Keblinger

Keblinger

Que seja ímpar

| sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
                                          Foto por: Amanda Lisbôa

♪ "I wanna see the world,
I wanna sail the ocean
I wanna know what it feels like 
to never come back again..." ♫

Dizem que mares calmos nunca fazem bons marinheiros. É preciso emoção, caos e até um pouco de sofrimento para aprender certas coisas, pois as lições que a vida nos dá nem sempre são fáceis como a tabuada do cinco, a maioria dos problemas demanda muito mais paciência da qual, nem sempre, estamos dispostos a ceder. O aprender é cotidiano, há sempre algo novo para saber e descobrir. Sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre nós mesmos.
Cada dia somos desafiados de alguma maneira, como um barquinho navegando em ondas ora tranquilas, ora furiosas e o mar, ah, o mar, ele é de uma imprevisibilidade assustadora. Não há como se preparar para as surpresas que aparecerão durante o percurso, jamais saberemos se uma pescaria vai render ou não nem se sairemos ilesos da viagem para poder aportar novamente.

Certamente vamos cruzar com diversos outros navegantes, uns mais perdidos que outros; alguns guiados por bússolas, pelas estrelas, pelo vento; alguns seguros de para onde querem ir, mas não tão confiantes de como chegar lá; haverá aqueles que navegam há muito tempo e já adquiriram uma experiência razoável, mas que ainda cometerão erros; aqueles mais novos e aventureiros que ainda enfrentarão muito tempo ruim até o fim do trajeto. O fato é que todo tipo de pessoa, de sorte e de clima estarão à espera, saber reagir a eles é a prova maior.
Haverá dias em que a tormenta será tão forte que pensaremos em desistir ou em ancorar em algum lugar ao qual não pertencemos; dias de sol que se transformarão em chuva e dias de chuva que se tornarão limpos feito paisagens pintadas; dias de solidão e dias de companheirismo; dias de abraços curtos nos encontros e de abraços longos nas despedidas; dias de todas as cores, sabores, tamanhos.

Há uma nova viagem prestes a começar, um novo mar de possibilidades, escolhas e desafios pela frente. Desejo que as lições sejam aprendidas, que seu barco seja forte o bastante para resistir às provações, que sua tripulação seja a melhor possível. Que haja dias de sol e de chuva, de céu aberto e de nuvens coloridas. Que as ondas sejam amigáveis, principalmente quando você pensar em abandonar tudo. Que você veja novas cores, prove novos sabores, ouça novas melodias, sorria os sorrisos mais sinceros e dê as gargalhadas mais sonoras. Que encontre seu porto seguro se ainda não tiver ou mantenha-o se já o possuir.
Desejo ainda que você torne sua viagem mais importante que seu destino. Que volte se for necessário, que ancore em outro lugar quando encontrar morada, que viva. Que essa nova aventura seja ímpar.

Dizem também que depois da tempestade vem a calmaria. Que assim seja.

2016 foi um daqueles anos que a gente ainda vai falar muito, seja mal ou bem, porque foi um ano que ainda estamos tentando entender e muita coisa a gente só entende depois de um certo tempo. Vamos aguardar então. Espero que o próximo ano seja memorável também, mas muito mais recheado de coisas boas, que os desafios sejam vencidos, que todos possam sair de sua zona de conforto e conhecer a si mesmos um pouco mais. Que grandes histórias estejam por vir.


