O choro do piano


♫ (...) If my voice could reach back through the past,
I'd whisper in your ear,
Oh darling I wish you were here. ♪

O coração dele doía. Não era dor de amor, pois amor não machuca. Era dor de saudade, aquela dor lancinante que começa de dentro pra fora e demora a passar.
Nos momentos mais críticos e desesperadores, em que ele se sentia tragado para o inferno da solidão, ele tocava. Seus dedos pareciam ter vida própria e saltitavam de uma tecla à outra do velho piano. O som escapava tímido do instrumento e atingia o ar, viajando nas ondas sonoras em busca dos ouvidos certos para escutá-las.
A dor que ele sentia fora trazida por uma despedida inesperada que viera antes do tempo. Em um dia tudo estava bem, seus dedos saltadores tinham abrigo nos dedos firmes dela e no outro dia, os dedos dela já não estava mais lá. A vida dela já não estava mais lá. Dessa forma, a dor se aconchegou em seu ombro e por ali permaneceu.
Enquanto ele espremia do piano a melodia da música preferida dela, as lembranças se tornavam mais nítidas, como se todas as cenas tivessem acontecido no dia anterior. Naquele momento acústico, a dor se irritava e deixava o ambiente, dando lugar a uma doce nostalgia.
Ela havia sido aquela pela o qual seu coração pulsava, a razão de sua alegria e a emoção de seus pensamentos. Ele muitas vezes pensava não sentir amor, era algo maior, algo ainda sem nome e desconhecido da maioria das pessoas. Algo puro e valioso.
A música sempre fora um laço que os aproximava ainda mais, às vezes as palavras se confundem em dizer o que se sente, mas as notas de uma canção jamais erram, elas tocam no fundo da alma e transmitem exatamente o que o coração quer falar. Por isso ele tocava.
Ele tocava para dar voz a seus sentimentos, para trazê-los à superfície e exibi-los a todo mundo e ao mundo todo.
Quando ela partiu para uma terra onde ele não poderia segui-la, no rádio tocava uma música triste, daquelas que nos atingem abruptamente e muitas vezes nem sabemos o porquê. E ele chorou. Seu pranto compôs a mais devastadora melodia que já tocara em sua vida e ela impregnou o ar, como um disco riscado, que luta para fugir daquele compasso errante, mas acaba voltando diretamente para ele.
No limbo silencioso de seus devaneios, ao som que escorregava de seus dedos, ele a tinha por perto, mesmo que por alguns segundos. Seus olhos se fechavam e ele podia senti-la ao seu lado, encostada em seu ombro, como sempre fazia quando ele tocava.
O coração dele doía, mas enquanto estivesse batendo, ele buscaria a canção perfeita para aprisionar a essência de seu amor, para deixá-la viva nesse mundo, mesmo depois que ele partisse.
As notas bailavam no salão do tempo e durante sua valsa flutuante, ele tinha um vislumbre do paraíso.

Pauta para Bloínquês
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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

6 sorrisos compartilhados:

PauloSilva disse...

Que romântico post!
Adorei, adorei!
Abraços enormes.

Marcelo Soares disse...

Queria eu conseguir descontar a falta que alguém me faz num piano, violão. Achei o texto simplesmente perfeito. Me vi em muitas partes.

Abraço

Vanessa Monique disse...

Vc como sempre escrevendo mt bem, qnt tempo não passava por aki.
:*

Babizinha disse...

"[...] as notas de uma canção jamais erram, elas tocam no fundo da alma e transmitem exatamente o que o coração quer falar."

Eu não canto nem toco, mas talvez seja por isso a maioria dos meus textos eu os escrevo ouvindo alguma coisa. Música realmente embala minha vida e me inspira!

Lindo texto, boa sorte!

Beijos, Rodolpho.

Alexandre Fernandes disse...

Uma história imensamente linda, que percorre os corredores mais profundos da alma. Palavras que denunciam bem aquela essência tão iminente que surge no coração, saudade íngreme que torna a alma estreita e dolorida. Dor porque há de estar distante, não há como sentir o que se ama novamente.

Saudade evidenciada pela melodia. Sentimentos denunciados em notas musicais.

Muito lindo Rodolpho!

Abração!

Lívea Colares disse...

Não tem forma mais sublime de expressar o seu interior que a música. Lindo texto!