As palavras sempre ficam

“Meu amor não cabe em quatro letras, ele se esparrama diversas vezes pelo alfabeto todo e ainda assim é sem medidas.” Encontrei o bilhete dele sobre o criado-mudo, ao lado do despertador, assim que me levantei da cama e vi que o dia já estava quente demais para que eu ficasse dormindo.
Toda manhã ele me deixa palavras lindas de mãos dadas que acenam do pequeno pedaço de papel e me arrancam o maior sorriso que nenhum simples bom dia poderia ser capaz. Eu me levanto como sempre, abro a janela e com a expressão congelada de felicidade, saúdo o sol. Depois eu começo a rotina automática: escovar os dentes, ajeitar o cabelo, lavar o rosto, fazer café e assim por diante.
Ele já devia estar no trabalho uma hora dessas, sufocado em uma papelada interminável e pensando em mim, eu sei disso, pois sempre penso nele e ele uma vez me disse que nossos pensamentos estão em sintonia e eu acreditei.
Passei algumas horas diante da televisão, vagando de canal em canal, procurando alguma coisa que captasse meu interesse, mas foi em vão... voltei ao quarto, contemplei o papel dobrado, as letras sólidas e bem feitas e sorri mais uma vez. Era isso que sempre fazia meus dias mais importantes, que me mostrava o quanto sou especial para ele. Palavras regadas com amor.
Ainda me lembro daquele dia chuvoso em que nos conhecemos, ele corria apressado para atravessar a rua e derrubou várias folhas de papel no asfalto molhado, geralmente eu me faria de distraída para não precisar ajudar, enquanto continha uma risada imprópria para o momento, mas ao ver sua aflição e os olhares suplicantes para os lados, eu decidi ajudar. Corri até ele, com meu guarda-chuva azul com bolinhas brancas e o ajudei a apanhar todo aquele papel em branco.
- Por que esse desespero todo por folhas em branco? – eu perguntei intrigada.
- Bom, um papel em branco é tão importante quanto um preenchido por letras, pois eles são os alicerces de qualquer criação.
- Não me diga – respondi indiferente.
Ele pegou uma folha seca e uma caneta de uma pasta, escreveu algo e me entregou.
“Era uma vez...”
- Era uma vez o quê? – perguntei.
- Quem pode saber? – ele riu – A partir de folhas em branco começamos novas histórias, mas nunca sabemos aonde elas vão nos levar, todo esse espaço vazio é um mistério, você não acha?
- É, acho que você acabou de provar seu ponto de vista...
- Desculpe, mas eu tenho que ir – ele disse e se despediu, deixando cair atrás de si um pedaço de papel, o agarrei antes que a água levasse embora e vi que era seu cartão, com seu nome, telefone e endereço do escritório em que trabalhava.
Voltei para casa aquele dia, ainda segurando o papel com as três palavras escritas na caligrafia mais caprichada que eu já vira. As palavras me encaravam impacientes, como se pedissem por uma continuação, mas eu não sabia o que lhes dizer.
“Quem pode saber?”, a voz dele me perguntava constantemente no decorrer do dia.
No dia seguinte, ainda sem saber a razão, eu estava parada no mesmo lugar de onde o vira numa luta para resgatar os papéis vazios e no mesmo horário do dia anterior ele atravessou a rua apressado e eu o segui.
- Era uma vez o quê? – perguntei mais uma vez, me aproximando dele.
Ele sorriu ao me ver, baixou a cabeça e respondeu:
- Era uma vez uma moça curiosa que foi chamada para almoçar pelo homem da pasta cheia de folhas em branco.
- E ela aceitou? – eu perguntei encenando a moça interessada.
- Ela nem pensou duas vezes – ele disse e fomos almoçar em um magnífico restaurante de comida caseira.
Foi assim que eu descobri sua idade e gostos e lhes disse os meus. Passamos a comer juntos todos os dias e nossa sintonia aumentava cada vez mais, eu me sentia bem ao seu lado, eu sorria e o fazia sorrir. Lembro-me do nosso primeiro beijo, com gostinho de arroz temperado e do modo como ele corou em seguida.
Namoramos por dois anos e decidimos morar juntos. Acordei na manhã do primeiro dia na casa nova e me deparei com um bilhete no espelho do banheiro que dizia:
“Enquanto eu não estiver por perto, lhe deixo minhas palavras. Elas vão ficar contigo e lhe fazer companhia.”
E ele estava certo, mesmo em sua ausência as palavras sempre ficam, mas eu conto as horas para tê-lo em meus braços outra vez.