7 anos de sorrisos

| quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Datas são coisas que se tornaram constantes em minha vida, elas chegaram tão sorrateiras que quando percebi já estavam todas lá, esperando pacientemente seu dia de celebração, afinal sou sortudo a ponto de poder comemorar o dia do tradutor, do internacionalista, do escritor e do professor, além disso, tenho várias outras datas lindas que comemoro ao lado daquela que me faz sorrir dia após dia.
E hoje, como não poderia deixar de ser, é aniversário do blog e puxa, ele já está com quase 10 anos de idade. Juro que nunca imaginei que fosse chegar até aqui. 7 anos, mais de 400 postagens e incontáveis memórias e bons momentos que passei do lado de cá da tela criando, aprendendo, escrevendo e crescendo, são muitos gerúndios, mas são muitos anos também.
Tenho um grande apreço por esse meu cantinho, embora eu não seja tão dedicado a ele quanto fui nos seus primeiros anos, muita coisa mudou de lá para cá – eu sei que isso não justifica nenhum abandono – mas esse é um lugar do qual não importa quanto tempo eu passe longe, sei que sempre vou poder voltar e revisitar o antigo eu e suas criações mirabolantes e isso é incrível, principalmente por poder enxergar as mudanças que ocorreram em mim e na minha escrita.
Tenho orgulho do que construí até aqui, não sei como serão os próximos anos, não vou fazer promessas que não sei se vou cumprir. Contudo, espero um dia aprender a parar de culpar o tempo pelo meu ser relapso e me responsabilizar completamente por não andar por aqui com mais frequência.

A quem ainda se perde no meu caminho e vem nessa direção, meu singelo agradecimento e que nossos caminhos possam se topar mais vezes.

A moça, as flores e a caixa de correio

| segunda-feira, 10 de outubro de 2016


As flores sempre estiveram ao seu redor, como pequenas confidentes e conhecedoras dos segredos que ela não contava para ninguém. Ali na floricultura em que trabalhava, a moça havia aprendido a arte de cuidar de suas amigas coloridas, desde borrifadas de água em dias de calor a sussurros de incentivos aos botões que tinham preguiça em desabrochar. Por falar nisso, as raízes da história dessa moça estavam fincadas em um lugar muito longe dali, onde as flores também faziam parte. Talvez seja importante para o seguimento dessa narrativa que você saiba do que estou falando e mais uma vez perdoe-me a intromissão de me colocar no meio da história de modo tão invasivo.

Fora há vários anos que ela, então uma menina, junto de sua família, morava na fazenda de leite. Ela adorava o cheiro das manhãs de primavera e a promessa de chuvas delicadas que regavam os jardins do mundo. Lá de longe observava a estrada de terra batida onde a caixa de correio acenava com seu bracinho sempre que estava de barriga cheia, então ela corria ao seu encontro, a fita azul em seu cabelo sacudindo pelo vento, recolhia todos os envelopes, saudava o velho carvalho e voltava para casa com ar satisfeito de quem acaba de fazer uma tarefa com louvor.
Um dia, ao fazer seu dever de coletora das cartas, ela levara consigo o terrível destino de sua família. Uma ordem de despejo. Algo sobre o alto custo dos impostos, que ela não entendeu muito bem na época, só sabia que teriam que deixar a casa. O dia de partir foi extremamente triste, quando ela olhou para sua casa pela última vez e a viu tornar-se um pontinho distante no horizonte na medida em que se afastava do cenário de sua história de vida.

Desde que partira, ela só havia retornado à casa poucos meses atrás, no início do outono. Como instigada por seu espírito de criança, ela recolheu as cartas e botou o braço da caixa de correio para descansar. Pouco havia mudado. As flores ainda estavam lá. O velho carvalho também. E a casa abandonada.

Em seu trabalho na floricultura, ela assistia os sorrisos das pessoas que compravam e imaginava qual seria a história por trás deles. Havia um rapaz que quase toda semana aparecia e comprava uma flor diferente. Apenas uma e de uma cor variada a cada vez. Ele sempre aparentava estar um tanto nervoso e inseguro, mas ela o atendia da melhor maneira que podia.
- Eu sempre fiquei imaginando qual seria sua favorita – ele enfim falou e apontou para as flores.
- Todas elas são – ela admitiu – Você deve ter alguém que gosta muito de flores.
- Na verdade não – seu sorriso tornou-se embaraçado – Eu só venho até aqui para poder ter ver e acabo comprando uma flor para não ficar muito sem graça – o rosto corou-se.
Ela abaixou a cabeça constrangida e sentiu o rosto queimar. Um sorriso involuntário não se conteve. Ele percebeu que havia cometido um erro e afastou-se em silêncio.
- Sempre tive uma queda pelas petúnias – ela murmurou enquanto ele se aproximava da porta.

