O Senhor das Sombras - Parte 5

Londres

A cidade coberta por um nevoeiro ameno saudou o navio que chegou com menos tripulantes e com um clandestino a bordo. Alistair sentiu o cheiro da brisa da madrugada e despistou os marujos, caminhando apressadamente por uma viela sem iluminação. Seus ouvidos muito atentos lhe avisaram que ele estava sendo seguido.
- Quer parar de me seguir? – ele agarrou o vulto e encostou-o na parede, alguns centímetros do chão.
- Calma, Ali, sou eu – Sebastian falou serenamente.
- Eu sei que é você e, primeiro, não me chame de Ali, segundo, eu fico sozinho – o vampiro falou seriamente.
- Olha, você me acobertou, eu te acobertei, pensei que tivéssemos uma parceria...
- Não existe parceria nenhuma, eu apenas te fiz um favor e estou fazendo outro grande favor de te deixar vivo...
- Por que você faria isso? – Sebastian rebateu com um quê de brincadeira na voz.
- Você não tem medo de mim? Qualquer pessoa sã, depois de ver o que você viu, não pensaria duas vezes antes de ficar a quilômetros de mim. Eu posso te matar.
- Isso não significa que você vai, agora, por favor, você pode me colocar no chão?
Alistair encarou o rapaz, escutou as batidas aceleradas de seu coração e soube que ele estava morrendo de medo, mas ele atendeu ao pedido.
- Então você é um ator? – ele perguntou fingindo interesse.
- Sou e em breve serei mundialmente conhecido – Alistair ergueu as sobrancelhas numa expressão de espanto e percebeu que o jovem entusiasmado era alguém interessante. – Podemos ir andando agora?
- Eu já te disse...
- Que você fica sozinho, eu entendi, mas eu não vou deixar você sozinho por aí em uma cidade desconhecida, principalmente quando o sol está prestes a nascer – Alistair foi pego de surpresa com isso e olhou para o horizonte. As nuvens exibiam uma coloração arroxeada e o véu da noite se dissipava.
- O que tem o sol?
- Você é um vampiro, certo? – o outro concordou – Você não sabe mesmo? – Sebastian riu da ironia, ele sabia mais sobre vampiros do que o próprio na sua frente. – Venha, eu te explico tudo no caminho.
Alistair, por algum motivo, decidiu segui-lo e descobriu que a luz do dia é fatal para vampiros e depois de pouco tempo, Sebastian começou a despejar uma carga de informações pessoais. Ele contou que nascera em Londres e vivera lá até o dezoito anos, depois ele mudou-se para a França para tentar a vida de ator lá e como não obteve nenhum sucesso decidiu retornar para a Inglaterra, nesse momento ele se desculpou por ter mentido quando disse que queria tentar a vida ali. Antes de o sol despontar, Sebastian os guiou até um bairro boêmio, um ou dois bêbados estavam dormindo na sarjeta ao lado de cães pulguentos. O jovem ator, ainda em posse de seu pacote, entrou numa hospedaria decrépita e chamou o vampiro para dentro.
- Meus pais são donos daqui – ele informou e tirou uma chave da caixa que carregava.
Alistair realmente não esperava por aquela reviravolta na história e sentiu-se aliviado por não ter dado as costas a Sebastian.
O prédio de dois andares era uma espelunca, logo na entrada se via um balcão com uma placa que dizia “Temos quartos sobrando”, o chão parecia não ser limpo há muito tempo. Os dois subiram as escadas que rangiam de protesto sob peso dos passos. Sebastian encontrou dois quartos vagos, indicou ao vampiro um que era menos afetado pelo sol e ficou no outro.
Alistair entrou no cômodo que cheirava a mofo, urina e outras coisas que ele não conseguiu identificar de imediato e sentou-se na cama dura, as molas sob o colchão gritaram ao ser pressionadas e ele deitou-se. Enquanto observava o teto cheio de rachaduras e manchas de infiltração, ele se deu conta de que não dormia desde que fora transformado e soube então que jamais voltaria a sentir sono outra vez.

EM BREVE - PARTE 6

Compartilhe

Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

2 sorrisos compartilhados:

A Escafandrista disse...

aguardo, ansiosamente, a parte 6. Bjs meu querido. feliz páscoa.

Carlos F. Dourado disse...

Eu sabia que o Sebastian ia ajudar ele nessa historia. Ta ficando cada vez melhor a historia, esperando a parte 6