Entre goles e palavras

Acompanhado pelo fracasso de seus livros inacabados, o jovem escritor brigava com as teclas duras de seu velho teclado, tentando traduzir seus pensamentos em palavras. Um gole do copo de uísque desce queimando e as pupilas dilatam, as personagens e histórias se embaralham em sua mente como cartas de baralho esparramadas na mesa.
O cômodo escuro reflete seu humor sombrio, o ambiente está enevoado pela fumaça do cigarro que repousa no cinzeiro. Sobre a mesa de canto, uma luminária ilumina papéis rabiscados, riscados e cheios de palavras soltas, manuscritos sem fim nunca lidos por outros olhos. Estantes de livros empoeirados se prostram nas paredes atrás do homem, como sentinelas.
A luz pálida da lua adentra sem convite, escorregando pela janela aberta enquanto a brisa noturna se diverte com a cortina puída. Uma tragada no cigarro quase totalmente queimado apetece os sentidos literários do rapaz e seus dedos se põem a correr sobre o teclado, bailando de uma letra à outra, ao mesmo tempo em que as ideias interligadas se projetam na tela, uma junção de frases aleatória conectadas como cabos elétricos de um aparelho qualquer. O homem relê tudo aquilo que escreveu, xinga-se inaudivelmente e vê a barrinha correndo contrária, por uma ordem sua, apagando todos os caracteres.
Ele havia decidido veementemente que terminaria aquela história naquela noite, antes de o sol se erguer imponente no horizonte. Ele deixa a cadeira desconfortável, estica os braços e caminha em círculos pelo cômodo escuro sobre o tapete sujo, tateia o interruptor e muda sua posição várias vezes, até se lembrar de que a lâmpada estava queimada. Da parede oposta, apoiado em uma das estantes, ele observa a luz fosca que a tela do computador derrama sobre a mesa e cadeira à frente. A cadeira vazia era como um espelho para sua mente, que parecia funcionar somente sob o efeito do álcool, então ele se aproxima da mesa, ergue o copo e o esvazia num único gole. A bebida amarga faz os pêlos de seus braços se arrepiarem e ele balança a cabeça numa careta, depois apanha a garrafa e um pouco de gelo e volta a encher o copo.
Com a visão já embaçada, ele se senta novamente diante da tela em branco e observa a barrinha piscando, à sua espera. O tique-taque do relógio antigo na mesinha de centro anuncia repetidas vezes que o tempo não pára, que as horas se arrastam diretamente para o iminente dia seguinte.
Ele analisa seus escritos sobre a mesa, papéis e mais papéis contendo vidas irreais que escorreram de sua mente, palavras construídas com a genialidade de um arquiteto de letras. O rapaz guarda dentro de si um talento impressionante, um dom que se agarrara em sua alma desde quando ele viera para esse mundo insano.
Ele tinha tudo para estar vivendo no mais alto patamar do sucesso, mas suas más escolhas e vícios mundanos lhe roubaram essas possibilidades, sua capacidade era tudo o que lhe restava, já que havia abandonada a família, não tinha amigos e vivia de um emprego medíocre que apenas lhe garantia o aluguel no fim do mês, pagava seu alimento e sustentava suas necessidades: sexo fácil e vazio e litros de uísque.
A tela exibia um nada insolente que ria de sua cara e caçoava por não ser preenchida. Mais um gole generoso, mais um cigarro aceso e seus dedos se lançaram sobre as teclas, seguros de si. E ele escreveu.
Escreveu como se sua vida dependesse disso, escreveu fervorosamente como as preces de uma beata, exorcizou os demônios que lhe puxavam para baixo e arrancou as palavras de seu âmago como raízes profundas de uma árvore centenária. Entre parágrafos, goles e tragadas, ele terminou sem fôlego e pôs-se a contemplar o final da obra de sua vida, tal obra que ele nunca veria impressa. Nunca sentiria o cheiro das páginas do livro que levaria seu nome, pois naquela mesma noite, outra convidada indesejada se esgueirou pela janela.
Talvez se ela estivesse fechada e a porta trancada a morte não conseguiria entrar, mas ela entrou. Ela segurou a alma do rapaz com seus dedos frios e a sugou de seu corpo embriagado, pouco a pouco. Ele não entendia o que estava acontecendo, não sabia o que era aquela escuridão toda que lhe envolvia e sem compreender ele se foi.
O corpo gelado do jovem escritor foi encontrado vários dias depois e assim suas obras incompletas e o livro terminado em seu último dia foram descobertos. Sua história se tornou conhecida, editores brigavam pela publicação de suas palavras recheadas de emoção, tragédia, amor e intrigas.
Seu livro rapidamente atingiu o ápice de vendas. A história do livro, ironicamente contava a vida de um escritor frustrado que precisou morrer para ser reconhecido.
Às vezes a vida imita a arte, como uma piada infeliz do destino e por mais lamentável que isso seja, há quem ache graça.