Os dois passaram a se conhecer aos poucos e entre flores a história deles começou a ser escrita. Ambos compartilhavam de várias coisas em comum e uma semente de sentimento começou a brotar no peito de cada um. Ela enfim encontrou alguém além das flores a quem pudesse contar seus sonhos e desejos.
Numa tarde de sol de primavera, ela o levou até a casa na colina, contou-lhe sua história e confessou que estava fazendo o possível para recuperá-la. Ele disse que a ajudaria com o que fosse necessário e o vento ao redor trouxe burburinhos de comemoração. Ela não disse nada na hora, mas jurava que eram as flores na estrada festejando seu retorno.


Se ela vai conseguir realizar seu sonho, só o tempo vai dizer. Por ora, façamos como as flores, vamos torcer.

Essa história é a terceira parte e conclusão de uma história começada há mais de cinco anos (sim, eu sei, é muito tempo), mas cada parte se mantem por si só. A quem se interessar pode ler as anteriores aqui e aqui.

A arte de ser ponte

| segunda-feira, 25 de julho de 2016

Acordou antes de o despertador tocar, sacudiu-se para fora de um sonho que já começava a desvanecer. Abriu as janelas, deu bom dia ao dia e sorriu um sorriso de menina quando o sol acenou lá do alto um cumprimento caloroso. Fez as atividades rotineiras da manhã ao som de um bom rock clássico, pois ela era daquelas que gostam de surpreender, variando da timidez num encontro casual com a ardência entre os lençóis até o gosto doce por poesias e rimas cadenciado pela agitação dos pés que jamais se esqueceram de como dançar.
Com a preguiça ainda enrolada em seu pescoço ela deu-se ao luxo de esticar-se languidamente na cama por uns minutos, clicando aqui e ali no teclado do celular, checando e enviando mensagens. Sorriu ao ver que, como de costume, a mensagem do namorado estava ali. Ele nunca se esquecia.
Sorveu uma xícara de café e então estava pronta para começar o dia.

Conta-se em uma lenda que quando a Lua não é vista no céu é porque se fez mulher e desceu à Terra para saciar seu desejo de estar com um homem. O que muitos não sabem é que ela é uma deusa que fora exilada por ter apetites carnais exagerados, contudo sempre que a sombra de algum irmão a esconde, ela, sorrateiramente, desce do céu, seduz um mortal e lhe proporciona a melhor noite de prazer de sua vida.
A triste história da Lua poderia ser uma história qualquer contada por um professor qualquer numa aula sobre mitologia, mas Salena descobriu que nem toda lenda é uma história de faz de contas.
Quando sua própria flor desabrochou e tornou-se uma mulher, ela recebeu a mais inesperada das visitas, um homem robusto e grisalho que alegava ser seu avô, e o mais inusitado de tudo era que ele acreditava cegamente que ela era filha da Lua. Obviamente ela não acreditou, até que o homem alinhou as estrelas apagadas em um caminho que só os dois podiam ver e permitiu que a Lua descesse ao seu encontro.
Salena não podia acreditar no que via, a mulher que veio dos céus tinha o que seria sua aparência dali a alguns anos. Um sorriso triste e brilhante, e lágrimas peroladas que deslizavam por sua face.
As duas foram deixadas a sós e a Lua contou à filha sua história.

