O homem de pedra - Parte 6

Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4 e Parte 5

Athos se perguntou há quanto tempo a bruxa havia retornado às redondezas e por que havia feito isso. Em sua cabeça, ela era a única que poderia fazer com que ele voltasse ao normal, mas seus muitos pensamentos sobre sua condição pétrea foram ofuscados por alguém que se aproximava.
- Hoje foi um dia cansativo, Homem- estátua – confidenciou Raquel que carregava um cesto de palha. – Quase não consegui vir até aqui, meus pais colocaram Trevor para me vigiar, mas eles deveriam saber que ele é meu cúmplice nisso.
“Que maravilha”, ele pensou com sarcasmo.
- Sabe, acho teu silêncio reconfortante, assim eu posso falar tudo para você sem ser julgada, é perfeito.
“Não queira saber o que meu silêncio interior está dizendo”, ele quis revirar os olhos, mas apenas observou a moça forrar o chão com uma tolha xadrez e sentar-se sobre ela.
- Normalmente eu te ofereceria alguma coisa, mas isso não faria sentido – ela riu e apanhou um pão da cesta. – Ontem a noite eu fiquei um bom tempo pensando nisso tudo, em ter você como amigo, eu sei o quanto isso soa estranho, mas acho que é assim que eu te vejo, apesar de ter te conhecido há pouco tempo. Deus, eu estou falando com uma estátua, só posso estar enlouquecendo. – ela ficou um tempo calada, apenas comendo.
A moça terminou de comer tudo o que trouxera, contou a Athos sobre a estação da caça que estava prestes a começar e logo em seguida partiu, carregando uma cesta vazia e uma tolha suja.
Athos escutou seus passos se distanciarem e saudou a solidão novamente, mas desta vez percebendo que estava começando a gostar da companhia da moça faladeira.
E assim dias se vestiram de noite várias vezes e em todas as tardes Raquel se embrenhava na mata para visitar seu amigo empedrado, que somente ouvia suas palavras.
O caçador de pedra passou a desejar que as horas se passassem depressa para que ele pudesse ficar diante da moça mais uma vez e escutar tudo o que ela tinha a dizer. Ele começou a sentir um calor dentro de si, que começava a espalhar pela pedra fria de seu corpo todo.

Ártemus certa vez perguntou a Trevor aonde sua irmã ia todas as tardes, sem obter uma resposta decidiu segui-la para descobrir por si só.
De longe ele avistou-a conversando com a estátua, ainda que não pudesse ouvi-la muito bem, ele provou uma sensação desagradável que começava na boca do estômago e lhe subia à garganta.
- Então você é real, homem de pedra? – ele olhou com desdém para a estátua assim que a moça deixara o local.
Ele passou a seguir Raquel quase todas as tardes e não estava gostando do que presenciava, a moça parecia outra pessoa na presença da estátua, era como se ela se sentisse mais livre para ser ela mesma.
Seus pensamentos ardilosos formulados pelo ciúme lhe deram uma ideia que ele pretendia concluir em breve.

- Olá, outra vez – essas simples palavras proferidas por aquela voz que passou a ser tão conhecida, fazia brotar um sorriso caloroso no peito de Athos que desejava que aquele breve tempo pudesse se estender para sempre.
“Ah, minha garota, se você pudesse saber o bem que tem me feito”, ele disse com sua voz enjaulada.
- Eu trouxe meu irmão para que te conhecer – ela disse e um garoto de olhar esperto apareceu na frente das vistas do homem de pedra.
“Eu sinto que te conheço há muito tempo, Trevor, mas é um prazer”, ele falou calado e se deu conta de que aquela era, ironicamente, a primeira vez que saudara outro homem daquela forma e ele gostou da sensação.
Ele começou a notar mudanças em si mesmo depois que passou a gostar das visitas de Raquel, da mesma forma que ela confia nele para ser quem era, ele, de alguma forma, sentia que ela o via além do que ele supusera que podia ser, como um amigo e um alguém merecedor de atenção por ser somente comum.
Em toda sua vida, Athos teve a necessidade de envaidecer seu ego e se mostrar como um homem superior aos outros, como se aquilo fosse algo que lhe fizesse bem, enquanto, contrariamente, aquilo tudo lhe causava mal e lhe afastava dos outros. A moça lhe ensinara uma lição valiosa, ainda que nem tivesse conhecimento disso.
Naquela tarde, Raquel ficou por menos tempo do que o costume, pois estava com seu irmão lá, mas sussurrou para Athos que compensaria o tempo no dia seguinte.

A moça caminhou apressada até seu companheiro de todas as tardes e ao chegar onde ele estava se deparou com algo inesperado.
Ártemus estava diante da estátua, segurando um machado no alto da cabeça, prestes a despedaçá-la.
- Ártemus, não – ela gritou desesperada e sentiu o coração apertar.
Um olhar maligno cruzou o rosto do homem e o machado desceu.

De trás das árvores, nas sombras da floresta, a bruxa assistiu toda a cena.

EM BREVE – PARTE 7

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

3 sorrisos compartilhados:

• Cynthia Brito • disse...

Indiquei o selo 73 do meu blog para você, Rodolpho :D Espero que goste! Olha, estou aguardando minha horas "vazias" para ler com calma este conto!

Beijos e até mais, xará de aniversário :D

Rebeca Postigo disse...

E agora???
Quero mais!!!

Bjs

Tati disse...

Ai ai que dó.
Deixa eu ir ler mais.