Keblinger

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A moça, as flores e a caixa de correio

| segunda-feira, 10 de outubro de 2016


As flores sempre estiveram ao seu redor, como pequenas confidentes e conhecedoras dos segredos que ela não contava para ninguém. Ali na floricultura em que trabalhava, a moça havia aprendido a arte de cuidar de suas amigas coloridas, desde borrifadas de água em dias de calor a sussurros de incentivos aos botões que tinham preguiça em desabrochar. Por falar nisso, as raízes da história dessa moça estavam fincadas em um lugar muito longe dali, onde as flores também faziam parte. Talvez seja importante para o seguimento dessa narrativa que você saiba do que estou falando e mais uma vez perdoe-me a intromissão de me colocar no meio da história de modo tão invasivo.

Fora há vários anos que ela, então uma menina, junto de sua família, morava na fazenda de leite. Ela adorava o cheiro das manhãs de primavera e a promessa de chuvas delicadas que regavam os jardins do mundo. Lá de longe observava a estrada de terra batida onde a caixa de correio acenava com seu bracinho sempre que estava de barriga cheia, então ela corria ao seu encontro, a fita azul em seu cabelo sacudindo pelo vento, recolhia todos os envelopes, saudava o velho carvalho e voltava para casa com ar satisfeito de quem acaba de fazer uma tarefa com louvor.
Um dia, ao fazer seu dever de coletora das cartas, ela levara consigo o terrível destino de sua família. Uma ordem de despejo. Algo sobre o alto custo dos impostos, que ela não entendeu muito bem na época, só sabia que teriam que deixar a casa. O dia de partir foi extremamente triste, quando ela olhou para sua casa pela última vez e a viu tornar-se um pontinho distante no horizonte na medida em que se afastava do cenário de sua história de vida.

Desde que partira, ela só havia retornado à casa poucos meses atrás, no início do outono. Como instigada por seu espírito de criança, ela recolheu as cartas e botou o braço da caixa de correio para descansar. Pouco havia mudado. As flores ainda estavam lá. O velho carvalho também. E a casa abandonada.

Em seu trabalho na floricultura, ela assistia os sorrisos das pessoas que compravam e imaginava qual seria a história por trás deles. Havia um rapaz que quase toda semana aparecia e comprava uma flor diferente. Apenas uma e de uma cor variada a cada vez. Ele sempre aparentava estar um tanto nervoso e inseguro, mas ela o atendia da melhor maneira que podia.
- Eu sempre fiquei imaginando qual seria sua favorita – ele enfim falou e apontou para as flores.
- Todas elas são – ela admitiu – Você deve ter alguém que gosta muito de flores.
- Na verdade não – seu sorriso tornou-se embaraçado – Eu só venho até aqui para poder ter ver e acabo comprando uma flor para não ficar muito sem graça – o rosto corou-se.
Ela abaixou a cabeça constrangida e sentiu o rosto queimar. Um sorriso involuntário não se conteve. Ele percebeu que havia cometido um erro e afastou-se em silêncio.
- Sempre tive uma queda pelas petúnias – ela murmurou enquanto ele se aproximava da porta.

Os dois passaram a se conhecer aos poucos e entre flores a história deles começou a ser escrita. Ambos compartilhavam de várias coisas em comum e uma semente de sentimento começou a brotar no peito de cada um. Ela enfim encontrou alguém além das flores a quem pudesse contar seus sonhos e desejos.
Numa tarde de sol de primavera, ela o levou até a casa na colina, contou-lhe sua história e confessou que estava fazendo o possível para recuperá-la. Ele disse que a ajudaria com o que fosse necessário e o vento ao redor trouxe burburinhos de comemoração. Ela não disse nada na hora, mas jurava que eram as flores na estrada festejando seu retorno.


Se ela vai conseguir realizar seu sonho, só o tempo vai dizer. Por ora, façamos como as flores, vamos torcer.

Essa história é a terceira parte e conclusão de uma história começada há mais de cinco anos (sim, eu sei, é muito tempo), mas cada parte se mantem por si só. A quem se interessar pode ler as anteriores aqui e aqui.

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