Agitou os cabelos emaranhados, não gostava de prendê-los, pois até eles deveriam ter sua liberdade. Instigou os pensamentos, rememorando tudo da história até ali. Ela sabia para onde deveria ir, mas ainda havia um longo caminho a percorrer.
Desligou a música e deixou o silêncio espalhar-se pelo cômodo, tomando cada centímetro do ambiente, flutuando pelo ar feito uma onda invisível. Ela também gostava dos silêncios, eles tinham muito a dizer se você parasse para escutar.
Salena estava ali entre um silêncio e outro. Ela lhe contava tudo que precisava saber, sempre fora assim, com todos seus personagens. Ela sentia-se a ponte entre um mundo que ainda não existe para o mundo real, por isso escrever a encantou desde sempre.
Sentou-se diante do computador e escutou tudo que sua mente lhe dizia, transportando pensamentos para letras, que formavam as palavras de uma construção muito maior que si mesma. A magia do escrever é criar e aprender ao mesmo tempo, é fundir seu universo particular com as vidas inexistentes e viver mil vidas dentro de uma só.


Salena falava e ela ouvia. Ouvia e escrevia. Escrevia e vivia. 

Das poucas datas que fazem sentido para mim, essa é uma daquelas que eu não me perdoaria ao deixar passar em branco, visto que o branco pode ser um pesadelo para quem escreve. Então aqui está minha singela homenagem para o Dia do Escritor. Que as palavras estejam sempre na vida deles e de todos aqueles dispostos a cruzar aquela ponte imaginável em busca de maiores aventuras.

Das histórias que preenchem

| segunda-feira, 18 de abril de 2016
                                   Foto por: Milton Rodrigues Junior


Sente-se comigo que eu tenho muita coisa pra contar.

A paisagem ao meu redor muda em sua constância cadenciada, como há de ser.
Os dias de sol são lindos e cheios de nuvens brancas passeando pelo extenso azul; os dias cinzentos vêm acompanhados daquela expectativa de uma chuva que ora cai, ora se reserva para outro momento; os dias brancos e frios de neve são aqueles que pedem por mais cor. Porém mais do que tudo, o que mais se espalha por todos os cantos em que posso ver, são as histórias.
Há uma infinidade delas sendo vividas, contadas, escritas, compartilhadas, mas você deve estar se perguntando “o que diabos um banco pode saber sobre histórias?” e eu lhe respondo com a maior serenidade que um banco pode ter “eu sei de muita coisa”.
Sei, por exemplo, que todas as manhãs de quinta-feira a senhora do 60B se dirige à boulangerie Vie en Rose para comprar pães, enquanto o senhor do prédio ao lado passeia com seu cão, o que ela não sabe é que ele nutre sentimentos adocicados por ela, então ela apenas continua comprando pães. Sei também do breve caso de amor que se passou no café La vie sucrée entre a Sra. Jones e o pintor Antoine, essa é uma das minhas histórias preferidas, devo dizer.
Conheço as crianças pelo nome, pela voz e pelo riso. Acolho os turistas animados que vez ou outra se sentam para um descanso e me presenteiam com suas histórias de lugares distantes que só poderei imaginar como é.

