Keblinger

Keblinger

As coisas boas estão aguardando

| quinta-feira, 31 de dezembro de 2015


Às vezes as melhores coisas que acontecerão na sua vida acontecerão por acaso, como uma chuva inesperada que resolveu se desprender de uma nuvem acinzentada. Mas há que saber, e ainda até se conformar, que para alguns inícios são necessários alguns fins, aquele lance de que duas coisas não podem ocupar o mesmo espaço e tal que um físico teria muito mais propriedade para falar do que eu, o fato é que não há muita complicação nessa equação. É um entendimento corriqueiro, cotidiano, daqueles que a gente nem pensa muito porque já sabe. Porque já aprendeu desde pequenininho.
Voltemos então para as melhores coisas, aquelas que ficam esperando por você, contando os segundos com os olhinhos grudados nos ponteiros do relógio, tremendo de ansiedade por sua chegada. Elas são realmente muito boas nessa coisa de esperar. Afinal, construções levam tempo para serem erguidas, histórias levam tempo para serem escritas e anos levam tempo para passar, alguns particularmente mais do que outros, mas as suas melhores coisas esperam por você, sem vacilar, sem exaustão.
Que a sua, a minha, a nossa caminhada seja em passo leve na direção daquilo que é bom. Que a simplicidade passeie ao nosso lado, que os mais bobos clichês nos rodeiem pelas calçadas e que, acima de tudo, possamos ver. O enxergar nem sempre é fácil, pois nuvens de incerteza, como aquelas acinzentadas que carregam chuva, pairam em nossa cabeça e desfocam nossa visão. Que a gente veja, então. Veja e entenda que há coisas pelas quais não vale a pena pensar demais. Até arriscar pode ser simples, às vezes, basta acreditar, assuste seus medos ao fazer isso.

Que venha o novo, pois mudanças trazem a boa-venturança das novidades, do desconhecido, das surpresas pelo caminho. Que você mude por você e para você, troque suas cores, seus sabores, seus olhares. Rasgue tudo aquilo que não lhe traz bem. Cultive somente aquilo que lhe agrada. Que a sensibilidade exagerada populista e pseudo-política-culta-intelectual passe longe de você. O mundo já está cheio de pobres infelizes cumprindo esse papel em todas as redes possíveis. Dê voz a si mesmo. Lute suas lutas. Sorria suas vitórias. Tire algo de suas derrotas.

Para você eu desejo que seja simples. Para o homem eu desejo que aprenda a ser mais humano. Para o mundo, bem, para o mundo eu desejo que o homem consiga realizar esse meu desejo.

E que suas melhores coisas te alcancem nos dias que estão por vir.

Última postagem do ano, sorridentes. Para mim eu desejo mais tempo e mais inspiração para voltar mais vezes à minha própria casa, sinto a poeira bailar pelo ar toda vez que apareço por aqui. Mas enfim, desejo que 2016 seja para você tudo aquilo que 2015 não foi e muito mais. Um incrível ano novo com direito a tudo de melhor que há. Abraços.


6 anos de sorrisos

| terça-feira, 3 de novembro de 2015

Há um tempo venho negligenciando essa data, por vezes até me esquecendo dela, devo admitir, mas hoje decidi que não deixaria passar sem ao menos umas breves palavras, afinal de contas devo grande parte do meu aprimoramento na escrita ao blog. Hoje enfim, 6 anos de postagens.
6 anos de vários personagens criados, alguns dos quais me identifiquei mais que outros, alguns dos quais até me ensinaram algumas coisas durante seu processo de criação, alguns dos quais eu jamais esquecerei, não importa o número de vezes que o tempo dê em torno de si. 6 anos da fusão do irreal com partes de mim mesmo.
Não vou me estender muito mais, essa postagem foi apenas para me lembrar mais vezes das palavras guardadas aqui, daquelas que um dia foram tão presentes e andam perdidas nas sombras, esperando pacientemente que um facho de luz as encontre.

