O Senhor das Sombras - Parte 6


O dia amanheceu nublado, a claridade tentava penetrar as frestas das velhas janelas de madeira do quarto onde Alistar estava e ele se manteve no canto mais escuro. Logo cedo uma gritaria irrompeu os corredores da hospedaria, uma mulher berrava sobre marcas de sujeira na entrada e seus passos se dirigiam aos cômodos recém ocupados. Alistair ouviu uma discussão entre essa mulher barulhenta e Sebastian.
- ... seus pais foram embora daqui e você e quem quer que esteja neste quarto também vão. – o vampiro ouviu a mulher berrar.
- Não podemos, é o meu amigo, ele está doente – Sebastian mentiu – É alguma doença nova e bem contagiosa, ninguém pode chegar perto dele além de mim, pois tomei uma vacina lá em Paris que me mantém imune.
- Vocês têm dois dias – a voz da mulher se abrandou.
- Obrigado, isso vai ajudar por ora – ele disse e, assim que a mulher desceu as escadas, entrou no quarto.
Alistair o observou se aproximando.
- Bom dia, dormiu bem? – ele perguntou sorrindo.
- Eu não durmo – resmungou o vampiro.
- Naturalmente, então o que vamos fazer com você?
- Me deixar em paz? – arriscou ele.
- Boa tentativa, mas você não vai se livrar de mim tão facilmente. A questão é que você precisa se alimentar de... bem, você sabe e eu não quero nenhum mal para as pessoas daqui, por isso andei pensando em uma solução para isso, antes de cair no sono.
- E você chegou a qual conclusão?
- A de que você pode conseguir o que precisa de bandidos. Você seria uma espécie de herói, limpando a cidade do crime e... – ele falava como se narrasse uma aventura policial.
- Espera um pouco, você ainda não percebeu que eu sou o cara mau? Eu mato pessoas – ele fechou os olhos e sacudiu a cabeça ao ouvir as próprias palavras – Eu não sou desse mundo, Sebastian, isso não está certo, o que você viu no navio foi horrível e eu não quero continuar vivendo como um monstro.
O jovem se aproximou do vampiro e o encarou nos olhos, deixando transparecer uma compreensão que ele jamais vira em sua vida.
- Você não é um monstro, Ali, você só não é perfeito, como todo mundo. Se o destino te impôs essa condição é porque deveria ser assim, agora é tarde para julgar quem você é.
- Obrigado, Sebastian, vou pensar na sua proposta. E não me chame de Ali. – ele respondeu e o outro riu.
- Vou sair para encontrar meus pais, conseguir alguns contatos e ver como a cidade mudou, farei uma pesquisa sobre “os mais procurados” e te digo mais tarde. Não saia daqui – ele acrescentou num tom de quem fala com uma criança teimosa.

O dia se arrastou lentamente e conforme as horas se passavam, a sede por sangue aumentava. O prédio estava cheio de corações pulsantes que entravam e saiam pela porta da frente, todos com aquele característico “tum-tum” convidativo.
Alistair se contorcia na cama, gemendo de vontade de escancarar a porta e provar todos os sabores ali presentes.
Sebastian retornou ao quarto quando o dia começava a se recolher. Ele exibia um olhar taciturno que logo foi percebido pelo vampiro.
- O que houve? – ele perguntou.
- Eu descobri que meus pais estão mortos – Sebastian respondeu e desviou o olhar, deixando as lágrimas caírem livremente – Eu não tenho mais ninguém, Ali.
- Você tem a mim – as palavras do vampiro saíram mais rápido do que ele esperava e ainda incerto do que fazer, ele abraçou o amigo e segurou cada lágrima que ele derramava.
O cheiro da pele de Sebastian o entonteceu, o pulsar de sua veia e o sangue correndo continuamente lhe desconcentravam. A sede gritava desesperada, feito um animal enjaulado.
A noite caiu sobre o mundo, era hora de soltar a fera.

EM BREVE – PARTE 7

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

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isadora :) disse...

de onde vem tanta inspiração?

http://love-intheafternoon.blogspot.com