Segundo texto em homenagem aos blogs nesse ano, o As palavras sempre ficam é o blog da Gabriela Furtado, espero que ela e todos que lêem gostem do texto. Grande abraço.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

12 sorrisos compartilhados:

A Escafandrista disse...

adorei e estou seguindo. já estava devendo uma visita ao teu blog tbm, pois havia visto teus comentários no blog do cris, na oficina, e gostei. bjs

Cristiano Guerra disse...

Ha, que fantástico. O que me faz rir, Rodi, é toda essa boa-aventurança que você sabe espalhar por aqui. Você é mestre nisso.


Abraço

Taynara Ambrósio disse...

Rôh, você é fantástico. Lança logo o teu livro, fará muito sucesso.
Esse texto arroncou muitos sorrisos apaixonados de minha boca.Diga-se de passagem já pelo início dele né? adoro suas figuras de linguagens.

História fascinante. Beijos.

Tassyane Américo disse...

Tuas palavras sempre emocionam. Incrível! Saudades disso tudo aqui, desse mar de emoções, Rod! Beijão e mais um vez: Adorei!

Tati disse...

É meu Rapaz, cada vez em que te leio, sinto-me embalada por essa sua sutileza e excelência em conduzir as letras.
Gostei demais desse e realmente, as palavras sempre ficam, sempre acompanham.


Um Beijo

• cynthia bs disse...

Olá rapaz. Ah, que alívio saber que tens outro conto \o/ Meu coração saltita de alegria, viu? hehe* Sim, quanto ao conto que estou a escrever, já postei a 6ª parte, se acaso quiseres ler (é que você pediu para que eu te avisasse).

Espero que gostes.

Ah, espero ansiosa pela última parte, estou roendo as unhas (:

Beijinhos e até logo.

Com amor,
Cynthia**

• cynthia bs disse...

Ah, ta certo. Poste logo. E prepare-se para a próxima parte de "Uma história de amor".

Obrigada por me seguir no twitter. Também te sigo. Qualquer coisa só gritar . hehe

Beijinhos*

Bruna Frisso disse...

Nossa, realmente lindo o seu texto. Fiquei impressionada. Parabéns, seu dom com as palavras é realmente diferente. Qualquer coisa passa la! Beijos

Inercya disse...

Oi pra você também (:
Quase perdi de ler esse conto incrível! Ainda bem que cheguei a tempo. Engraçado, parece que as palavras saem dançando dos seus dedos. Foi que eu constatei ao ler esse conto. Não sei, deve ser sua forma de escrever...Uma forma diferente, mas muito encantadora.
A proposito, achei linda essa história.
:*

Lariissa disse...

eu adoro esses textos, todos são maravilhosos!

Sara R. Carneiro disse...

Rô, esse texto ficou absolutamente perfeito. Já li muitos (lê-se todos) textos bons aqui, mas esse me fez sorrir de uma maneira diferente. Parabéns, mil vezes parabéns. Fiquei sumida por uns dias daqui e quando volto me deparo com essas palavras maravilhosamente encaixadas num texto de encher o coração de alegria. Mais uma vez, parabéns. Beijo na testa.

Charlie Bravo' disse...

Apaixonada que só ela! Eu sou o tipo que escreve bilhetes, que quer ser lembrado!

Abraços Rod.

Charlie B.