Que no próximo aniversário eu possa comemorar uma assiduidade mais significante por essas bandas. E a você que ainda tropeça no meio do caminho e vem parar aqui, eu só devo agradecer pela visita. E volte se puder, se quiser... ou apenas para um "olá" casual.

Para acalmar a espera delas

| terça-feira, 13 de outubro de 2015

Elas estavam por todo lado ao seu redor, umas mais tímidas que as outras, encarando-o com aquele olhar apreensivo de quem quer dizer algo, mas não sabe como, outras mais espalhafatosas, vestidas de cores berrantes implorando por atenção, algumas ainda cientes de sua importância não se davam muito ao trabalho de pedir para serem notadas. Elas se esticavam nas lombadas dos livros, se agarravam nas embalagens dos produtos que comprava, dependuravam-se nos lembretes que ele pregava na parede torcendo para não escorregarem do papel. As palavras sempre estiveram por perto.
Elas sabiam que ele, sendo movido pela escrita, tinha um poder incrível nas mãos, não entendiam, porém, porque ele não o usava mais.

Talvez tenha sido culpa do tempo, das questões mais urgentes da vida, das prioridades que exigem mais de si do que as palavras jamais o fizeram, o fato é que ele as deixou ir, soltou sua mão em uma avenida caótica e turbulenta e perdeu-se delas no meio do caminho, numa ruela ou travessa qualquer. Talvez tenha sido a criatividade que o abandonara, afinal, indo passear em jardins mais floridos e perfumados ou quem sabe o mundo já não o inspirava como antigamente.
Ele não as esqueceu por completo, vez ou outra revisita seu arcabouço só para sentir aquela calorosa nostalgia aquecer seu peito enquanto sente uma pontada de frustração por ter deixado as coisas chegarem naquele ponto. Suas próprias velhas palavras lhe acenavam da distância do tempo passado, relutantes a desaparecerem numa névoa de esquecimento. Elas sempre encontram seu caminho de volta e ele sabia que elas sempre estariam lá, de braços abertos para recebê-lo com pompa e glória. Então ele sente aquele gostinho doce da tristeza perpassar seu paladar, compreende até mesmo o valor que manter-se longe pode causar e como a maturidade tem seu papel a desempenhar.  
Seus olhos ainda contêm aquele senso de busca por qualquer resquício de inspiração, seus ouvidos ainda prestam atenção com carinho às letras das canções, vasculhando versos que lhe instigarão a escrever e enquanto se deita ele se permite flutuar em devaneios sobre um mundo no qual pudesse se livrar da ferrugem que teimosamente se instalou em seu ombro, mas adormece antes de conceber ideias totalmente formuladas e, tragado pela pressa do dia seguinte, se esquece mais uma vez das palavras. E não escreve.

Elas apenas esperam, afinal o que mais lhes resta a fazer? Sentam-se desoladas na beira das linhas, se misturam com outras de teor menos poético e mais prático e direcionado ou simplesmente o observam dormir, desejando que, pelo menos, em sonhos eles possam estar juntos outra vez. 

Porque, às vezes, a saudade de escrever aperta um pouco mais.

O doutor das palavras

| sábado, 25 de julho de 2015


Com precisão cirúrgica ele costurava uma palavra na outra, fazendo suturas e operações complexas por horas a fio. Cortava daqui, pregava de lá. Seus dedos firmes sobre o teclado feito as mãos de um cardiologista que segura um coração partido. Olhos pacientes e analíticos como os de um neurocirurgião que vasculha o resultado de uma ressonância magnética em busca de um pontinho ínfimo que não deveria estar ali.
Metódico, perfeccionista, autocrítico até a raiz dos cabelos, não admitia que seus períodos e sentenças fossem desconexos. Unia tudo muito bem com linhas de raciocínio elaboradas para causar exatamente aquilo que ele esperava. Horror, surpresa, alegria. Sorria ao deslizar por frases afiadas feito um bisturi. Deliciava-se no caos de sua própria sala de operação de traumas. Adorava o silêncio de seu quarto à meia luz contrastando com a cacofonia que retumbava em sua mente.
Não nascera para ser doutor, embora esse fosse o desejo de seus pais. Não gostava de ver o sangue em suas mãos, apesar de ter cometido vários homicídios, ora com uma caneta em mãos, ora na tela de seu computador. Ele nascera para escrever, desde cedo sempre soubera disso. Amou as palavras antes de se apaixonar pela primeira vez na infância. Dançou sua primeira valsa na companhia de livros. Dormiu ao som dos sussurros dolorosos de um poeta. Sonhou sonhos de fantasia, ficção e autobiográficos até. Acordou para ser escritor.

