Louco amor

Repousei o corpo vazio dela na grama do jardim. Seu semblante sereno e sem vida grudou-se em minha retina e mesmo de olhos fechados eu ainda podia vê-la.

Naquele momento eu só conseguia pensar no passado e nas circunstâncias que levaram aquilo a acontecer. Meu sangue era atirado de um lado para o outro em meu corpo, por meu coração despedaçado que gritava de culpa.
Eu nunca desejei que isso tivesse acontecido, tentei me controlar ao máximo para manter a situação no controle, mas não pude.
O líquido rubro que deslizava para fora do corpo dela manchava minha camisa branca e corrompia a inocência do tecido, a vida fluindo de seu corpo e a morte se apoderando aos poucos.
A faca que arrancara sua vida jazia no canto da sala, ao lado da poça de sangue que se formou gradualmente. A faca fria e silenciosa.
Nada disso era para ser assim. Por que ela teve que despertar o monstro nefasto que se escondia dentro de mim?
A grama começava a pinicar as minhas pernas, enquanto meus olhos não se desgrudavam daquele corpo pálido no jardim. O sol começava a recolher seus raios, calmamente. Em breve o caos começará, uma multidão se formará ao meu redor, dedos serão apontados e vozes rotularão um culpado. Luzes e sirenes protagonizarão a cena crucial daquela cena do crime.

1 hora antes

O telefone toca, do outro lado da linha há um silêncio perturbador antes de uma voz insana começar a falar:
- Eu preciso de uma resposta – ela disse e o choro engasgado saltou de sua boca e pontilhou cada palavra.
- Eu já te disse o que vai acontecer – respondi brandamente.
- Não. Eu quero você, só você. Vamos ficar juntos...
- Já disse que não, droga – o monstro começava dar sinais de despertar.
- Você não pode fazer isso comigo. Você me prometeu que ficaríamos juntos, você jurou que me amava...
- Você enlouqueceu? – minha voz subiu dois tons – Eu nunca falei nada disso, eu...
- Cala a boca, eu não quero ouvir mais nada. – o grito dela socou meus ouvidos e isso acordou a fera.
- Agora você vai me ouvir. Eu nunca te amei, nunca dei motivos para você acreditar que existisse algum sentimento meu por você. Você é uma mulher perturbada e obsessiva, eu quero você fora da minha vida, entendeu? FORA.
O silêncio voltou por um momento.
- É isso mesmo que você quer? Então você terá – e a ligação foi encerrada.

Agora

Eu cheguei aqui o mais rápido que pude, mas quando entrei na casa ela já havia cortado os pulsos e sangrado até a morte. O sangue dela refletiu a expressão de horror no meu rosto.
Eu estava noivo de outra mulher e ela jamais aceitou isso, ela possuía esse amor doentio dentro dela que eu nunca soube direito como lidar.
Eu fiz isso. A culpa pairava sobre mim e sibilava “você nunca mudará o que aconteceu” e ela estava certa, eu nunca poderia reverter aquilo. Ela estava morta por causa do que eu disse.
Liguei para a emergência e para a polícia e eles estão perto agora.
A noite caiu. O tumulto começou. Primeiro uma vizinha saiu de casa e gritou assustada ao ver a cena no jardim da casa ao lado. Uma moça morta e um homem todo sujo de sangue.
Os policiais me arrastaram para longe e me algemaram, o corpo dela foi colocado em uma maca e levado para outra direção.
- Eu sou inocente – uma voz dizia em minha cabeça, mas eu não conseguia pronunciar estas palavras.

Depois do meu testemunho e de outras pessoas, foi comprovado que ela era mentalmente instável e que aquilo tudo realmente se tratava de um suicídio.
Eu fui liberado sem maiores complicações, mas será que algum dia eu vou me perdoar verdadeiramente pelo o que aconteceu?

Pauta para o Bloínquês - Edição Musical e Projeto Créativité - Edição C&F
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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

10 sorrisos compartilhados:

Lívea Colares disse...

Muito legal e envolvente, vc deveria escrever um livro!

Thammy Kherullyn. disse...

Sempre mostrando ao mundo facetas de um dom tão divino! Parabéns Rodolpho. Não consigo não gostar dos seus textos. Eles simplesmente me enlaçam em admiração.

Um beijo!

P.s.: Postarei seu texto no natal, porque foi um verdadeiro presente para mim. E não vejo data melhor emoldurá-lo lá, no meu cantinho!

Projeto Créativité disse...

Não tenho nem palavras para expressar o quão perfeita é essa história!
Uau! *-* No meio eu pensava que ele tivesse a matado, mas depois vi que era suicídio, e o texto ficou melhor!
*-* parabéns!

Ariane s.s disse...

Ahh ! Amei o texto , tipo , é meio que um amor de uma mulher por um homem , e um homem amando outra mulher , nisso vira uma guerra e tals.
Nossa , vai virar livro , filme , tudo que tem direito.
Amei Ro ...
(to competindo com você no creativite)
Beijaços escritor compulsivo

Maíra disse...

Olá. Adorei seu blog, é uma graça!! Estou te seguindo! Aparece lá no meu http://mairacintra.blogspot.com/ e segue se gostar!
valeu, beijos!

Daniella Ockner disse...

O sentimento de culpa é algo que pode surgir sem grandes fundamentos, mas que perturba profundamente nossos pensamentos e ações. "Ele" poderia ter se controlado e "ela" tirado a própria vida mesmo assim, mas depois de feio, o que/quem daria essa garantia ao rapaz?
Prender a atenção do leitor é uma habilidade que você com certeza possui, e sabe desfrutar muito bem disso!
Um beijo

Luana Santana disse...

Oi querido
Parabéns atrasado, vale? Mas então, parabéns pela nova idade e pelo livro, eu na postagem dos selos, tomara que consiga publica-lo en?

Bem, o post de hoje me prendeu muito, adorei, muito diferente. Infelizmente isso acontece na vida real, tenho uma amiga que sofreu algo parecido.

Obrigada pelo selo e assim que puder eu irei publica.

Tenha um Feliz Natal e um Ano novo cheio de amor, saúde e paz.
bjs

Mali Melo disse...

Caramba, que texto forte... E lindo.
Sou fã dessas metáforas. São perfeitas, as melhores que eu vejo por aí *-*
Adorei :) xx

Rebeca Amaral disse...

Ai como dói se sentir culpado, não ter a consciência leve. Nossa, é ruim demais. Amei o texto mais uma vez. Você se superando SEMPRE! Um beijo.

Tati disse...

É Menino, você é grande nas linhas e eu adoro mesmo ler você - por isso, mesmo os que perdi, faço questão de usar do tempo que me resta, lendo você.

Está incrível e bom. Parabéns.

Beijos