O eremita e o dragão - Parte 4

Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2 e Parte 3

- Você quer que eu repita pela... - o dragão fingiu fazer uma contagem mental - décima-sétima vez?
Rufus bufou sem paciência, levantou e ficou andando de um lado para o outro.
- Minha voz é ouvida no breu, não apenas no breu eu devo supor - o homem pensou em voz alta.
- Não entendo a complicação dessa charada, a resposta é tão óbvia - declarou o dragão com um quê de sabe-tudo - Diga-me, cabelo cor de fogo, de onde você vem não existe esse tipo de diversão? - ele acrescentou uma pitada exagerada de desdém na voz, só para chatear Rufus.
- É evidente que existe e você sabe disso - rosnou ele - Agora me deixe pensar.
- Tudo bem, eu estava apenas aquecendo esse silêncio gelado - falou o dragão num tom forçado de desculpa.
Rufus pôs-se a cantarolar os versos ditos pelo dragão e como um estalo a resposta lhe veio na mente:
- É o rio. Na descida corre, na subida vai manso, sonhando em alcançar o mar.
O dragão ergueu os braços robustos e abriu as asas largas num sinal de rendição.
- Onde você esconde sua esperteza, Rufus? Surpreendeste-me, está absolutamente correto - ele aplaudiu e cada palma ecoou pelo ambiente como tiros de canhão.
O eremita sorriu, contente por seu desempenho e encenou um agradecimento de palco, curvando seu corpo.
- Eu sei que você quer perguntar-me algo, sinta-se à vontade - consentiu o dragão e estava certo, Rufus tinha uma pergunta na ponta da língua.
- Quantos...
- Essa é uma pergunta indelicada - o dragão interrompeu já percebendo do que se tratava - Mas eu entendo sua preocupação, você ainda não confia plenamente em mim e nada do que eu lhe disser poderá acalmar seu coração, uma vez que eu posso mentir para você, contudo eu prezo pela verdade, sábio viajante. A resposta que você obterá é zero. Eu nunca matei nenhum homem, talvez eu seja o exemplo vivo de um dragão pacifista, isso é um tanto contraditório ao que toda história conta, mas é a mais pura verdade.
Rufus digeriu as palavras por um tempo e pôde perceber que eram verdadeiras.
- Acredito em ti, mestre dragão - o gigante exibiu um sorriso assustador e sacudiu a cabeça.
- Não pude deixar de notar que carrega uma flauta, toque para mim uma canção - pediu o dragão.
O eremita que nunca tivera uma platéia tão peculiar, sentiu-se envergonhando, mas apanhou sua flauta e tocou uma melodia suave e inesperadamente começou a cantar, sua voz tão pura que pareciam notas saídas do instrumento musical:

No monte escuro, n'uma noite estrelada
Viajei solitário caçando a alvorada
O cansaço me abate de modo que paro
Para qualquer infortúnio eu perco meu faro
Na rocha encostei atado à solidão
Na noite escura topei com o dragão

Assim que sua voz cessou, o silêncio afugentou todos os sons ao redor e o vento soprou calmo tremeluzindo as chamas da fogueira e atirando faíscas ao ar que dançavam até se apagarem.
O dragão sentiu seu coração quente ao ouvir a canção dedicada somente a ele, há muito tempo ele deixara de acreditar na bondade dos homens, mas naquele instante ele soube que ainda existiam pessoas dignas de confiança e soube que em qualquer lugar em que estivessem, seus ancestrais não o julgariam por ter criado um laço com aquele humano ao invés de devorá-lo.

EM BREVE - PARTE 5

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

5 sorrisos compartilhados:

*Amanda* disse...

Nhaaaaaa.. que dragãozinhooo mais cuth!!!!!

^^

Palavras Eternizadas em pingos de Luz! disse...

---É fabuloso seu blog...
Estou seguindo este conteúdo incrivel!


Um abraço do rafah!
http://eternizadoempalavras.blogspot.com/

Tati disse...

Ei meu caro amigo, gostei demais da continuação do conto.

Um Dragãozinho tão doce, tão amável, eu continuo querendo um pra acender lareiras pra mim.

Esse encanto todo que você me causa a cada capítulo me faz imaginar o que virá depois...


Beijos

Charlie B. disse...

E Rufus conquistou um espaço no coração do dragão. Sabia que o coração de dragão tem dois tipos de uso, rs? Harry Potterfatos.

Abração, aguardo a parte 05.

Charlie B.

Thiara Ribeiro disse...

Onde eu acho um dragão?
Eles parecem ser amigos mais fiéis que os cães.
Lembra de Eragon?
^^

;**