Enquanto caminhava pelas ruas, observador como era, analisava o tráfego, as pessoas, os comportamentos, as situações. Tudo ao redor era fonte de inspiração, todos eram histórias. Um sorriso que espiava em busca de seu par, um beijo trocado por enamorados de mãos dadas caminhando pelo parque, a risada das crianças correndo pelas calçadas, o cheiro convidativo que vinha da padaria ao seu encontro, uma melodia atrevida que se esgueirava por uma janela aberta no segundo andar, uma foto em preto e branco no jornal, a conversa entre desconhecidos no ponto de ônibus. Há vários universos encostados uns nos outros.
Na vitrine da pequena livraria do bairro, aquela cheia de livros já empoeirados, esquecida entre lojas de roupas e de sapatos, lá estava seu livro. Aclamado pela crítica, bem recebido por leitores afoitos, aplaudido de pé nas estantes por toda a parte.
Sorriu ao ver a capa lindamente produzida pela editora, a fonte do título, a cor das letras. Encheu-se de alegria até pelas páginas levemente amareladas do miolo, essas não cansavam as vistas, ele sabia. Era realmente um sentimento extraordinário ter pessoas interessadas em suas palavras, até mesmo aquelas pessoas que retiravam frases de seu livro e as publicavam fora de contexto pelas redes sociais. Era emocionante ser lido, a verdade era essa.
Encarou mais uma vez o livro através da vitrine, antes de se despedir. Dessa vez sentiu uma pontada de tristeza no peito, uma dorzinha que nenhum médico seria capaz de curar, um pontinho que jamais apareceria em um raio X. O nome atribuído ao autor daquele livro não era o seu. Suspirou tristemente ao contemplar seu destino, deixara de ser um escritor de gaveta para se tornar um escritor fantasma. Vendeu sua alma por um valor aquém do merecido.


Talvez em algum outro universo o nome reconhecido seja o seu. Ou talvez por lá ele se torne um médico, afinal. 

Há datas que sempre merecem ser celebradas e hoje é uma delas, pois hoje é o dia daquele que encontra uma maneira de dizer o que os outros não conseguem através de suas palavras. Dia daquele que pega as palavras pelas mãos e as mostra o caminho a seguir, aquele que, às vezes, até atravessa a rua com elas para que não haja risco nenhum. Portanto, um feliz dia do escritor para todos que fazem desse dom uma bela arte aos olhos alheios.

