O homem de pedra - Parte 7


Athos sentiu o corpo inteiro vibrar com a pancada na cabeça, imaginou que o golpe o racharia de uma ponta a outra, mas nada aconteceu. Ele permaneceu intacto, ouvindo a batida ecoar dentro de si.
- Quebre, estátua maldita – berrou Ártemus e golpeou o peito, as costas e mais uma vez a cabeça do homem de pedra.
- Já chega, Ártemus – Raquel gritou e se colocou entre o homem furioso e a estátua.
- Por que você está defendendo isso? – a moça não respondeu – Por quê? Responda.
Os olhos de Raquel se encheram de lágrimas.
- Vá embora, me deixe em paz.
- Por quê? – gritou Ártemus e atingiu novamente a estátua.
- Porque eu o amo – ela gritou em resposta.
- O quê? Você enlouqueceu? Isso é uma estátua.
- Talvez eu tenha enlouquecido, eu me sinto bem aqui com ele...
- Raquel, eu... Você não pode estar falando sério.
- Eu quero ficar sozinha, vá embora, por favor.
Ártemus encarou a moça, em silêncio, depois olhou com raiva para o homem empedrado e saiu dali.
Athos ouvira a discussão e não soube, exatamente, como processar tudo aquilo. A moça dissera que o amava. Ele se perguntava se aquela sensação de preenchimento quando ela estava ali e de vazio quando ela partia, poderiam ser sintomas de amor.
Ele sabia que alguma coisa havia mudado, que por dentro ele se sentia melhor, como se uma outra pessoa tivesse tomado seu lugar. Ele aprendera a enxergar beleza em coisas que antes eram insignificantes, ele ouvia o vento sussurrar em seu ouvido de pedra e ele só dizia coisas boas. Ele observava as flores sacudindo em sua frente e pensava em colocar uma nos cabelos de Raquel. Ah, Raquel estava sempre em seus pensamentos, ela dançava em sua mente, sorria aquele sorriso que emanava calor e conversava com aquela voz de veludo que acariciava o ambiente.
O homem de pedra sentia o coração bater mais forte quando ela chegava.
“Por que choras, minha donzela?” Ele perguntou interiormente.
Raquel jogou os braços envolta da estátua, num abraço disforme e deixou suas lágrimas caírem sobre os ombros de pedra fria do homem.
- Eu não sei como ele veio parar aqui – ela falou num tom de desculpas – O que ele fez foi horrível – ela soltou os braços e encarou Athos nos olhos.
Ele observou aquele olhar, um olhar que jamais fora lançado em sua direção.
- Eu não sei porque eu disse aquilo, na verdade, eu não sei o que está acontecendo comigo. Eu penso em você toda vez que eu vou dormir, eu acordo desejando que o tempo voe depressa para que eu venha até aqui. Eu não sei o que é isso que estou sentindo, Homem-estátua. Eu devo estar enlouquecendo. Como meu coração pode se encher tanto de alegria por alguém que não é real? Como eu posso amar alguma coisa que nunca vai me amar de volta? – os olhos dela tornaram a marejar – Eu tenho que me afastar, tenho que me proteger de um sentimento sem razão. Eu peço perdão, mas acho que isso é um adeus.
Athos sentiu seu coração rasgar por dentro e gritar desesperado para que ela ficasse. Ele não suportaria outra despedida. Ele que sentia que a vida voltava a fazer sentido, que estava enfim descobrindo como é ter uma companhia, que descobrira um sentimento novo que brotara em seu peito de forma involuntária. Ele não poderia ficar longe dela, somente ela o fazia se sentir como um ser humano.
Apesar dos gritos mudos do homem de pedra e da dor que perfurava seu peito, Raquel deu as costas e caminhou de volta para o vilarejo.

Ártemus caminhava apressado por entre as árvores, sentindo o ódio percorrendo em suas veias.
- Olá, meu jovem guerreiro – uma voz atraiu sua atenção, ele olhou para o lado e viu uma velha surgir por detrás de uma árvore – Eu posso te ajudar a conseguir aquilo que deseja, só preciso de uma pequena coisa em troca. – e ele ouviu a proposta da bruxa – O que você me diz? Vai deixar que eu te ajude?
- Eu vou – ele respondeu com convicção.

EM BREVE – PARTE 8

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

2 sorrisos compartilhados:

vell disse...

as bruxas, sempre elas, buscand a destruição do amor que não tiveram... gostei bastante.

grande beijo ;*

Tati disse...

Deixa eu ler o próximo.