Keblinger

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A arte de ser ponte

| segunda-feira, 25 de julho de 2016

Acordou antes de o despertador tocar, sacudiu-se para fora de um sonho que já começava a desvanecer. Abriu as janelas, deu bom dia ao dia e sorriu um sorriso de menina quando o sol acenou lá do alto um cumprimento caloroso. Fez as atividades rotineiras da manhã ao som de um bom rock clássico, pois ela era daquelas que gostam de surpreender, variando da timidez num encontro casual com a ardência entre os lençóis até o gosto doce por poesias e rimas cadenciado pela agitação dos pés que jamais se esqueceram de como dançar.
Com a preguiça ainda enrolada em seu pescoço ela deu-se ao luxo de esticar-se languidamente na cama por uns minutos, clicando aqui e ali no teclado do celular, checando e enviando mensagens. Sorriu ao ver que, como de costume, a mensagem do namorado estava ali. Ele nunca se esquecia.
Sorveu uma xícara de café e então estava pronta para começar o dia.

Conta-se em uma lenda que quando a Lua não é vista no céu é porque se fez mulher e desceu à Terra para saciar seu desejo de estar com um homem. O que muitos não sabem é que ela é uma deusa que fora exilada por ter apetites carnais exagerados, contudo sempre que a sombra de algum irmão a esconde, ela, sorrateiramente, desce do céu, seduz um mortal e lhe proporciona a melhor noite de prazer de sua vida.
A triste história da Lua poderia ser uma história qualquer contada por um professor qualquer numa aula sobre mitologia, mas Salena descobriu que nem toda lenda é uma história de faz de contas.
Quando sua própria flor desabrochou e tornou-se uma mulher, ela recebeu a mais inesperada das visitas, um homem robusto e grisalho que alegava ser seu avô, e o mais inusitado de tudo era que ele acreditava cegamente que ela era filha da Lua. Obviamente ela não acreditou, até que o homem alinhou as estrelas apagadas em um caminho que só os dois podiam ver e permitiu que a Lua descesse ao seu encontro.
Salena não podia acreditar no que via, a mulher que veio dos céus tinha o que seria sua aparência dali a alguns anos. Um sorriso triste e brilhante, e lágrimas peroladas que deslizavam por sua face.
As duas foram deixadas a sós e a Lua contou à filha sua história.

Agitou os cabelos emaranhados, não gostava de prendê-los, pois até eles deveriam ter sua liberdade. Instigou os pensamentos, rememorando tudo da história até ali. Ela sabia para onde deveria ir, mas ainda havia um longo caminho a percorrer.
Desligou a música e deixou o silêncio espalhar-se pelo cômodo, tomando cada centímetro do ambiente, flutuando pelo ar feito uma onda invisível. Ela também gostava dos silêncios, eles tinham muito a dizer se você parasse para escutar.
Salena estava ali entre um silêncio e outro. Ela lhe contava tudo que precisava saber, sempre fora assim, com todos seus personagens. Ela sentia-se a ponte entre um mundo que ainda não existe para o mundo real, por isso escrever a encantou desde sempre.
Sentou-se diante do computador e escutou tudo que sua mente lhe dizia, transportando pensamentos para letras, que formavam as palavras de uma construção muito maior que si mesma. A magia do escrever é criar e aprender ao mesmo tempo, é fundir seu universo particular com as vidas inexistentes e viver mil vidas dentro de uma só.


Salena falava e ela ouvia. Ouvia e escrevia. Escrevia e vivia. 

Das poucas datas que fazem sentido para mim, essa é uma daquelas que eu não me perdoaria ao deixar passar em branco, visto que o branco pode ser um pesadelo para quem escreve. Então aqui está minha singela homenagem para o Dia do Escritor. Que as palavras estejam sempre na vida deles e de todos aqueles dispostos a cruzar aquela ponte imaginável em busca de maiores aventuras.
 

Copyright © 2010 A arte de um sorriso