O que se esconde por trás das palavras

| segunda-feira, 29 de junho de 2015

Sempre fui daquele tipo de gente que segurava as palavras na mão com tanta força que no momento em que elas deveriam ser soltas já estavam tão atadas à minha palma que nem mesmo fortes sacudidelas as faziam sair. Sendo assim, sempre fui também muito calado ao que era intrínseco ao coração, achava que se era algo só meu, só do meu sentir, do meu querer, do meu pronome possessivo meu e de mais ninguém então não deveria compartilhar.
Porém há vários tipos de palavras e a escrita foi aquela que eu jamais consegui conter dentro de mim, pois ela pulsava por minhas veias, sussurrava secretamente em meus ouvidos e se mostrava em toda sua invisibilidade presa na minha retina. Então tão natural quanto respirar meus dedos aprenderam a dançar, primeiramente uma valsa sutil e acanhada na companhia de uma caneta qualquer, depois no salão de um teclado, tornando as palavras visíveis a cada passo trôpego da barrinha que se movia da esquerda para a direita, revelando os segredos guardados na melodia das letras e no som das teclas.
Entretanto ser recebedor das palavras não foi algo que eu costumava ser, eu as distribuía em textos construídos com o melhor uso possível do talento que eu acredito possuir, mas recebê-las? Não, não eu. Ter alguém disposto a depositá-las diante de mim como presentes nunca foi algo que cheguei a cogitar, pois, veja bem, sempre soube ser eu o doador de palavras, não o receptor.
Mas surpresas hão de vir pelo caminho. Feito aquela música que você está pensando e de repente escuta tocar em algum lugar, como uma coincidência muito bem arquitetada pelo destino.
Disse ali no início que sempre fui aquele que segurava as palavras, sim, disse no pretérito perfeito e o mais perfeito é que fique no pretérito mesmo, pois aprendi que as palavras não devem viver aprisionadas nas palmas das mãos ou na escuridão de uma boca fechada. Pelo menos não aquelas palavras destinadas à pessoa que te ensinou essa preciosa lição.
Hoje eu me tornei um receptor. Descobri que o que se esconde por trás das palavras são pessoas. E descobri também que assim como eu várias pessoas são feitas de palavras, várias delas são doadoras universais, mas que também podem receber algumas vez ou outra. Por trás das palavras também há sentimento, dos mais variados tipos possíveis. Então falemos deles, libertemo-los das trancas da língua e dos nós dos dedos, que enxerguemos suas cores ao vento e inventemos novos matizes.

Hoje eu sei que receber as palavras é tão bom quanto doá-las. Sei disso porque meus dias são mais coloridos por causa das belas palavras, daquelas três palavras, do sentimento por trás delas e das ações que as comprovam. Porque eu tenho uma doadora comigo, que adora me surpreender de tempos em tempos com embrulhos inesperados em forma de textos e declarações. Então nada mais justo do que usar dessas minhas palavras para doar meu pequeno obrigado diante da grandeza de tudo que ela me ensinou a sentir e viver.

E sim, eu sei que sou um cara sortudo.

Sobre a imagem: porque é em alemão ~ e há ótimas palavras nesse idioma e porque é pra ela.
E claro, devo deixar aqui o link do blog da moça encantadora que vem me ensinando a encontrar as palavras há muito perdidas dentro de mim ~> O que se esconde por trás das palavras. Apreciem.

Das datas que pedem flores, ou não

| sexta-feira, 12 de junho de 2015


(...) Coisa linda
Vou pronde você está
Não precisa nem chamar...

O moço que há até certo tempo não era afeito de celebrar datas que não fossem seus aniversários descobriu o sabor de outras datas e hoje não quer mais saber de trocar de paladar.

Além de novos sabores adocicados, ele conseguiu ser capaz de desanuviar seus olhos e enxergar diversas novas matizes escondidas em cada pincelada de cor que existe no mundo, assim como destrancou palavras dentro de si que jamais haviam atingido a superfície. Um moço distraidamente sortudo e, portanto, universalmente agradecido.

A moça que sempre preferira comemorar as datas recheadas de chocolate surpreendeu-se ao perceber que há outras datas tão deliciosamente saborosas quanto bombons, trufas e afins.

Ao mesmo tempo pôde apreender melhor as canções alegres daqueles passarinhos cheios de fôlego nas manhãs de domingo, sentiu-se mais ainda abraçada pelo toque do vento que trazia consigo a lembrança de um cheiro que se tornou tão seu enquanto confidenciava segredinhos com a lua silenciosa. Uma moça ocasionalmente distraída e, sendo assim, grata a vida e tudo mais. 

Esses dois podem ser vistos passeando de mãos dadas por calçadas, cochichando secretamente em bancos de praças, sorrindo um sorriso só deles enquanto observam o desenho das nuvens. Você pode até conhecê-los, são exímios dançarinos com dois pares de pés esquerdos, cantores graciosamente desafinados, desastrosamente apaixonados.
Eles podem ser você, seu amigo de infância, seu conhecido apenas de “bom dia”, seu colega de trabalho ou de escola, seu vizinho. Podem ser estranhos na fila do banco, transeuntes das ruas do centro da cidade, desconhecidos na mesa ao lado do bar.
Eles são aquele casal que dá graça de ver, que por entenderem que “o lar é onde o coração está”, encontraram no outro sua casa. São um mais um. São singularmente um plural. São dois caminhos que se esbarraram numa encruzilhada do avesso.

