Keblinger

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O doutor das palavras

| sábado, 25 de julho de 2015


Com precisão cirúrgica ele costurava uma palavra na outra, fazendo suturas e operações complexas por horas a fio. Cortava daqui, pregava de lá. Seus dedos firmes sobre o teclado feito as mãos de um cardiologista que segura um coração partido. Olhos pacientes e analíticos como os de um neurocirurgião que vasculha o resultado de uma ressonância magnética em busca de um pontinho ínfimo que não deveria estar ali.
Metódico, perfeccionista, autocrítico até a raiz dos cabelos, não admitia que seus períodos e sentenças fossem desconexos. Unia tudo muito bem com linhas de raciocínio elaboradas para causar exatamente aquilo que ele esperava. Horror, surpresa, alegria. Sorria ao deslizar por frases afiadas feito um bisturi. Deliciava-se no caos de sua própria sala de operação de traumas. Adorava o silêncio de seu quarto à meia luz contrastando com a cacofonia que retumbava em sua mente.
Não nascera para ser doutor, embora esse fosse o desejo de seus pais. Não gostava de ver o sangue em suas mãos, apesar de ter cometido vários homicídios, ora com uma caneta em mãos, ora na tela de seu computador. Ele nascera para escrever, desde cedo sempre soubera disso. Amou as palavras antes de se apaixonar pela primeira vez na infância. Dançou sua primeira valsa na companhia de livros. Dormiu ao som dos sussurros dolorosos de um poeta. Sonhou sonhos de fantasia, ficção e autobiográficos até. Acordou para ser escritor.

Enquanto caminhava pelas ruas, observador como era, analisava o tráfego, as pessoas, os comportamentos, as situações. Tudo ao redor era fonte de inspiração, todos eram histórias. Um sorriso que espiava em busca de seu par, um beijo trocado por enamorados de mãos dadas caminhando pelo parque, a risada das crianças correndo pelas calçadas, o cheiro convidativo que vinha da padaria ao seu encontro, uma melodia atrevida que se esgueirava por uma janela aberta no segundo andar, uma foto em preto e branco no jornal, a conversa entre desconhecidos no ponto de ônibus. Há vários universos encostados uns nos outros.
Na vitrine da pequena livraria do bairro, aquela cheia de livros já empoeirados, esquecida entre lojas de roupas e de sapatos, lá estava seu livro. Aclamado pela crítica, bem recebido por leitores afoitos, aplaudido de pé nas estantes por toda a parte.
Sorriu ao ver a capa lindamente produzida pela editora, a fonte do título, a cor das letras. Encheu-se de alegria até pelas páginas levemente amareladas do miolo, essas não cansavam as vistas, ele sabia. Era realmente um sentimento extraordinário ter pessoas interessadas em suas palavras, até mesmo aquelas pessoas que retiravam frases de seu livro e as publicavam fora de contexto pelas redes sociais. Era emocionante ser lido, a verdade era essa.
Encarou mais uma vez o livro através da vitrine, antes de se despedir. Dessa vez sentiu uma pontada de tristeza no peito, uma dorzinha que nenhum médico seria capaz de curar, um pontinho que jamais apareceria em um raio X. O nome atribuído ao autor daquele livro não era o seu. Suspirou tristemente ao contemplar seu destino, deixara de ser um escritor de gaveta para se tornar um escritor fantasma. Vendeu sua alma por um valor aquém do merecido.


Talvez em algum outro universo o nome reconhecido seja o seu. Ou talvez por lá ele se torne um médico, afinal. 

Há datas que sempre merecem ser celebradas e hoje é uma delas, pois hoje é o dia daquele que encontra uma maneira de dizer o que os outros não conseguem através de suas palavras. Dia daquele que pega as palavras pelas mãos e as mostra o caminho a seguir, aquele que, às vezes, até atravessa a rua com elas para que não haja risco nenhum. Portanto, um feliz dia do escritor para todos que fazem desse dom uma bela arte aos olhos alheios.
 

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