Keblinger

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As folhas, o carvalho e a caixa de correio

| segunda-feira, 21 de março de 2016


Ele jamais se esquecera dela, embora já fizesse alguns anos desde a última vez que a menina da fita azul no cabelo estivera ali. A memória do carvalho lhe servia muito bem, obrigado, apesar de seus cento e tantos anos – ele parara de contar quando sua idade ultrapassou seu número de galhos.
As flores conversadeiras se estendiam pelo gramado diante de si, incontáveis tagarelas sussurrando segredinhos e murmurando entre si sobre a mudança das estações, ouvi dizer que esse é um tópico muito importante a ser discutido entre elas, adoradoras da primavera.
A caixa de correio ainda está lá com seu bracinho erguido, caso você esteja imaginando e não, nenhuma flor conseguiu se tornar a pioneira em furtar uma carta de lá, mas elas ainda tentavam.
Ao longe vinha o moço de uniforme, com sua bolsa carregada de envelopes. O carvalho observou paciente, sorriu um sorriso de árvore, que é o único jeito que ele poderia sorrir e aguardou. O homem repousou brevemente em sua sombra, sentindo o vento abraçar-lhe como se fosse um visitante bem quisto nas redondezas. Do mesmo modo sucinto que veio, ele partiu. Dessa vez não deixou nenhuma correspondência na caixa cheia. Mas ora, a introdução dessa história está ficando longa demais, as flores, a menina e a caixa de correio fazem parte de outro capítulo, de um ciclo já encerrado, hoje quero falar sobre as folhas.

Uma árvore é um mundo. É um universo em si, do chão ao céu, com seus galhos se espreguiçando na direção de todos os pontos cardeais, como dedos apontando e sugerindo inúmeros caminhos a se seguir e aquele velho carvalho não haveria de ser diferente. Folhas novas, frescas e verdinhas nasciam constantemente em seus galhos, pequenos filhotes da natureza, curiosas sobre o mundo e felizes por fazer parte daquele em que viviam.
Algumas estavam posicionadas mais altas que as outras, mas nada que um grito ou outro não fizesse o trabalho para sua comunicação, além da ajuda do vento que sacudia os galhos numa melodia ora suave, ora agitada.
Havia insetos e pássaros também, toda uma possibilidade infinita de cores, tons e histórias. Ah, havia também o moço do uniforme, claro, e a menina que nunca mais foi vista. Todas as histórias eram contadas para as folhas mais novas, que ouviam atentamente, soltando exclamações quando necessário e esperando com a mais cega fé de que algo incrível pudesse acontecer ao redor enquanto estivessem por ali.

As flores lá embaixo estavam mais agitadas do que o normal naquele dia – conversando sem parar sobre moda, imagine só, estavam discutindo as tendências da próxima estação. Aquela que acabara de dobrar a esquina e trazia nas costas a promessa de um tempo mais ameno. Aquela que as folhas mais temiam.
O outono era como um conto de terror na beira da fogueira do acampamento das folhas, ele que era o responsável por roubar-lhes as matizes de verde a soprá-las para um destino que nenhuma jamais voltou para contar como foi. O carvalho já se acostumara com as idas e vindas do outono com seu roubo ousado, assim como sabia que outra estação lhe traria o verde novamente, rejuvenescendo-o, afinal, nada aparenta ser mais velho do que um carvalho careca.
Todas as folhas estavam apreensivas e assim permaneceriam pelos dias seguintes, olhando ao redor e agarradas com força em seu galho, se perguntando qual delas seria a primeira a vestir tons de amarelo e cair. As visitas do vento não eram mais tão auspiciosas e até a presença de pequenos animais lhes causavam tremores. Dizem que não é fácil ser uma folha no outono e também que não é raro ouvir o berro assustado de uma delas ao confundir uma borboleta valsando na brisa com seu colega de galho.

Nenhuma havia caído até aquele final de tarde que se tornaria histórico, portanto todas elas viram quando a caixa de correio finalmente pôs seu braço para descansar. Uma moça de cabelos esvoaçantes retirara todo seu conteúdo e lia atentamente cada palavra nos envelopes, em sua expressão se via um misto de nostalgia com ternura. Seu olhar cruzou o horizonte na direção de uma casa abandonada no fim da colina.


Enquanto isso todas as flores a observavam em silêncio, o mesmo pensamento repousado em cada pétala. Será que ela voltou?

Para ler a história da menina de fita azul, clique no link em destaque do texto. Que a inspiração do outono se faça presente com mais frequência para nós.
 

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