É bonito de ver quando a vida coloca moços e moças assim frente a frente, como peças em um tabuleiro que não podem mais seguir sozinhas, na qual o encaixe dos dedos é tão certeiro que não há porque se soltar. Não há o querer se soltar.
E por ser tão bonito de ver é que o mundo deveria ter mais encontros assim.
Por mais moços e moças apaixonados, por mais versos delicados, por mais abraços e beijos. Por mais amor.

Que mais pessoas encontrem o sabor dessas datas. 

Porque hoje é dia de abraçar bem forte, beijar sem pressa e estar perto daquela pessoa que você permitiu estar contigo e que se permitiu a sua presença. Porque hoje pede celebração, pede romance, pede sorrisos partilhados. Porque hoje a comemoração não é um presente objeto, mas sim o amor concreto. Então deixo aqui meu feliz dia dos namorados.

Luftmensch

| quinta-feira, 21 de maio de 2015

Apanhou um pedaço de nuvem, afofou-o delicadamente com as mãos, depositou a cabeleira esparsa sobre ele, abriu os olhos e sonhou.

A menina aprendera desde pequena que sonhar era um grande atrevimento, não aqueles sonhos surreais embalados por Morfeu, mas sim aqueles em que a realidade despeja traços de esperança. Aqueles em que os olhos brilham e suspiram só de pensar em sua intangível proximidade. Assim ela sempre foi uma sonhadora nata, que cantava a plenos pulmões os versos outrora cantados por John Lennon.
Sonhar, contudo não era sinônimo de realizações, porque uma vez já disse Raul, “sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade” e era exatamente aí que morava o problema. Um problema que ela negligenciou constantemente, afinal sonhar era algo só seu, porque precisaria de auxílio? Era uma ótima sonhadora, muito bem, obrigado.
Seguiu sua vida com os pés nos chão e a cabeça nas nuvens, com os cabelos salpicados de fiapos de algodão e um sorriso aéreo de arco-íris ao contemplar seu horizonte de possibilidades. Passou pela vida leve feito uma pluma bailando ao vento ao som de um clássico qualquer, na pontinha dos pés para não fazer barulho, silenciosa demais para não causar incômodos. E seu coração, ritmado num compasso que compôs, valsava solitário nas alamedas nostálgicas de um vir a ser que apenas habitava as terras oníricas de seus pensamentos. Lá onde a realidade era barrada nos portões dourados por não ter seu nome na lista de convidados.
Viver de sonhos, porém, era como alimentar-se apenas de ar, lhe preenchia, mas não sustentava. E era ali que morava outro problema. A menina apenas aprendera a sonhar, pobrezinha, nunca lhe disseram que realizá-los era um dever seu, um dever de casa que a escola nunca passou, uma estrelinha que nunca ganhou no caderno pelo bom desempenho.
As outras pessoas ao seu redor também sonhavam, ela percebeu, mas, além disso, elas corriam atrás dos sonhos e os traziam para o mundo real, os capturavam em fotografias, os compartilhavam através de sorrisos e histórias e mais, os viviam. Se eles podem, ela também podia, afinal.
Descalçou as incertezas e correu afoita pelos bosques, como uma caçadora de borboletas, esperando apanhar aquela cujas asas formassem o desenho mais bonito e que pudesse enfeitar seu jardim. Em sua corrida frenética tropeçou numa pedra que era mais real do que esperava e caiu sobre um rapazinho de olhos vidrados.

