O homem de pedra - Parte 9 (Final)

Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5, Parte 6, Parte 7 e Parte 8


Trevor arregalou os olhos assustados e olhou ao redor em busca de ajuda.
- O que você disse? - balbuciou Ártemus.
- Você ouviu perfeitamente, agora mate o garoto – ordenou a bruxa.
- Ninguém vai tocar no meu irmão – falou Raquel que saíra de trás das árvores.
- Ora, ora, isto está ficando interessante – sibilou a velha.
- Eu não acredito que você fez isso, Ártemus. Você passou todos os limites...
- Eu... eu não sabia, ela me enganou – defendeu-se ele.
- Por que você fez um pacto com ela?
- Ele não te contou? – perguntou a velha com uma expressão falsa de espanto – Ora, é claro que ele não contaria. O jovem guerreiro quer seu coração só para si, ele concordou em matar o seu irmão para que seu desejo pudesse se realizar.
- Não, por que você está fazendo isso comigo? – ele indagou.
- Esqueça o garoto, eu quero o sangue dela agora, quero a beleza dela toda para mim... – a velha se aproximou da moça como um lobo acuando a presa.
- Afaste-se dela, sua velha maldita – Athos finalmente destrancou a voz que desta vez não bateu nos dentes e retornou. Sua voz ressoou como um trovão abafado pelas nuvens. Seus músculos se contraíram, seus braço e pernas se moveram. Ele já não era mais feito de pedra. Todos o encararam, surpresos.
- Não, isso não pode estar acontecendo – berrou a bruxa – Eu vou te matar, vou acabar com seu amor e assim ele voltará a ser pedra – a velha deu um passo na direção de Raquel.
Athos agarrou o arco das mãos de Trevor e uma flecha de sua aldrava e com sua precisão atirou-a. A flecha voou livre no ar, cortou as chamas da fogueira e flamejante atingiu o coração da bruxa, que entrou em combustão e explodiu em seu peito. A velha deu um grito sufocado e tombou para trás, sem vida.
Athos caiu sobre os joelhos e sentiu o peso dos anos, da dor, da saudade e de todos os sentimentos que duelavam em seu peito e deixou as lágrimas se atirarem nas folhas do chão.
- O que foi? – Raquel perguntou e correu de encontro a ele, lançando seus braços envolta do homem.
- Eu já tinha perdido a esperança de voltar a ser normal, eu perdi tanta coisa em minha vida, eu...
- Você vai ficar bem – ela disse.
Ártemus encarou o corpo caído da velha e o homem que outrora fora uma estátua e um temor se apossou de seu corpo, ele correu por entre as árvores de volta para o vilarejo.
- Como tudo isso aconteceu? – perguntou Trevor – E a propósito, obrigado por salvar as nossas vidas.
- Eu não sei porque fui amaldiçoado nem o que reverteu isso, eu... Meu Deus, eu só quero voltar para casa – Raquel ajudou-o a se levantar e pela primeira vez, o olhar dos dois se encontrou e lá no fundo da pupila dela, ele encontrou a resposta para tudo e ela, ao contemplar os olhos dele que lembravam um poço obscuro, enxergou muito mais do que os outros viam. – Foi você, você quebrou a maldição – ele disse.
Trevor olhou para a irmã que deu de ombros e os três voltaram para a vila.
Assim que atingiram a orla da floresta, avistaram uma multidão que os esperava. Ártemus chegara berrando “o homem de pedra voltou” e todos acharam que ele havia enlouquecido, mas agora entendiam.
A mãe de Raquel sentiu o coração martelar com força, como se quisesse abrir a pele e se jogar ao ar livre.
Athos saiu das árvores e ao encará-la estancou o passo e ficou boquiaberto. Ele jamais esquecera aquele rosto e agora percebia porque a moça conversadeira era tão familiar.
- Ramona – ele conseguiu sussurrar.
- Você conhece a minha mãe? – perguntou Raquel confusa.

Athos não sentiu o coração bater mais forte ao estar na presença de Ramona, ela era como qualquer outra pessoa. Em seu peito havia espaço somente para Raquel, seu coração pertencia a ela agora.
- Precisamos conversar – Ramona disse à filha e todos se dirigiram à sua casa sob os olhares indagadores dos habitantes da vila.
Ramona contou a Raquel que Athos morava na vila quando ela era jovem, contou que o visitara na floresta quando ele havia sido transformado em pedra e que nunca mais o vira depois que se casou. Ela não sabia o que sentia por ele, na época, e por isso não falou nada sobre esse assunto. Athos ouviu a conversa calado.
Todos queriam saber o motivo da maldição e o único que poderia dar essas respostas era Ártemus.
Raquel foi em busca do caçador enquanto Athos se dirigiu para sua casa, que estava intacta desde quando ele partira, há vinte e seis anos.
- Ártemus, você precisa me dizer o que aconteceu lá – Raquel disse assim que o avistou.
Então Ártemus revelou tudo o que a bruxa lhe dissera, que havia amaldiçoado Athos por vingança pela morte de seu pássaro e que somente um amor verdadeiro reverteria a maldição, por isso ele queria afastá-la do homem de pedra.
- O que você fez foi imperdoável, Ártemus, eu não posso ficar com você – ela disse por fim e deu as costas ao caçador e foi ao encontro de Athos.

Os dois realmente havia se apaixonado e aquele amor que surgiu do nada, foi crescendo a cada dia mais. Raquel e Athos se casaram no ano seguinte e tiveram dois filhos.
Ramona estava orgulhosa da filha e feliz pela volta do caçador. Ela percebeu que se ele não tivesse sido amaldiçoado, ela não se casaria e não teria a família que tinha e tudo seria diferente. Algumas coisas ruins acontecem para que algo grandioso e bom venha pela frente.
Trevor se tornou um arqueiro habilidoso depois de tomar aulas com Athos.
Ártemus se casou com uma jovem que sempre fora apaixonada por ele e finalmente descobriu o que é o amor e soube que aquilo que sentira, certa vez, por Raquel não o era.
Athos se tornou um homem melhor, passou a conviver com todos e a respeitar as pessoas. Tornou-se um homem amável, um marido excelente e um pai amoroso. No fim ele não conseguia culpar a bruxa, afinal, por causa do que ela fizera, ele agora sabia o que era felicidade.

O vilarejo vive em paz desde então e nunca mais nenhum faisão foi avistado pelas redondezas.

Mais um final de conto, quando escrevi esse conto pela primeira vez, eu nunca imaginei que pudesse chegar até aqui. Gosto quando a história cria vida por si só e me surpreende. Espero que quem acompanhou tenha gostado. Eu gostaria de pedir a quem acompanha meus contos em partes, que votem na enquete. Obrigado e um grande abraço.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

4 sorrisos compartilhados:

Tati disse...

Bom, eu adorei!
Só achei que vc demorou demais pra postar hsuahsuhas
Brinquês
Amei!

ONG virtual disse...

Desculpa não comentar em todas as partes viu rod? Ando meia sem tempo, mas isso não me impediu de ler. E eu não vou falar aqui nada que você já não saiba. Adorei o conto como todos os outros, e particularmente deste, que foi um pelo qual eu me animei pra ler e esperei ansiosa cada parte. Parabéns rod !

Grande abraço sumido.

ONG virtual disse...

Esqueci de dizer que tô no perfil da ONG, é a Luria ok ?

beijo.

Jéssica disse...

Lindo! Amei o final. Foi surpreendente!