina com uma missão linda na vida, porem, morreu num acidente de carro, no final do video ela fala uma frase extremamente forte, linda e verdadeira: 'Talvez, se deixarmos para fazer amanhã, não de tempo'.

Adorei o texto.

Abraço

Tati disse...

Outra reflexão brilhante Menino. Conto maravilhoso, muito real.
Incrível como esse seu dom de nos conduzir entre os cenários é bom.

Beijos