Ele sacudiu os fios de nuvem de sua cabeça, piscou várias vezes para sair do devaneio. Já haviam lhe dito que quando imergia em seu mundinho particular, de mãos dadas com o irreal, se deixava levar para longe, para terras distantes que ninguém mais sabia o caminho. Bem, alguém tropeçou em sua estrada e caiu acrobaticamente sobre seu colo. Ele sorriu diante da cena e do olhar encabulado da menina. E quando ela lhe perguntou o que ele estava fazendo parado, obstruindo a passagem, ele sorriu outra vez e respondeu:
- Estava sonhando acordado.

Luftmensch – em iídiche: uma pessoa sonhadora.
Ilustração de Marija Tiurina para o projeto Palavras Intraduzíveis.

Ano um

| sábado, 16 de maio de 2015

Já me disseram que eu sou feito de palavras e músicas são palavras cantadas. E música foi meu primeiro presente a você, então para celebrar nosso dia, me concede a honra dessa dança?

If I lay here, if I just lay here, would you lie with me and just forget the world? Se aconchegue do meu lado e vamos passear por nossas memórias.
Ainda me pego pensando naquela noite, no primeiro encontro despretensioso e de quão sortudo eu fui, dentre tantas garotas eu encontrei aquela que puts the color inside of my world, aquela que se permitiu um tempo com o cara estranho no bar e que me permitiu sentir tudo que viria em seguida.
E o tempo brincalhão como foi, nos tinha reservado para aquele dia, para que fosse certo. No lugar certo, na hora certa.
Hoje eu tenho você – and I get to kiss you, baby, just because I can - nós sabemos a pergunta e the answer, well, who would have guessed could be something as simple as this? Tenho muito orgulho da nossa história, de como as coisas se desenrolaram e como as peças foram se encaixando aos poucos para formar esse lindo quebra-cabeça ao ritmo de conta-gotas, por mais estranho que essa analogia possa ter sido.
O tempo, ele aqui outra vez, me fez acreditar que era você, que sempre havia sido você – porque time has brought your heart to me – e, portanto não poderia mais desperdiçá-lo não te tendo por perto e eu então pensava, if this is love, then love is easy e num mundo cheio de complicação quando você encontra um presente assim, não há que esperar mais. E entre passos ora rápidos, ora cautelosos descobri que I'm yours and suddenly you're mine.
E olha que eu nunca fui daqueles caras que se jogam em relacionamentos assim, mas com você foi tão natural que seria estranho se eu não o fizesse, por essas e outras que eu digo e que você me faz enxergar que for you  I’m a better man.
Acredito agora que people fall in love in mysterious ways, mas com o tempo descobri que o mistério não era o apaixonar-se em si, mas o receio do que vem junto, aquele frio na barriga causado por uma insegurança descabida, e, melhor ainda, descobri que com você não havia necessidade para insegurança nenhuma. Porque você me fazia feliz, como ainda faz.
Há um ano então, de toalha na mão – pois sabemos da importância desse valioso objeto – um dos pedidos mais estranhos do universo foi feito e desde então I've got sunshine on a cloudy day, when it's cold outside I've got the month of May. Nosso mês.
Ao longo desse um ano fomos grandes colecionadores das mais diversas histórias – e eu como um contador delas, me senti extremamente agraciado. Enchemos os bolsos com cenas engraçadas – porque you make me fall out of bed – risos incontidos até as lágrimas surgirem. Entre tangos na Argentina e perrengues no Rio de Janeiro nossa bagagem foi se enchendo de contos e memórias.
Espero que você sempre saiba que pode contar comigo para qualquer coisa, que when the world gets too heavy put it on my back, que não importa as intempéries que surjam se estivermos juntos podemos passar por tudo, até porque somos incríveis. E modestos.
Espero também que sempre tell me if I’m wrong, tell me if I’m right. Acredite em mim, até quando eu disser que você ronca – porque sim, você ronca.

So I say thank you, I'm a lucky man, pois você me escolheu para estar contigo, para compartilhar suas histórias, para escrever mais, para cantar fora do tom, para dançar até sem música, para caçar ents em parques por aí, para estourar plástico bolha de madrugada, para te acompanhar em suas viagens. Para amar. E você sabe e eu sei que you make it real for me.


Amo você, minha linda moça encantadora.

