O homem de pedra - Parte 8


Raquel voltou para o vilarejo, sendo seguida por uma tristeza enorme que acompanhava cada passo seu. Na cabeça, um turbilhão de pensamentos insanos e no coração uma tempestade de sentimentos em confronto.
Depois de todos os anos vivendo na solidão, ela finalmente encontrara um lugar onde havia paz e lá, seu coração vulnerável e esperançoso depositou as expectativas grandiosas em algo irreal. Ela sabia o que estava sentindo, exatamente por nunca ter se sentido daquela maneira, mas de que adianta alimentar um sentimento que futuramente se tornará grande o bastante para devorá-la?
Entre lágrimas, dores e dúvidas, ela chegou em casa e se trancafiou em seu quarto. Observou a noite se derramar no céu e afundou em pensamentos sobre o homem de pedra. A lenda que ela crescera ouvindo, contava que aquele homem era real, que ele um dia fora um grande caçador, mas ninguém nunca soube responder o motivo pelo qual ele havia sido amaldiçoado, tampouco sabiam como reverter a maldição.
Ao pensar nessa história como verdadeira, Raquel nutria uma esperança de que debaixo daquela casca dura e fria, havia alguém de carne e osso e pensar nisso machucava ainda mais seu coração que decidira se manter distante.
“Preciso esquecê-lo”, sua voz soou sem forças em sua mente, mas ela sabia que quando o coração lhe conta verdades, não há como mentir para si mesmo.

O jovem caçador deixou a floresta quando a lua cintilava elegantemente no céu, como uma espectadora da história toda desde o início.
Ártemus tentava decifrar as palavras sem nexo da bruxa. Seus olhos atentos procuravam por alguém e um sorriso satisfeito brotou em seu rosto quando ele o encontrou.
- Trevor, eu queria falar com você.
- Comigo? – indagou o garoto confuso.
- Sim, lembra que você me disse que gostaria de aprender algumas lições de caça? – Trevor assentiu com a cabeça – Acho que amanhã seria um ótimo dia para isso. Posso te ensinar alguns truques pela tarde, o que você acha?
- Acho ótimo – respondeu ele empolgado – Amanhã, de tarde. Levo meu arco? – Ártemus fez que sim e foi para sua casa.
No dia seguinte, ele passou a manhã pensando na decisão que havia tomado e ainda não sabia exatamente o que deveria fazer, mas um lado egoísta dentro de si lhe dizia que era a coisa certa.
Quando a tarde chegou, ele encontrou Trevor no centro da vila, com seu arco em mãos e uma aljava pendurada nas costas com algumas flechas.
- Você está pronto? – ele perguntou ao garoto sorridente.
- Sempre, vamos logo. – Trevor respondeu.
Os dois se embrenharam na mata silenciosa.

Raquel acordou coberta por uma melancolia que se impregnara em seu corpo desde a noite passada. Ela se levantou, arrastando os pés, e comeu pouca coisa no desjejum. O resto da manhã foi improdutivo, ela ficou sentada olhando a floresta através do vidro da janela e quando a tarde chegou, ela percebeu que não poderia lutar contra a força daquilo que sentia.
Ela precisava voltar para onde seu coração havia feito morada.
Apanhando um manto cinza, ela cruzou a orla da floresta, ainda sem saber que aquele dia lhe reservava grandes surpresas.
À medida que caminhava, ouviu vozes indistintas à sua frente e uma delas parecia a de seu irmão, então apressando o passo, ela avistou o caçula ao lado de Ártemus e continuou seguindo-os em silêncio.
Os dois se encaminhavam diretamente para onde o homem de pedra estava.
Um clarão chamou sua atenção e à espreita, camuflada pelas folhagens, ela viu quando o caçador e seu irmão se aproximaram de uma velha diante de uma fogueira.

Athos assistiu calado e cheio de raiva, a bruxa montar uma fogueira em sua frente. Algum tempo depois, duas outras pessoas se aproximaram.
- O que estamos fazendo aqui? – perguntou Trevor, com maus pressentimentos. - Quem é ela?
- Vejo que trouxe o garoto – a velha sibilou.
- Agora cumpra sua parte no acordo – rebateu Ártemus.
- Não se precipite, meu guerreiro, você não se recorda de minhas palavras? – a bruxa indagou e falou antes que ele respondesse – Quando a juventude a mim, por tuas mãos for entregue, ordenarei que os obstáculos em teu caminho, o vento carregue.
- O que isso quer dizer? – ele perguntou.
- Que você deve matá-lo e me entregar seu sangue.

EM BREVE – PARTE 9 (FINAL)

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

4 sorrisos compartilhados:

Jenuíno disse...

Como é bom descobrir lugares com um ar de excelente...

Já estou te seguindo, espero que me siga tbm...

Um abraço do Rafah!
http://eternizadoempalavras.blogspot.com/

Jéssica disse...

Seus textos são extremamente lindos! Conheci o blog por acaso e não me arrependo. Posso garantir que estou super ansiosa para as próximas postagens!

Rebeca Postigo disse...

Quero mais!!!
Aguardando ansiosamente...

Bjs

Tati disse...

Você realmente é muito bom Rodolpho. Não demore para continuar. Beijos