Eu poderia ficar tagarelando por horas a fio, pois saiba você que eu tenho todo o tempo do mundo, contudo eu sei que o tempo é um recurso escasso na vida corrida das pessoas, mas gostaria de pedir a gentileza de tomar um minuto seu para contar aquela que acredito ser uma das melhores e mais antigas histórias que foram deixadas para mim.
A história se passou pouco antes da segunda metade do século XX, Camille era uma jovem moça que trabalhava na sapataria do pai. Ela me fazia companhia durante seus lanches da tarde e também quando decidia escapar das tarefas e observar as folhas caindo das árvores do parque naquele outono e foi exatamente numa de suas fugas que ela conheceu o rapaz Grégoire, um destemido sonhador, do raro tipo que se encontra em ruas movimentadas do centro da cidade. Ele, por sua vez, queria ser poeta.
“A magia da poesia é capturar o brilho das estrelas e amarrá-lo em versos tão lindos que a beleza da lua teria inveja”, você o ouviria dizer sorrindo, tentando inspirar as pessoas ao redor, mas outra beleza mais terrena lhe chamou a atenção.
Camille e eu observávamos a paisagem quando o olhar dos dois se encontrou, dizem que existem poucos instantes em que o tempo prende a respiração e esquece-se de correr, aquele foi um deles. Greg aproximou-se vestindo seu melhor sorriso, imagino que sua mente deveria estar cheia de linhas e versos emaranhados. Camille se remexeu delicadamente, acometida por borboletas voadoras em seu interior. Tão rápido quanto chegou o momento passou, como se o tempo despertasse de seu transe e tentasse compensar o deslize cometido. O pai dela a chamou para completar as tarefas e os dois se despediram por olhares sem nem a chance de trocar palavras.
Eu já vi muita coisa e sei determinar certos padrões ou clichês, se você preferir, sendo assim eu já suspeitava como a história iria se desenrolar. No dia seguinte lá estávamos Camille e eu quando Greg reapareceu.
“Um homem pode ter muitas tristezas em sua vida, mas nenhuma dói mais do que perder chances e ter que viver constantemente se perguntando o que poderia ter acontecido”, certamente ele teria que fazer uma chegada com seu charme usual.
Camille enrubesceu e então começaram a conversar. Eles eram de tratos fáceis, encontraram os pontos em comum, completaram as frases um do outro de um jeito bobo e divertido daqueles que podem ver o amor dobrando a esquina. E assim foram as tardes que se seguiram, eles sentavam-se comigo, compartilhavam segredinhos, sussurravam pequenas declarações, saboreavam sorvetes e trocaram o primeiro beijo.
Acompanhei de perto a emoção do apaixonar-se, a evolução dos sorrisos, a troca de olhares sugestivos e as lágrimas de tristeza e o sentimento de injustiça quando Greg recebeu a convocação para a guerra. Camille correu inconsolada pela rua de pedra, Greg a seguiu e por dias eu não os vi.
Comecei a ficar preocupado com a situação, prestando atenção nas conversas alheias em busca de notícias dos dois. O tempo passou e se encarregou de sanar minhas dúvidas. Camille voltou a se sentar comigo, dessa vez para ler as cartas que seu amado enviava enquanto a criança em sua barriga crescia.
“A lua me sorriu ontem a noite, mon amour”, ela leu em voz alta, “sorriu um sorriso cúmplice, como se soubesse um segredo que não quer contar, mas não resistiu ao meu charme e o revelou: em dois dias volto pra casa”. Dessa vez as lágrimas foram de alegria.
Eu estava lá quando os dois se reencontraram, ansioso para ouvir tudo que Greg teria para contar sobre sua aventura, que era como ele dizia. Estava lá também para receber o pequeno Matthieu em seu primeiro passeio.
Algumas histórias não tiveram um final tão feliz como essa, embora tenham trazido algum aprendizado, mas gosto daquelas que terminam bem,  daquelas cheias de sorrisos, reencontros, amores, vitórias. Sou um banco otimista assumido, acredito nas coisas boas.

Por fim, agradeço seu tempo e continuarei aqui convidando as pessoas a me contarem suas histórias ou a ouvir as minhas. Faça o mesmo onde quer que esteja, são raros aqueles que compartilham e escutam, então seja uma raridade.

Clique em Sra. Jones e Antoine para saber a história dos dois.