Clique nos versos para ouvir as músicas.

Aquela noite

| quarta-feira, 18 de março de 2015

(…) People fall in love in mysterious ways
Maybe it's all part of a plan…

A vida da gente é cercada por deliciosos clichês que vez ou outra se aproximam de nós feito pequenos animais que perderam o medo do contato, mas os dois não sabiam disso. Ainda não.
Dos clichês que surgem há o dos desencontros antes do momento derradeiro, do trabalhar na mesma empresa e nunca se esbarrarem, do sumiço em uma festa de formatura e casos em que quase aconteceu. Como o prólogo dessa história.
Ele ficou sabendo por um amigo que o Terra Celta tocaria em um barzinho naquele outubro de 2013, logo não poderia perder. Ela também estava lá, mais ao fundo, distante do palco com suas amigas. O vocalista propôs uma brincadeira, para que os cavalheiros tomassem as damas como num antigo baile francês. E ele o fez:
- Me concede a honra dessa dança, mademoiselle? – perguntou ao seu amigo e ele aceitou, os dois valsaram ao som das risadas ao redor e ficaram extremamente surpresos ao ser o casal vencedor da melhor valsa.
Lá do fundo, ela soltou uma risada e comentou com uma amiga:
- Aquele louco é amigo de uma amiga minha.
Mas não era o dia de se esbarrarem. Ainda não.

As melhores histórias são aquelas que começam em dias do meio da semana, como numa terça-feira qualquer, sem pretensão de se tornarem grandiosas, mas com todo o potencial para tal. E foi assim que, de fato, essa história começou. Terça-feira, 18 de março de 2014. Uma noite qualquer. Mais uma vez aquele mesmo bar como cenário. Tocando um blues ou um jazz qualquer. Os personagens dessa história, porém, não são pessoas qualquer. Vamos a eles então.
Ele é um jovem rapaz carismático, daqueles que fazem os amigos darem risadas altas em momentos inoportunos, aquele tipo de cara que carrega nos olhos um brilho convidativo a ser amigo. Ela, por sua vez, é uma jovem moça encantadora, daquelas que sempre têm um sorriso no rosto, um jeito moleca que deixa tudo mais leve ao redor. Nenhum dos dois deveria estar lá naquela noite – ele trabalharia até tarde, ela não estava em clima de festa. Mas era o aniversário daquela amiga em comum, citada há alguns meses naquele mesmo local quando a música celta agitava a noite.
O destino, vestido de mais um clichê, com seu jeitinho misterioso de ser, fez com que ambos pudessem estar lá, tão próximos, mas ainda assim tão distantes, fora dos mesmos círculos que se criaram no local. Eles tinham apenas uma chance de se esbarrarem naquela noite fatídica e foi exatamente isso que aconteceu.
Entre copos de bebidas e risadas, ele se viu sozinho por um momento, encostado numa parede qualquer, em um canto qualquer, observando a multidão que o cercava. Entre idas ao toalete e pernas inquietas demais para ficar sentada, ela se viu parada no meio do caminho. E o olhar dos dois se encontrou – atravessou as pessoas que estavam na frente, silenciou a música que se desprendia dos saxofones e o barulho ambiente, desviou dos garçons que serviam e aquele instante foi só deles, mesmo que tenha durado um segundo apenas.
Ele então ergueu seu copo de chope num aceno qualquer, lançou-a um sorriso qualquer e aquilo foi o suficiente para que ela se aproximasse dele. Entre conversas de tempos que já se foram, de planos para o presente e desejos para o futuro, os dois se conectaram de uma maneira tão singular e inesperada, como se não fossem dois estranhos, mas velhos amigos que se reencontravam depois de um tempo distantes um do outro.
Aquele tempo só dos dois passou de modo tão despercebido que quando menos notaram ela já lhe acenava em despedida. Um beijo no rosto qualquer. Um “a gente se fala” qualquer. E uma pontinha de tristeza por querer que houvesse mais. Mais tempo, mais conversa jogada fora, mais sorrisos e mais simplicidade.

