A caçada

Século XV

A peste se propagava em nosso vilarejo com uma rapidez assustadora. Homens, mulheres e crianças sucumbiam cada vez mais. A resposta a isso estava clara, o que nos deixava ainda mais assombrados, isso era bruxaria. Com o início da caça às bruxas declarado, muitas dessas mulheres demoníacas buscavam refúgio em pequenas vilas onde pudessem passar despercebidas, mas não para mim. Eu possuia o Malleus Maleficarum, que ensinava como reconhecer uma aberração dessas. Eu venho observando as mulheres de comportamentos estranhos, saio a noite a procura de belas jovens suspeitas. Jovens, sim, essas filhas do diabo se escondem atrás de belos rostos para enganar a população.
Enquanto caminho sob a luz intensa da lua cheia, procuro por indícios e rastros. Um gato preto cruza meu caminho, sinal que estou na trilha certa. Um vulto encapuzado se embrenha na floresta escura. Era ela. A bruxa da nossa vila. Eu a sigo com cautela, atento onde eu piso para não denunciar minha presença. Um uivo corta a noite como uma faca afiada. A floresta se torna densa e uma névoa começa a se formar. O vulto está perto, eu posso sentir. Num movimento rápido eu a alcanço atrás de uma árvore e arranco seu capuz.
- Papai - ela disse com aquela voz que tanto conheço, ofegante pelo susto.
- Não, você não... - me esgasguei nas próprias palavras.
- Eu posso explicar - ela disse.
- Calada, sua amante do mal - eu lhe dei uma bofetada. Elas possuem o poder de persuasão que levaria homens despreparados a se matarem - Não acredito que acolhi uma serva das trevas por todo esse tempo... - ela fez menção de falar, mas a fiz parar com outro tapa.
O que eu sentia era ódio e repulsa. Pensar que o eu poderia ter dado o fim a todo o pânico que o vilarejo sofria, me dava vontade de matá-la com minhas próprias mãos. Aquela a quem chamei de filha, era uma pecadora.
A deixei amarrada junto aos cães durante a noite e logo pela manhã a levei à Corte e aos Inquisidores. A sentença como o esperado, era a queima na fogueira.
A prenderam em um calabouço naquele dia, com uma mordaça que a empedia de destilar suas mentiras e blasfêmias. No dia seguinte uma multidão se reuniu em praça pública para assistir a morte da bruxa. Da minha filha. Minha esposa, que descance em paz, foi poupada de ver a única filha se transformar em um monstro.
- Essa criatura maligna foi encontrada entre as árvores e é acusada de heresia, feitiçaria e propagação da peste - disse um dos Inquisidores - Que Deus tenha piedade da sua alma - e assim que disse isso acenderam a fogueira na qual ela estava presa. Seus gritos foram abafados pela mordaça. Ela chorava lágrimas de veneno.
Um rapaz veio correndo desesperadamente, passando pelo meio do povo e gritou:
- Havia uma garota na floresta, ela foi vítima da bruxa, mas está viva. Ela estava amarrada em uma árvore. Ela disse que a bruxa era uma velha cega que era guiada por um corvo - a multidão se calou e só o crepitar do fogo podia ser ouvido.
No silêncio mortal, todos os detalhes de repente se encaixaram, numa explosão de intuição.
Minha filha era inocente. Ela estava tentando salvar a garota.
Corri na direção da fogueira, mas já era tarde demais. A minha filhinha já se fora. Meus olhos ardentes derramaram lágrimas de remorso, dor e frustração. Naquele momento, diante do corpo da minha menina, jurei encontrar a velha feiticeira e dar um fim a ela.

Pauta para a 47ª Edição do OUAT

Obs: O Malleus Maleficarum (Martelo das Bruxas) é um manual de diagnóstico para bruxas, escrito por dois inquisidores dominicanos em 1487, divido em 3 partes. A primeira parte ajuda os juízes a reconhecer as bruxas e seus artificíos, a segunda expõe os malefícios detalhadamente e a terceira dita as formalidades na condenação das bruxas. (é, eu pesquisei isso para escrever o conto)
Obs²: Muito provavelmente esse é o meu conto mais "diferente" e sombrio, mas espero que tenham gostado.

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Mais sobre o dono dos sorrisos

Autor de sorrisos. Sou aquele que fala sobre o que sente e o que não sente com a mesma veracidade. Há quem diga que sou feito de palavras e quem sou eu para discordar? Ao ler minhas (entre)linhas nosso laço se aperta e assim podemos ser íntimos, de alguma forma. Contatos: rodolpho.padovani@hotmail.com

13 sorrisos compartilhados:

Letícia ♥' disse...

Um tanto sombrio msmo..
mas bem legal..

beeijO pra vc
:D

Grafite disse...

Palavras diferentes mas muito interessante. Me prendeu do início ao fim...
adorei!

beiijo

NayaraCabral disse...

Adorei seu Blog!
muito lindo! adorei seu fundo também. como fez?
estou te seguindo.. visita o meu também
;*

Gabriela F. disse...

Ah, eu gostei! Gosto de palavras que me fazem imaginar toda a situação.
Beijos

Milla disse...

Adorei! Sempre gosto desses contos mais sombrios. Tão bom como os demais que você escreveu :)

beijos

Ariane s.s disse...

Amei , perfeito , estarei aqui para ler mais posts.
Fiquei com dó da menina agora !
Você tinha que mat-lá , brincadeira.
Beijos ;*

Vanessa Monique disse...

Acredite! I lovely!
Sou fascinada por contos sombrios.Me senti no século XV.

Essa semana é a Semana do Meio Ambiente no meu blog.Venha dar uma lida na Programação Verde.
Te espero lá!
www.fluem.blogspot.com

:*

Jaci Macedo disse...

Gostei (: uma coisa diferente da que você costuma escrever, mas eu gostei bastante. Me prendeu durante a história toda. Beijos.

Gessy disse...

É bem sombrio mesmo. Mas é bom.
Prende a atenção do leitor...

Beijos.

Tati disse...

'como vc cosegue ser tão bom?'

Amei.

Grande Beijo

Mandy disse...

Como não iria gostar, né?! Ta muito legal. E confesso que terminei de ler com a boca aberta. Não imaginava que a menina era inocente. =/
Enfim, ficou muito bom mesmo. Parabéns e espero que você ganhe. ;)
Beijoos
Mandy

Stella Rodrigues disse...

EI, não to tendo muito tempo pra ler os posts, mas lerei amanha, e comentarei como se deve gosto de ler com calma bjs

Amanda Lisbôa disse...

eh rodii... vc me surpreende!!!
^^
ainda bem que eu naum dessas que chora até em filme de comédiaa... rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs