Estações da vida

Amanhã começa a última semana do outono, lembro quando eu disse isso na semana passada. E eu estava agitado e ansioso por essa semana. O vislumbre das últimas folhas se desprendendo dos galhos, os pássaros cantando melodias de adeus ao bom outono e o frio se espreguiçando e alongando seus braços pelo ambiente.
Eu gosto do outono, mas eu havia depositado tanta esperança nessa semana que qualquer exceção me deixaria extremamente irritado.
A última semana de outono para mim, se resume a última semana na casa de minha mãe. Minha família problemática é assim, como os cacos de vidro que se espalharam pelo chão, cada um em um canto. Mudo de casa seguindo as estações. E o inverno estava chegando, hora de voltar para a casa de meu pai.
Os "outonos maternos", como costumo chamar, são sempre aquecidos de um sentimento acolhedor, mas dessa vez tudo havia mudado, motivo disso tudo: um novo personagem entrara em cena. Um padrasto. Odeio o som dessa palavra. É, eu havia ganhado, indesejavelmente, um padrasto. Não sei qual o problema dos caras que saem com a mãe de rapazes, ele achava que deveria ser meu amigo mais velho e além disso queria ter o direito de ser meu "segundo pai". Isso não vai acontecer.
E com a última semana do outono se aproximando, eu me veria livre dele e de suas piadas horríveis no café da manhã. Odeio gente que tenta chamar a atenção. Minha mãe ficava toda derretida com os mimos e carinhos distribuidos por ele, dá náusea só de ver.
No meu último dia lá, ele se portou de uma forma totalmente atípica, como se tivesse vestido a personalidade de outra pessoa, alguém mais maduro e centrado. Me deu um abraço estranho depois de minha mãe e desejou um boa viagem de volta. Ele não estava agindo com um amigo mais velho. Não sei porque, mas isso me pegou de surpresa.
Enfim, havia começado o "inverno paterno", na primeira semana, por sinal angustiante, meu pai estava totalmente distraído e inquieto.

Sabe quando as pessoas têm algo para dizer, mas não sabem como? Numa noite fria, envolto nas cobertas e saboreando um chocolate quente, meu pai entra em meu quarto meio escuro e se senta ao meu lado na cama, me olha de um jeito diferente e diz:
- Preciso te contar uma coisa - ele exibia um olhar triste - Eu não sou seu pai.
Aquilo que me atingiu como um soco no estômago, perdi o ar e a ação.
- Eu casei com sua mãe quando ela já estava grávida de você, seu verdadeiro pai está com ela agora... - eu não conseguia acreditar naquilo.
- Onde ele esteve todo esse tempo? Por que esperou 17 anos para me contar isso?
- Eles eram jovens na época e a família dele o levou para longe, perderam contato durante todos esse anos e só nos últimos meses sua mãe e ele se encontraram.
- E por que é você quem está me dizendo isso e não eles? - perguntei irritado e ainda chocado.
- Porque eu estou indo embora e você vai voltar para lá...
- Não, você é meu pai, você sempre foi - senti as lágrimas queimarem meus olhos.
- E eu sempre serei, meu filho, mas agora você precisa voltar e ter uma família de verdade - ele disse e passou a mão em meus cabelos.

Nossa despedida foi triste e eu senti que talvez não fosse voltar a vê-lo, mas ele estava feliz por mim.
Retornei a casa de minha mãe e meu... pai. Ainda é difícil dizer essa palavra a um rosto novo, mas agora entendo o esforço dele para me cativar durante o tempo que passei lá, ele queria compensar o tempo perdido. Agora vivo no inverno familiar, não mais apenas paterno e estou aprendendo a viver em uma família, mas acredito que vai dar tudo certo.
Meu "outro" pai me mandou notícias na época de um "verão paterno", ele se casou de novo e em breve terá seu próprio filho para todas as estações.
O tempo uniu as peças do quebra-cabeça da vida e essas peças jamais ficarão soltas outra vez.

Pauta para a 50ª Edição do OUAT

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

19 sorrisos compartilhados:

- maria elis disse...

ouvi dizer que pai é quem cria, então ... '-'

o importante é ter e viver com a família (:

beijas :*

Brunno Lopez disse...

Que texto impactante.
O inverno de todos nós, na verdade, nunca termina.

Obrigado pela visita e pelo selo.
Prometo que logo menos o coloco no blog.

Abraços.

Lury Sampaio disse...

Eras impresionante a reviravolta na história revelando a verdadeira identidade daquele padrasto chato!
A vida tem dessas coisas né... como dissem Deus escreve certo por linhas tortas, até tudo chegar a um final feliz.
Lindo conto :)

Flávia disse...

Olhaa...
Mais um de seus contos interessantes.
Eu continuo admirando sua criatividade q não tem fiim. Huhauaha... Ainda bem né. Não quero q tenha fim! =)

Ficou mto boa a história... Adoro textos que me prendem a atenção até o final, q me fazem refletir sobre mtas coisas e aqui, a importância de uma família, sempre.

Beijos xuxuu =P haha

Bruna disse...

acho maravilhoso o outono *-*
Bela semana
beeijo

Metamorfoses disse...

Moço dos belos posts!!rs
Parabéns!!!

Grafite disse...

Muito lindo e sentimental...
adorei!

beiijo,
*.*

Tati disse...

Muito bem escrito Moço. Gostei muito de tudo.

Beijos e até mais...

Rebeca Rocha disse...

Awesome!

Jaci Macedo disse...

Adorei.
Bastante bonito e profundo... diria até que melancólico, um pouco.

beijos (:

Deise Lima disse...

AHHhhhh! mais uma vez saí do meu mundo e entrei na história do seu post, coloquei até o "som do momento para acompanhar" foi muito contagiante o desenrolar da história e no fim um suave sorriso invadiu no rosto! adoro vir aki e conseguir isso
=*

Milla disse...

Adorei! Consegui ver toda a cena como se estivesse lá o tempo todo, e adorei a reviravolta final do texto :)

beijos

Thiara Ribeiro disse...

Comovente e lindo, como tudo que vc escreve!

;**

Cris Souza disse...

Eu não engulo essa do padrasto, mas que bom que ele era o pai do garoto. mesmo assim eu não acredito que teria sido tão maleável se fosse comigo.

Amanda Lisbôa disse...

"O tempo uniu as peças do quebra-cabeça da vida e essas peças jamais ficarão soltas outra vez."

Só pra não mudar o comentário... "eu choro até em filme de comédia" rsrsrsrsrs....

mto lindo!

Rebeca Amaral disse...

UAU! Muita bom essa relação com as estações do ano. Revelações surpreendentes...

Enfim, mas eu prefiro acreditar que somos a estação que quisermos ser.

Eu, pelo menos, sempre tento viver em constante primavera, ou até mesmo outono. Inverno e verão, sendo extremos, não me atraem.

Ótimo conto!

Beijo grande.

Felipe disse...

Realmente legal esse conto. Tem um pouco da minha vida nele.
Comovente e especial. Quem dera se todas as pessoas tivessem uma família ou até mesmo pais postiços para os amarem.

Abs.

Gabriela Furtado disse...

Desculpe pela demora em responder os comentários, mas só agora tive tempo!
Ah, bem sei como é essa coisa de padrasto!
Adorei o conto, final supreendete é sempre bom :))
Beeijo:*

Estefani disse...

Hummm!!! Gostei muito.

O bom é saber que o outono sempre voltará.

Beijocas lindinho! ^^