As melhores histórias começam assim, despretensiosas, carregadas com aquele gostinho de quero mais. E como eu disse, elas começam assim. Porque aquela terça-feira qualquer – naquele bar que sempre será o do primeiro encontro oficial – se tornou tudo menos uma coisa qualquer. Pois desde aquele dia em diante, a história desses dois personagens continua sendo escrita lindamente por diversos outros cenários, com outras trilhas sonoras e cheia de felicidade, risos e amor.


E hoje eles são imensamente felizes por compartilhar mais um daqueles deliciosos clichês: o de que as coisas acontecem quando têm que acontecer. No lugar certo, na hora certa.

Porque nem todo dia é o melhor dia do ano.

Das trilhas que percorremos e das histórias que contamos

| sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A palavra da vez é aprender. Não sabemos nem nunca vamos saber de tudo, nem de como as coisas funcionam, nem de todos os porquês, como, quando e onde, mas vamos continuar aprendendo. É o que se espera, afinal. Acredito que o aprendizado, assim como muita coisa da vida, é uma jornada por uma trilha desconhecida, na qual você consegue enxergar os passos que foram dados antes de você, pode ver as pegadas e vestígios daqueles que já passaram por ali, mas viver através do outro não é viver, é como assistir um filme antigo e não poder criar novas cenas, por isso acredito também que essa mesma trilha uma hora se fecha e você precisa inventar seu próprio caminho, aprender por si só. Viver por conta. Caminhar sem ninguém segurando sua mão.

Já que a analogia é a trilha, é preciso entender que se perder faz parte do trajeto, que nem mapas ou GPS podem te guiar por completo especialmente quando houver bifurcações na estrada, que contratempos e viradas em curvas erradas lhe aguardam sob cada pedra, somente esperando o momento certo de surgir e virar todo o seu plano de ponta-cabeça. Há que ter paciência - muita, diga-se de passagem -, tolerância e um bom humor dos mais altos para se passar por tudo sem perder a sanidade, teste este que será aplicado em cada passo torto e fora do caminho que você der. Até que você encontre o que procura ou até mais do que esperava, porque as trilhas tem essa coisa de mistério, de te fazer pensar que o destino final está logo ali, enquanto a caminhada até ele ainda seja longa, sinuosa e íngreme.

O cansaço vai se abater sobre você, a exaustão vai pesar nas suas costas, o suor vai escorrer pelo seu rosto, mas tudo isso também faz parte de seguir em busca das coisas, ninguém disse que a jornada seria fácil, disse? Ninguém sabe o peso que sua bagagem terá durante o percurso nem como alterada ela estará ao final - com perdas e ganhos -, assim como ninguém sabe quão persistente e forte você consegue ser até ser pressionado a o ser. E isso tudo faz parte da magia da descoberta, da ansiedade da surpresa, até da frustração por uma expectativa que nem deveria estar ali no seu ombro para começo de conversa.

Desejo então que você parta em sua trilha, que percorra os caminhos mais variados, que seja forte para suportar as adversidades, que coloque na mochila cada história que viver para compartilhá-la mais a frente no percurso, que o sorriso permaneça em seus lábios mesmo quando estiverem cansados demais para sorrir, que o riso escape de sua alma ao se recordar, que encontre pessoas dispostas a caminhar ao seu lado, ainda que você não seja a melhor companhia naquele momento, que as pegadas nas pedras te auxiliem pelas subidas e descidas, que você se perca. E acima de tudo, que encontre o caminho de volta, podendo até contar com a ajuda das borboletas, assim como eu.


Sorridentes, geralmente meu texto de final de ano vem antes de o ano terminar, porém por motivos de viagem aqui está ele, apenas alguns dias de atraso. E só para ficar registrado, é o texto de número 401  ~ yaaaaay. Então meu desejo de 2015 para todos é o aprendizado, que ele venha em suas mais diversas formas para que o novo seja celebrado, para que os erros não se repitam e que a experiência propicie novas aventuras pela frente, porque viver é um aprender constante e que sua jornada seja a melhor que você e seus pés possam ter. 
 

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