O Senhor das Sombras - Parte 4


Alistair deixou a casa destruída e caminhou pelas ruas, sentindo o peso da culpa sobre seus ombros, como um fardo pesado demais para carregar. Ele arruinara sua família, desonrara o nome de seu pai quando estava vivo e depois causara a morte de todos eles. Seu ódio por Jean palpitava em suas veias, ainda que seu coração já não pulsasse mais e sua morte não lhe servia de consolo algum.
Ele fechava os olhos e as imagens de seu pai, sua madrasta e meia-irmã mortos projetava-se em sua mente, memórias recentes que foram gravadas profundamente e que não desvaneceriam tão cedo. As lágrimas quentes e inúteis afogavam sua visão e de nada adiantavam.
Ele estava sozinho, sem saber exatamente o que era e perdido num emaranhado de dúvidas e arrependimentos. Desejou voltar no tempo e ter sido um bom filho e seguido os passos do pai, quis criar os laços fraternos que nunca existiram entre ele e a irmã, ele teria atitudes diferentes na vida e nenhuma delas o levaria embriagado para os braços do diabo pálido que fora sua perdição.
Aquela cidade guardava apenas decepção, por isso ele resolveu abandoná-la. Esperou por dias por um navio que o tiraria dali. Ele passava a parte do dia enfurnado em celeiros de fazendas e se alimentando de animais e toda noite retornava à cidade para ter notícias de viagens. Certa noite chegou a tempo de pegar um navio cargueiro que partiria para Londres, conseguiu um trabalho no navio e embarcou.
A tripulação de homens robustos se mantinha afastada dele, por algum motivo ele era temido e não se importou com isso. Ele passava os dias no porão do navio se alimentando de ratos que logo se tornaram inexistentes e a viagem ainda seria longa.
Depois de uma semana em alto-mar, ouvindo em cada canto as batidas aceleradas dos corações a bordo, controlar sua sede se tornara uma tarefa impossível.
Em uma noite sem luar, os marinheiros desencaixotaram uma carga de bebidas e se deleitaram no álcool, Alistair viu ali uma oportunidade de saciar seu desejo insano. Ficou sentado no convés, mantendo-se distante dos demais e observando quais copos se esvaziavam com mais frequência. Um homem musculoso depois de muitos goles se dirigiu à popa para urinar e sem que percebesse uma sombra o seguia.
Alistair o pegou desprevenido e mordeu-lhe o pescoço, o homem virou-se cambaleante e agarrou um arpão, com grande destreza o vampiro se esquivou de cada golpe e saltou sobre as costas do homem e grudou-se em sua pele como uma sanguessuga. O arpão sacolejou no ar antes que o homem tombasse com um baque no assoalho sujo do navio. Alistair drenou completamente o sangue do outro e atirou-o ao mar, depois retornou para onde os outros estavam e sentou-se novamente em seu lugar, como se nada tivesse acontecido.
Dois dias depois ele atacou um marujo mais jovem que sem muito esforço foi arrastado para o porão e lá encontrou seu fim. O sangue dele renovava suas forças a cada sorvida, antes que terminar sua refeição, Alistair ouviu um barulho vindo de uma grande caixa de madeira, ele largou o corpo do homem no chão e foi verificar o que a caixa continha. Quando abriu a tampa, deparou-se com um rapaz que exibia um olhar assustado.
- Por favor, não faça nada comigo, eu não conto para ninguém o que você fez – ele rapidamente implorou.
- O que você viu? – Alistair perguntou.
- Nada – o outro mentiu e ao encarar a expressão séria do vampiro, confessou – Vo... você o matou e... você é um vampiro?
- E você é um viajante clandestino.
- Tecnicamente sim, nesse momento, mas eu sou um ator – o homem disse – Não conte a ninguém que eu estou aqui, eu preciso chegar a Londres e tentar uma vida lá.
Alistair analisou o rapaz, ele deveria ter entre vinte e cinco a trinta anos, no máximo. Sua pele era morena, seus cabelos estavam sujos e oleosos e seus grandes olhos castanhos aguardavam uma resposta. Ele segurava um pacote nas mãos.
- Temos um trato, eu fico calado e você também – o vampiro disse e o homem estendeu a mão, ele apertou.
- Meu nome é Sebastian Jones, muito obrigado, Sr. Vampiro.
- Não me chame assim, meu nome é Alistair. Agora volte para sua caixa e fique quieto.
- Sim, capitão – o homem bateu continência e deitou-se sobre um monte de tecidos sujos.
Alistair virou-se, um sorriso formando no canto de sua boca e esperou os outros dormirem para se livrar de mais um corpo.
A viagem durou mais três dias e mais dois marinheiros jamais veriam a terra firme outra vez.

EM BREVE – PARTE 5

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Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

1 sorrisos compartilhados:

Carlos F. Dourado disse...

A historia está ficando boa, estou achando que esse viajante clandestino irá ajudar ele nessa historia.