As folhas, o carvalho e a caixa de correio

| segunda-feira, 21 de março de 2016


Ele jamais se esquecera dela, embora já fizesse alguns anos desde a última vez que a menina da fita azul no cabelo estivera ali. A memória do carvalho lhe servia muito bem, obrigado, apesar de seus cento e tantos anos – ele parara de contar quando sua idade ultrapassou seu número de galhos.
As flores conversadeiras se estendiam pelo gramado diante de si, incontáveis tagarelas sussurrando segredinhos e murmurando entre si sobre a mudança das estações, ouvi dizer que esse é um tópico muito importante a ser discutido entre elas, adoradoras da primavera.
A caixa de correio ainda está lá com seu bracinho erguido, caso você esteja imaginando e não, nenhuma flor conseguiu se tornar a pioneira em furtar uma carta de lá, mas elas ainda tentavam.
Ao longe vinha o moço de uniforme, com sua bolsa carregada de envelopes. O carvalho observou paciente, sorriu um sorriso de árvore, que é o único jeito que ele poderia sorrir e aguardou. O homem repousou brevemente em sua sombra, sentindo o vento abraçar-lhe como se fosse um visitante bem quisto nas redondezas. Do mesmo modo sucinto que veio, ele partiu. Dessa vez não deixou nenhuma correspondência na caixa cheia. Mas ora, a introdução dessa história está ficando longa demais, as flores, a menina e a caixa de correio fazem parte de outro capítulo, de um ciclo já encerrado, hoje quero falar sobre as folhas.

Uma árvore é um mundo. É um universo em si, do chão ao céu, com seus galhos se espreguiçando na direção de todos os pontos cardeais, como dedos apontando e sugerindo inúmeros caminhos a se seguir e aquele velho carvalho não haveria de ser diferente. Folhas novas, frescas e verdinhas nasciam constantemente em seus galhos, pequenos filhotes da natureza, curiosas sobre o mundo e felizes por fazer parte daquele em que viviam.
Algumas estavam posicionadas mais altas que as outras, mas nada que um grito ou outro não fizesse o trabalho para sua comunicação, além da ajuda do vento que sacudia os galhos numa melodia ora suave, ora agitada.
Havia insetos e pássaros também, toda uma possibilidade infinita de cores, tons e histórias. Ah, havia também o moço do uniforme, claro, e a menina que nunca mais foi vista. Todas as histórias eram contadas para as folhas mais novas, que ouviam atentamente, soltando exclamações quando necessário e esperando com a mais cega fé de que algo incrível pudesse acontecer ao redor enquanto estivessem por ali.

As flores lá embaixo estavam mais agitadas do que o normal naquele dia – conversando sem parar sobre moda, imagine só, estavam discutindo as tendências da próxima estação. Aquela que acabara de dobrar a esquina e trazia nas costas a promessa de um tempo mais ameno. Aquela que as folhas mais temiam.
O outono era como um conto de terror na beira da fogueira do acampamento das folhas, ele que era o responsável por roubar-lhes as matizes de verde a soprá-las para um destino que nenhuma jamais voltou para contar como foi. O carvalho já se acostumara com as idas e vindas do outono com seu roubo ousado, assim como sabia que outra estação lhe traria o verde novamente, rejuvenescendo-o, afinal, nada aparenta ser mais velho do que um carvalho careca.
Todas as folhas estavam apreensivas e assim permaneceriam pelos dias seguintes, olhando ao redor e agarradas com força em seu galho, se perguntando qual delas seria a primeira a vestir tons de amarelo e cair. As visitas do vento não eram mais tão auspiciosas e até a presença de pequenos animais lhes causavam tremores. Dizem que não é fácil ser uma folha no outono e também que não é raro ouvir o berro assustado de uma delas ao confundir uma borboleta valsando na brisa com seu colega de galho.

Nenhuma havia caído até aquele final de tarde que se tornaria histórico, portanto todas elas viram quando a caixa de correio finalmente pôs seu braço para descansar. Uma moça de cabelos esvoaçantes retirara todo seu conteúdo e lia atentamente cada palavra nos envelopes, em sua expressão se via um misto de nostalgia com ternura. Seu olhar cruzou o horizonte na direção de uma casa abandonada no fim da colina.


Enquanto isso todas as flores a observavam em silêncio, o mesmo pensamento repousado em cada pétala. Será que ela voltou?

Para ler a história da menina de fita azul, clique no link em destaque do texto. Que a inspiração do outono se faça presente com mais frequência para nós.