“As pás de terra atiradas indiferentes sobre um caixão desprezível engoliram o corpo miserável do homem que partiu sem nome, sem legado e sem dignidade. Sua obra ganhou o mundo e sua morte então, foi celebrada.“
Essas foram as palavras finais de seu livro e de sua vida.
O relógio ainda tiquetaqueia em algum lugar, advertindo incessantemente que o tempo jamais espera ninguém e que a vida é curta demais para apenas esperarmos pelas coisas.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

16 sorrisos compartilhados:

@barbarakang disse...

Muito bom mesmo Rodolpho! *----*

Thaís disse...

Uau, como sempre impressionante! Eu esperava qualquer final, menos esse. Mas isso era bem comum antigamente, né? Os escritores só eram reconhecidos após suas mortes. O que era uma pena... imagino como a história literária seria diferente se fossem reconhecidos quando vivos.

Maiara disse...

Incrível Rodolpho.
Ainda estou aqui presa por suas palavras e imaginando a ânsia e desespero do homem que encara a página pálida sem a 'negritude colorida' de suas palavras.
E tão irônica a vida que lhe agracia em morte.
Gostei muito do texto, é realmente inebriante.

Um beijo.

Charlie Bravo' disse...

Opa, e a morte mais uma vez surgiu para puxar a cortina do ato final da peça, hein? Me vi aqui e ali no teu texto...tem dias que tento não me frustar por não ter ideias, rs.


Abraços,

Charlie B.

Arianne Carla disse...

Rodolpho, desconhecia o seu blog, mas a partir de hoje ele se torna pra mim aqueles blogs obrigatórios de leitura. Seu conto está simplesmente fantástico, senti a adrenalina, a corrosão do início ao fim do personagem sem nome, apenas com talento. Fui envolvida numa leitura maravilhosa e que nos convida a cada linha para ser lida. Muitíssimo de parabéns, seu blog é digno de ser lido e de ser comentando. Parabéns! E claro: Seguindo você.

José María Souza Costa disse...

CONVITE
Passei aqui lendo.
Sou um leitor assíduo de blogues.
Mas, estou lhe convidando a visitar o meu blogue. Muito Simplório, e se possivel seguirmos juntos por eles.
Estarei lhe esperando lá. Lhe desejando um Tempo de Paz e harmonia Espiritual.
Te espero lá, com um...
Abraço Fraterno

Long Haired Lady disse...

é sombrio saber que esta é a única certeza que temos na vida...

Cristiano Guerra disse...

Porque eu adoro quando é tragédia. Principalmente, quando o final é uma moral. Preciso dizer que está bem escrito, é perfeito e as mesmas coisas de sempre, Rod?

Fantástico! ;D

Marco de Moraes disse...

Texto excelente, Rodolpho! Palavras que ilustraram com exatidão parte do ofício da escrita.

Um grande abraço.

*Amanda* disse...

Sinceramente falandoo... fiquei com medo da bebida alcoólica.. kkkkkkkkkkk...

Mas esse texto deveria ser publicado, merecidamente!

Classiicação TOP MASTER!
Number 1!
Globo de Ouro!
Academia Nacional de Letras... rsrsrs


P.S. Estou feliz em estar de volta aquii!

;)

Deise Lima disse...

As palavras tem um poder imenso sobre quem as lê, isto é algo que acredito.E algumas em especial mechem de tal forma comigo, que sou capaz de visualizar e sentir muito do que estou lendo.
Esse texto é maravilhoso e um dos melhores que já li até hoje. Preciso confessar que meus olhos até agora estão marejados e as minhas lágrimas ao final da leitura foram um misto de reflexão e alegria.

A Escafandrista disse...

vim compartilhar uns sorrisos (e uns espirros tbm, desculpe, ando adoentada) rsrs só por isso demoro a vir comentar aqui. abraços rodolpho.

Jaci Macedo disse...

Muitas vezes a gente se prende tanto a um sonho que acaba esquecendo das coisas ao nosso redor que também são importantes. Acho que tudo é uma questão de equílibrio, por mais que nossos sonhos sejam desesperadamente urgentes. Texto incrível.

beijos (:

Inercya disse...

Que texto incrível! Me identifiquei com esse escritor, que tem todas as palavras disponíveis, mas não consegue passá-las para o papel (por um momento).
Às vezes a vida imita a arte mesmo e quando isso acontece, não há como fugir da realidade.
Absorvi cada palavra sua e a moral no final me pegou de surpresa.
Parabéns por essa sua bela escrita.
:*

Tati disse...

Eita Menino bom!
Você com essa sensiblidade incrível que vc sempre consegue transcrever nas linhas, consegue me tocar intimamente.

Como gosto daqui.

Beijos

Gabriel G. disse...

Eu me vi no texto, o bom escritor consegue deixar que os leitores teçam os contos e você fez isso muito bem.
Parabens