Keblinger

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Aquela noite

| quarta-feira, 18 de março de 2015

(…) People fall in love in mysterious ways
Maybe it's all part of a plan…

A vida da gente é cercada por deliciosos clichês que vez ou outra se aproximam de nós feito pequenos animais que perderam o medo do contato, mas os dois não sabiam disso. Ainda não.
Dos clichês que surgem há o dos desencontros antes do momento derradeiro, do trabalhar na mesma empresa e nunca se esbarrarem, do sumiço em uma festa de formatura e casos em que quase aconteceu. Como o prólogo dessa história.
Ele ficou sabendo por um amigo que o Terra Celta tocaria em um barzinho naquele outubro de 2013, logo não poderia perder. Ela também estava lá, mais ao fundo, distante do palco com suas amigas. O vocalista propôs uma brincadeira, para que os cavalheiros tomassem as damas como num antigo baile francês. E ele o fez:
- Me concede a honra dessa dança, mademoiselle? – perguntou ao seu amigo e ele aceitou, os dois valsaram ao som das risadas ao redor e ficaram extremamente surpresos ao ser o casal vencedor da melhor valsa.
Lá do fundo, ela soltou uma risada e comentou com uma amiga:
- Aquele louco é amigo de uma amiga minha.
Mas não era o dia de se esbarrarem. Ainda não.

As melhores histórias são aquelas que começam em dias do meio da semana, como numa terça-feira qualquer, sem pretensão de se tornarem grandiosas, mas com todo o potencial para tal. E foi assim que, de fato, essa história começou. Terça-feira, 18 de março de 2014. Uma noite qualquer. Mais uma vez aquele mesmo bar como cenário. Tocando um blues ou um jazz qualquer. Os personagens dessa história, porém, não são pessoas qualquer. Vamos a eles então.
Ele é um jovem rapaz carismático, daqueles que fazem os amigos darem risadas altas em momentos inoportunos, aquele tipo de cara que carrega nos olhos um brilho convidativo a ser amigo. Ela, por sua vez, é uma jovem moça encantadora, daquelas que sempre têm um sorriso no rosto, um jeito moleca que deixa tudo mais leve ao redor. Nenhum dos dois deveria estar lá naquela noite – ele trabalharia até tarde, ela não estava em clima de festa. Mas era o aniversário daquela amiga em comum, citada há alguns meses naquele mesmo local quando a música celta agitava a noite.
O destino, vestido de mais um clichê, com seu jeitinho misterioso de ser, fez com que ambos pudessem estar lá, tão próximos, mas ainda assim tão distantes, fora dos mesmos círculos que se criaram no local. Eles tinham apenas uma chance de se esbarrarem naquela noite fatídica e foi exatamente isso que aconteceu.
Entre copos de bebidas e risadas, ele se viu sozinho por um momento, encostado numa parede qualquer, em um canto qualquer, observando a multidão que o cercava. Entre idas ao toalete e pernas inquietas demais para ficar sentada, ela se viu parada no meio do caminho. E o olhar dos dois se encontrou – atravessou as pessoas que estavam na frente, silenciou a música que se desprendia dos saxofones e o barulho ambiente, desviou dos garçons que serviam e aquele instante foi só deles, mesmo que tenha durado um segundo apenas.
Ele então ergueu seu copo de chope num aceno qualquer, lançou-a um sorriso qualquer e aquilo foi o suficiente para que ela se aproximasse dele. Entre conversas de tempos que já se foram, de planos para o presente e desejos para o futuro, os dois se conectaram de uma maneira tão singular e inesperada, como se não fossem dois estranhos, mas velhos amigos que se reencontravam depois de um tempo distantes um do outro.
Aquele tempo só dos dois passou de modo tão despercebido que quando menos notaram ela já lhe acenava em despedida. Um beijo no rosto qualquer. Um “a gente se fala” qualquer. E uma pontinha de tristeza por querer que houvesse mais. Mais tempo, mais conversa jogada fora, mais sorrisos e mais simplicidade.

As melhores histórias começam assim, despretensiosas, carregadas com aquele gostinho de quero mais. E como eu disse, elas começam assim. Porque aquela terça-feira qualquer – naquele bar que sempre será o do primeiro encontro oficial – se tornou tudo menos uma coisa qualquer. Pois desde aquele dia em diante, a história desses dois personagens continua sendo escrita lindamente por diversos outros cenários, com outras trilhas sonoras e cheia de felicidade, risos e amor.


E hoje eles são imensamente felizes por compartilhar mais um daqueles deliciosos clichês: o de que as coisas acontecem quando têm que acontecer. No lugar certo, na hora certa.

Porque nem todo dia é o melhor dia do ano.

2 sorrisos compartilhados:

{ Joyce Silva } at: 20 de março de 2015 09:31 disse...

"E o olhar dos dois se encontrou - atravessou as pessoas que estavam na frente, silenciou a música que tocava e o barulho ambiente, desviou dos garçons que serviam e aquele instante foi só deles, mesmo que tenha durado um segundo apenas."

E aquela jovem moça encantadora nunca mais se esquecerá daquele instante que transformou todos os dias seguintes e lhe presenteou com a melhor história, não escrita, não contada, apenas vivida e saboreada.
Daquelas histórias que nunca encontrarão palavras suficientes, é o tipo de história que se sente, no coração, no sorriso dado e no abraço apertado.

"Me, I fall in love with you every single day"

{ Elania } at: 11 de abril de 2015 17:26 disse...

Existe comentários tão bonitos, como esse acima, que até me envergonho em dizer que gostei de ler isso aqui!
Me envolveu e me vi assistindo isso.
Abç

 

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