A solidão de ser só

| sexta-feira, 22 de janeiro de 2016


Dê a ele o nome que quiser, as características que achar que o define. Dê a ele sonhos despedaçados e um pote de cola para juntar os pedaços. Dê a ele até um sobrenome, mas nada disso vai mudar o fato de que ele ainda se esconde nas entranhas de sua alma, nos cantos sem luz de seu mundo.

Ele não é de todo estranho, como aquelas crianças prodígios que resolvem equações monstruosas ou que detêm um vocabulário mais rebuscado que poetas de séculos passados, tampouco é aquele garoto sinistro que desenha círculos infindáveis dentro de outros círculos durante a aula de artes e que diz que só os fez porque as vozes mandaram. Ele é apenas só. Acompanhado de sua solidão docemente triste, sem fantasmas, sem ninguém.
Calado durante o jantar escuta silenciosamente os pais discutindo sobre ele. O pai quer que ele faça amigos, pratique esportes e atividades exaustivas, a mãe por outro lado aperta as mãos em nervosismo só de pensar que há algo de errado com o filho, teme até mesmo cogitar a ideia de procurar ajuda. Ele queria dizer a eles para não se preocuparem, ele está bem assim, acostumou-se em ser só, acomodou-se a esse fato como se a solidão e ele fossem feitos para estarem juntos, como peças desconexas que por algum motivo se entrelaçaram na caixa de brinquedos e parecem que sempre pertenceram uma a outra. Mas mesmo que ele tentasse dizer alguma coisa, os pais não o ouviriam, estavam presos em suas próprias convicções das quais ele não tinha parte em argumentar.
Na sala de aula ele resolvia os problemas matemáticos com afinco, escrevia as redações pedidas, fazia experimentos, analisava soluções, era um aluno bom, quieto, mas bom. Na hora do recreio sentava-se longe de todos, não participava das conversas, não queria fazer parte dos grupos estereotipados que se formavam e que provavelmente definiriam o futuro de cada membro, salvo algumas exceções que conseguiriam se desvincular dos rótulos ao longo da vida. Raramente faltava das aulas, gostava de aprender, seu único desconforto, porém, era quando lhe diziam que ele tinha que fazer isso ou aquilo porque era assim que as coisa eram e pronto. Ele não concordava com isso.
Refugiava-se em livros onde heróis derrotavam vilões e salvavam as donzelas indefesas, onde havia magia e tudo era possível. Vagava por esse mundo numa facilidade deslumbrante, mas não se via na pele de nenhum herói. Não tinha ambição de se tornar um salvador, um famoso de renome. Quanta dor de cabeça isso traria!

No parquinho aprendeu a nomear os pássaros que perpassavam e os gatos que vez ou outra corriam pelos muros. Saboreou a simplicidade de se deitar sob as árvores só para aproveitar a sombra fresca. Brincou no escorrega com seu sorriso pueril estampado no rosto, ainda que lhe faltasse um dente ou dois. Desenhou com as nuvens. Alimentou alguns cachorros de rua em troca de um olhar de gratidão tão sereno que fazia seu peito se encher de uma emoção ainda sem nome. Tentou se equilibrar no meio fio, desafiando a gravidade derrubá-lo. Mas foi na gangorra que encontrou seu maior problema, onde mesmo a gravidade olhou para o outro lado fingindo não ver o que acontecia só para não ajudá-lo a fazer a outra ponta do brinquedo descer.

Detrás dos arbustos, ela observou o menino calado sentar-se no brinquedo que era feito para duas pessoas. Olhou ao redor procurando enxergar alguém se aproximando dele, mas não encontrou ninguém. Por que só os meninos podem ser heróis?, ela pensou destemida, Talvez ele seja meu donzelo indefeso.

Assim, ela sacudiu os cabelos, jogando-os para trás e foi na direção daquele que se tornaria seu primeiro amor.

Iniciando 2016 no blog com a visita dessa tal de inspiração que resolveu aparecer num dia de sol. Até a próxima, sorridentes.  
 

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