O moço perfumado


O céu daquele dia estava desprovido de cor, como um enorme manto branco, no qual o sol resolvera se esconder atrás. O vento soprava levemente, apenas um suspiro curto que falhava em movimentar as folhas das árvores.
A moça caminhava lentamente em direção ao ponto de encontro, estabelecido anteriormente em uma ligação. Ela chegou ao local, sentou-se e checou o relógio. Aquele era um dia em que os ponteiros trabalhavam sem disposição e cada volta parecia durar o dobro do tempo que realmente levava.
Os pensamentos dela vagavam em lembranças boas e em problemas que requeriam sua intervenção, ela tinha algumas decisões a tomar, assim como todo mundo sempre tem, mas acaba deixando de lado só pelo prazer de saborear a nostalgia que flui na memória.
Apoiando a cabeça no braço, ela fechou os olhos e sentiu um torpor tomar conta de seu corpo, que cedia sem muita relutância. Foi nessa hora que ele passou.
Ela ouviu os passos abafados se aproximando, sentiu sua presença e, acima de tudo, sentiu seu cheiro. O cheiro almiscarado flutuava pelo ar parado, dançava em rodopios e ia em sua direção. Um cheiro suave e ao mesmo tempo envolvente.
O perfume que exalava em toda direção, dava voltas em sua cabeça, saltitava pelas imperceptíveis correntes de ar, subia ao céu pálido e retornava ao chão ainda quente e penetrante. Um cheiro capaz de acalmar e despertar, em uma mistura abrangente de sensações.
O rapaz passou indiferente à moça que estava sentada ali, em passos largos deixando seu cheiro para trás, ela ainda encarava as costas dele, lutando contra um desejo de correr atrás daquele estranho e juntar os fragmentos de odor que ficavam pelo caminho. Ela não vira seu rosto, nunca saberia seu nome, mas tinha certeza que reconheceria aquele cheiro em meio a centenas de outras fragrâncias. O aroma proveniente do homem sem rosto grudara em suas roupas e se fixara em cada mínimo grão de poeira que vagava pelo ar.
- Quem é ele? – uma voz perguntou, tirando-a de seu transe perfumado.
- Eu não sei, não conheço – ela respondeu, levantou-se e beijou seu namorado.
Ela voltou a olhar para o relógio e percebeu que não tinha esperado muito tempo.
- Vamos, então – ele disse, colocando um braço envolta dela.
Ela balançou a cabeça positivamente, deu uma última olhada para trás, mas o estranho já havia sumido de vista.
- Tem algum problema? – ele perguntou, olhando na mesma direção que ela e dando de cara com o nada.
- Não, está tudo certo – ela respondeu e o abraçou. Ela cabia perfeitamente em seu abraço e seu rosto se encaixou no pescoço dele, seu nariz roçou a pele lisa e cheirosa. Ela respirou profundamente e então percebeu que aquele cheiro, grudado em seu namorado era muito melhor do que um cheiro solto pelo ar, sem dono e sem direção. Um cheiro singular que ninguém mais possuía. Um aroma apaixonante que pertencia só aos dois.
- Eu gosto do seu cheiro – ela disse e absorveu mais um pouco daquele cheiro num rápido suspiro.
Ele apenas sorriu, deu-lhe um beijo no rosto e começou a contar como tinha sido seu dia, à medida que caminhavam para longe dali e para longe de um certo perfume que começava a se dissipar pelo ar.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

12 sorrisos compartilhados:

Luu disse...

Gostei, mas fiquei curiosa sobre o moço perfumado.
:D

Alexandre Fernandes disse...

Bem bonito isso! O perfume pode se tornar algo particular também. Em cada pessoa age de uma forma. Significa pouco quando apenas está no ar.

Porém quando ele tem dono ou uma doa que conheçamos, que tenha uma função singular no nosso coração, o perfume propicia um fascínio sem limites, que nos orienta de forma terna. Há muito mais em alguém em que amamos... O perfume fioca mais completo quando somando-se com o aroma daquela pessoa, que vive enlaçado no nosso amor.

Outro conto infinitamente maravilhoso!

Um abraço amigo sumido!

Leticía Gomes disse...

sei lá, hoje eu to meio trágica, então eu queria que a garota ficasse pra sempre desejando sentir aquele cheiro de novo, e que não achasse o cheiro do namorado dela melhor do que o outro.

mas eu com certeza iria preferir o cheiro do meu namorado! aaaaaah que confuso.

deve ter sido encontrar imagem...

beijoos, ro

Denise Portes disse...

Vez ou outra passeio por aqui e gosto muito do que você escreve.
Já te sigo faz tempo e te convido pra me visitar mais vezes.
Beijos
Denise

www.odeliriodabruxa.blogspot.com

Rebeca Amaral disse...

Pois é Rodi, às vezes a gente se encanta pelo diferente, pelos cheiros proibidos, e nem percebe que quem está ao nosso lado é o ideal para nós. Adoro seu jeito de escrever, consigo visualizar a cena com tantos detalhes bonitos. Um conto lindíssimo! Um beijo.

Luana disse...

É real esse moço perfumado?
Adorei!

Lívea Colares disse...

Muito legal!! Adorei o final

Jéssica Trabuco disse...

Eu fico espantada de como vc escreve bem moço!
Parabéns viu?

Doce Nostalgia disse...

Ahhhhhhhh ARRASOU!!!!!!
o Inicio é tão perfeito, e obrigada por nós dar tantos detalhes como os bons escritores fazem ^^

Vejo a cena inteiramente! rs

Beijos Rodolpho ... amei!

Thiara Ribeiro disse...

Tem cheiro que marca, né?
E cheiro de namorado é tão bom! *-*
Encantador esse conto, Rodolpho!
;**

Tati disse...

Adoro cheiros, aromas, sabores... Sou apaixonada por cheiros.

Adoro cheiro de pele, que cada um contém a sua... Acho muito bonito isso... É como uma identidade própria... Eu sinto assim.

Muito bom o seu escrito.

Caroline Araújo disse...

Eu adorei o seu texto. Logo de início a descrição do cenário mostrou-me o encanto que estaria por vir ao longo da leitura. Quase não encontrei erros ortográficos, eu só sugeriria que você evidenciasse mais a existência do parágrafo, ficasse mais atento quanto ao não-uso dos pronomes, pois mesmo quando esses são dispensáveis o uso pode dar a frase uma melhor fruição. Mas no todo, está excelente! Parabéns mesmo.
Avaliação – Projeto Bloínques.