Keblinger

Keblinger

Luftmensch

| quinta-feira, 21 de maio de 2015

Apanhou um pedaço de nuvem, afofou-o delicadamente com as mãos, depositou a cabeleira esparsa sobre ele, abriu os olhos e sonhou.

A menina aprendera desde pequena que sonhar era um grande atrevimento, não aqueles sonhos surreais embalados por Morfeu, mas sim aqueles em que a realidade despeja traços de esperança. Aqueles em que os olhos brilham e suspiram só de pensar em sua intangível proximidade. Assim ela sempre foi uma sonhadora nata, que cantava a plenos pulmões os versos outrora cantados por John Lennon.
Sonhar, contudo não era sinônimo de realizações, porque uma vez já disse Raul, “sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade” e era exatamente aí que morava o problema. Um problema que ela negligenciou constantemente, afinal sonhar era algo só seu, porque precisaria de auxílio? Era uma ótima sonhadora, muito bem, obrigado.
Seguiu sua vida com os pés nos chão e a cabeça nas nuvens, com os cabelos salpicados de fiapos de algodão e um sorriso aéreo de arco-íris ao contemplar seu horizonte de possibilidades. Passou pela vida leve feito uma pluma bailando ao vento ao som de um clássico qualquer, na pontinha dos pés para não fazer barulho, silenciosa demais para não causar incômodos. E seu coração, ritmado num compasso que compôs, valsava solitário nas alamedas nostálgicas de um vir a ser que apenas habitava as terras oníricas de seus pensamentos. Lá onde a realidade era barrada nos portões dourados por não ter seu nome na lista de convidados.
Viver de sonhos, porém, era como alimentar-se apenas de ar, lhe preenchia, mas não sustentava. E era ali que morava outro problema. A menina apenas aprendera a sonhar, pobrezinha, nunca lhe disseram que realizá-los era um dever seu, um dever de casa que a escola nunca passou, uma estrelinha que nunca ganhou no caderno pelo bom desempenho.
As outras pessoas ao seu redor também sonhavam, ela percebeu, mas, além disso, elas corriam atrás dos sonhos e os traziam para o mundo real, os capturavam em fotografias, os compartilhavam através de sorrisos e histórias e mais, os viviam. Se eles podem, ela também podia, afinal.
Descalçou as incertezas e correu afoita pelos bosques, como uma caçadora de borboletas, esperando apanhar aquela cujas asas formassem o desenho mais bonito e que pudesse enfeitar seu jardim. Em sua corrida frenética tropeçou numa pedra que era mais real do que esperava e caiu sobre um rapazinho de olhos vidrados.

Ele sacudiu os fios de nuvem de sua cabeça, piscou várias vezes para sair do devaneio. Já haviam lhe dito que quando imergia em seu mundinho particular, de mãos dadas com o irreal, se deixava levar para longe, para terras distantes que ninguém mais sabia o caminho. Bem, alguém tropeçou em sua estrada e caiu acrobaticamente sobre seu colo. Ele sorriu diante da cena e do olhar encabulado da menina. E quando ela lhe perguntou o que ele estava fazendo parado, obstruindo a passagem, ele sorriu outra vez e respondeu:
- Estava sonhando acordado.

Luftmensch – em iídiche: uma pessoa sonhadora.
Ilustração de Marija Tiurina para o projeto Palavras Intraduzíveis.

Ano um

| sábado, 16 de maio de 2015

Já me disseram que eu sou feito de palavras e músicas são palavras cantadas. E música foi meu primeiro presente a você, então para celebrar nosso dia, me concede a honra dessa dança?

If I lay here, if I just lay here, would you lie with me and just forget the world? Se aconchegue do meu lado e vamos passear por nossas memórias.
Ainda me pego pensando naquela noite, no primeiro encontro despretensioso e de quão sortudo eu fui, dentre tantas garotas eu encontrei aquela que puts the color inside of my world, aquela que se permitiu um tempo com o cara estranho no bar e que me permitiu sentir tudo que viria em seguida.
E o tempo brincalhão como foi, nos tinha reservado para aquele dia, para que fosse certo. No lugar certo, na hora certa.
Hoje eu tenho você – and I get to kiss you, baby, just because I can - nós sabemos a pergunta e the answer, well, who would have guessed could be something as simple as this? Tenho muito orgulho da nossa história, de como as coisas se desenrolaram e como as peças foram se encaixando aos poucos para formar esse lindo quebra-cabeça ao ritmo de conta-gotas, por mais estranho que essa analogia possa ter sido.
O tempo, ele aqui outra vez, me fez acreditar que era você, que sempre havia sido você – porque time has brought your heart to me – e, portanto não poderia mais desperdiçá-lo não te tendo por perto e eu então pensava, if this is love, then love is easy e num mundo cheio de complicação quando você encontra um presente assim, não há que esperar mais. E entre passos ora rápidos, ora cautelosos descobri que I'm yours and suddenly you're mine.
E olha que eu nunca fui daqueles caras que se jogam em relacionamentos assim, mas com você foi tão natural que seria estranho se eu não o fizesse, por essas e outras que eu digo e que você me faz enxergar que for you  I’m a better man.
Acredito agora que people fall in love in mysterious ways, mas com o tempo descobri que o mistério não era o apaixonar-se em si, mas o receio do que vem junto, aquele frio na barriga causado por uma insegurança descabida, e, melhor ainda, descobri que com você não havia necessidade para insegurança nenhuma. Porque você me fazia feliz, como ainda faz.
Há um ano então, de toalha na mão – pois sabemos da importância desse valioso objeto – um dos pedidos mais estranhos do universo foi feito e desde então I've got sunshine on a cloudy day, when it's cold outside I've got the month of May. Nosso mês.
Ao longo desse um ano fomos grandes colecionadores das mais diversas histórias – e eu como um contador delas, me senti extremamente agraciado. Enchemos os bolsos com cenas engraçadas – porque you make me fall out of bed – risos incontidos até as lágrimas surgirem. Entre tangos na Argentina e perrengues no Rio de Janeiro nossa bagagem foi se enchendo de contos e memórias.
Espero que você sempre saiba que pode contar comigo para qualquer coisa, que when the world gets too heavy put it on my back, que não importa as intempéries que surjam se estivermos juntos podemos passar por tudo, até porque somos incríveis. E modestos.
Espero também que sempre tell me if I’m wrong, tell me if I’m right. Acredite em mim, até quando eu disser que você ronca – porque sim, você ronca.

So I say thank you, I'm a lucky man, pois você me escolheu para estar contigo, para compartilhar suas histórias, para escrever mais, para cantar fora do tom, para dançar até sem música, para caçar ents em parques por aí, para estourar plástico bolha de madrugada, para te acompanhar em suas viagens. Para amar. E você sabe e eu sei que you make it real for me.


Amo você, minha linda moça encantadora.

Clique nos versos para ouvir as músicas.
 

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