Keblinger

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Para acalmar a espera delas

| terça-feira, 13 de outubro de 2015

Elas estavam por todo lado ao seu redor, umas mais tímidas que as outras, encarando-o com aquele olhar apreensivo de quem quer dizer algo, mas não sabe como, outras mais espalhafatosas, vestidas de cores berrantes implorando por atenção, algumas ainda cientes de sua importância não se davam muito ao trabalho de pedir para serem notadas. Elas se esticavam nas lombadas dos livros, se agarravam nas embalagens dos produtos que comprava, dependuravam-se nos lembretes que ele pregava na parede torcendo para não escorregarem do papel. As palavras sempre estiveram por perto.
Elas sabiam que ele, sendo movido pela escrita, tinha um poder incrível nas mãos, não entendiam, porém, porque ele não o usava mais.

Talvez tenha sido culpa do tempo, das questões mais urgentes da vida, das prioridades que exigem mais de si do que as palavras jamais o fizeram, o fato é que ele as deixou ir, soltou sua mão em uma avenida caótica e turbulenta e perdeu-se delas no meio do caminho, numa ruela ou travessa qualquer. Talvez tenha sido a criatividade que o abandonara, afinal, indo passear em jardins mais floridos e perfumados ou quem sabe o mundo já não o inspirava como antigamente.
Ele não as esqueceu por completo, vez ou outra revisita seu arcabouço só para sentir aquela calorosa nostalgia aquecer seu peito enquanto sente uma pontada de frustração por ter deixado as coisas chegarem naquele ponto. Suas próprias velhas palavras lhe acenavam da distância do tempo passado, relutantes a desaparecerem numa névoa de esquecimento. Elas sempre encontram seu caminho de volta e ele sabia que elas sempre estariam lá, de braços abertos para recebê-lo com pompa e glória. Então ele sente aquele gostinho doce da tristeza perpassar seu paladar, compreende até mesmo o valor que manter-se longe pode causar e como a maturidade tem seu papel a desempenhar.  
Seus olhos ainda contêm aquele senso de busca por qualquer resquício de inspiração, seus ouvidos ainda prestam atenção com carinho às letras das canções, vasculhando versos que lhe instigarão a escrever e enquanto se deita ele se permite flutuar em devaneios sobre um mundo no qual pudesse se livrar da ferrugem que teimosamente se instalou em seu ombro, mas adormece antes de conceber ideias totalmente formuladas e, tragado pela pressa do dia seguinte, se esquece mais uma vez das palavras. E não escreve.

Elas apenas esperam, afinal o que mais lhes resta a fazer? Sentam-se desoladas na beira das linhas, se misturam com outras de teor menos poético e mais prático e direcionado ou simplesmente o observam dormir, desejando que, pelo menos, em sonhos eles possam estar juntos outra vez. 

Porque, às vezes, a saudade de escrever aperta um pouco mais.

 

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