Keblinger

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Nem toda casa precisa ter chão

| quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Talvez você imaginaria que esta história é um tremendo clichê se eu começasse com “Billy não era como os outros garotos de sua idade”, o que não deixaria de ser verdade, devo lhe dizer a contragosto de querer ser o dono da razão, então vamos iniciar nossa história dessa maneira...

Billy sonhava em ser normal – certo, acho que com essa minha sentença de efeito estabelecemos um ponto mais interessante de conexão entre a gente, enfim perdoe-me pelos desvios no caminho, contudo toda boa história que se preze pega um atalho ou dois e faz até algumas paradas para recuperar o fôlego. Mas retornemos ao garoto Billy, sim?

Ele era pequeno para seus seis anos de idade, inteligente demais para o bem de suas raríssimas amizades e curioso o bastante para irritação dos adultos. Ele era daquele tipo de criança que não perdeu a criatividade em pintar árvores de azul e a grama de vermelho, fora ensinado que ao desenhar uma casa deveria fazer um risco para representar o chão... ora essa, toda casa tem que ter um chão, exceto talvez a casa muito engraçada, sim aquela da música que ele uma vez ouviu, mas lhe disseram para não dar muita bola.
Com seus poucos anos de vida, Billy já estava em seu segundo lar. Órfão desde seus primeiros dias de vida sempre imaginou que uma família era como seus desenhos de pessoas de palitinho, um papai, uma mamãe, ele e um cachorro, um gato também não seria uma má ideia. Ele nunca entendeu o motivo de ter perdido sua primeira família nem porque seu outro irmão que já estava na casa quando ele chegou gostava tanto de lhe dar tapas e beliscões. Nunca havia se queixado das implicâncias sofridas, pois sabia que reclamar demais não era bom.
Em sua segunda casa tinha um quarto só seu, cheio de brinquedos e solidão. Ouvia os sussurros das cortinas ao vento enquanto brincava com seus soldadinhos e mais ninguém. Olhava pela janela como um crítico encara uma pintura em um museu, esperando que a qualquer momento a paisagem daquele mundo emoldurado se derramasse sobre ele, mas nada nunca acontecia.
Mamãe vivia na casa ao lado fazendo qualquer coisa que gente grande faz na casa ao lado. Papai sempre sufocado naquele terno e enraizado no trabalho. Quando estavam juntos, Billy podia ouvir os gritos exaltados que vinham do outro quarto. Durante sua vida ele imaginou que mamães e papais não deveriam brigar um com o outro.
Talvez fosse culpa dele, ele logo pensou. Talvez se ele nunca tivesse deixado sua primeira casa nada daquilo estaria acontecendo. Talvez se ele nem mesmo tivesse nascido. Agora você entende o desejo insalubre que ele tinha por ser normal, embora ainda fosse chegar o dia em que ele se daria conta do quão patético querer isso havia sido, mas não avancemos muito na narrativa.

Estava frio naquela manhã em que decidiu apanhar seus lápis de cores, seu caderno de desenho e os brinquedos preferidos e botá-los em uma mala com rodinhas. Ele adorava esse tipo de mala que se podia deslizar para qualquer lugar.
Saiu de casa sentindo a brisa soprar seu rosto corado e arrastou-se pela cidade matinal, em busca de um motivo para não voltar e em busca de uma razão para não ter partido. Se ele encontrou isso naquela mesma manhã gelada? Posso te garantir que não.

Billy vagou até seus pés se cansarem e sentou-se num banco sujo de uma praça qualquer. Foi abordado por várias pessoas e apenas seguia seu caminho resoluto murmurando um “eu quero ser igual todo mundo e continuar desenhando casas sem chão”. Certamente que ele não foi muito longe até ser interceptado e mandado de volta contra sua vontade, contra sua normalidade.
Ele entendeu depois de um tempo que a maioria das coisas que aconteciam não aconteciam por sua causa e várias outras coisas estavam além de sua capacidade de solucioná-las. Dessa forma em sua terceira família – exatamente como em seu desenho – ele sentiu-se inserido em um mundo extraordinário em que ser normal era a última coisa que se deveria querer ou até mesmo se pensar. Com um pai escritor e uma mãe pianista ele aprendeu o poder das palavras e da música. E descobriu que crescer e levar uma vida fora de círculos padronizados eram as melhores coisas que haviam lhe acontecido.


Agora você deve estar se questionando como eu sei tanto sobre Billy, não é mesmo? Então encerro aqui minha história lhe afirmando que ele foi o melhor pai que eu poderia ter e o melhor professor para me ensinar que não se consegue muitas boas histórias daquilo que é normal demais.

Sobre o título do conto, entendam como preferir :)

Da arte de contar histórias

| terça-feira, 7 de outubro de 2014


(...) No nosso livro a nossa história
é faz de conta ou é faz acontecer?

Levantou os olhos para confirmar que ela ainda estava lá, para se assegurar que toda aquela realidade era de fato real, pois ele sabia que sonhos costumam ser bons, mas nada se comparava àquilo.

Desde pequeno aprendera que histórias são feitas para serem contadas, não apenas aprisionadas em estantes empoeiradas ou nas gavetas obscuras da mente. Elas foram feitas para serem ouvidas e mais do que isso, ele descobriu que tão mais importante do que aquilo que se conta, é a maneira como se faz. Colecionador de histórias dos mais variados estilos, comprimentos, cores e sabores, ele tornou-se aquilo que sempre fora destinado a ser: um contador de histórias. Um fazedor de contas. Um libertador das palavras.
Pessoas gostam de ouvir histórias também, mais até do que contá-las e ele sempre esteve por perto e disposto a peneirar suas favoritas e levá-las numa sacola para onde quer que fosse, as mantendo sempre por perto para quando fossem requisitadas. Viver de histórias lhe satisfazia, lhe tirava o peso de sobreviver em um mundo no qual muitos se esqueceram de compartilhar. Ele aprendeu a sorrir, rir, chorar, dançar e cantar, com tudo o que contava, mas o que faltava – ainda que não soubesse – o esperava em estradas mais a frente.

Tão inesperado quanto a reviravolta de um bom filme de suspense, o amor se aproximou dele sorrateiro e silencioso, pousou em seu ombro feito uma mariposa acanhada e por ali se aconchegou. Logo ele que já havia se conformado com o fato de ser apenas o contador e não protagonista se viu mergulhado na melhor história que jamais contou.
Tragado tão intensamente por aquela onda de sorrisos e suspiros, descobriu que nadar naquele mar de sensações não era como as pessoas contavam, pois não há como contar com tamanha veracidade aquilo que só o coração é capaz de sentir, as palavras se perdem em busca de tradução, as exclamações apenas exclamam tolamente e resta apenas viver. Viver a história que reuniu tudo de melhor das outras.

Como um bom contador de histórias, ele soube pegar fragmentos da essência para transformar em palavras que pudessem ser ouvidas. Soube escolher os melhores trechos e paradas, as melhores frases de efeito para contar a sua mais bela história. Para fazer outros olhos brilharem e se inspirarem.

Piscou algumas vezes, ainda incerto se a realidade podia ser tão confortante e sim, era. Ela ainda estava lá, ao alcance de suas mãos. E o melhor de tudo era saber que a história não acabava ali e que cada amanhecer é uma chance de criar novas memórias.


 

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