Keblinger

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A crise dos sem final

| sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sacudi aquelas nuvens cinzentas que flutuavam irritantemente sobre minha cabeça e rumei para meu banco preferido da praça, aquele debaixo da árvore mais frondosa que faz sombra com cheiro de primavera. Como observador do que se passa ao redor e correndo atrás da inspiração feito um cão de cauda curta demais para alcançar com os dentes, levei meu bloco de notas para rabiscar uma linha ou duas de possíveis histórias que possam se desenrolar diante dos meus olhos fatigados e insones.

Nesse quase fim de tarde, o sol ainda esbanja seu sorriso largo pelo céu, como um rei pomposo e cheio de si, poucas nuvens – brancas – como companhia e aquele azul intenso que parece tinta fresca espalhado por todo o horizonte. No banco, longe de ser confortável, sentei-me com o lápis na mão e pus-me a valsar com os olhos pela avenida em minha frente, atento ao som das buzinas raivosas, dos roncos dos motores e até do sibilar calmo do vento enquanto acaricia os galhos das árvores, tirando, vez ou outra, uma folha para dançar.
Meu semblante sério e nem um pouco convidativo deveria ser o suficiente para manter transeuntes simpáticos fora do meu caminho, mas um rapaz de vestes peculiares sentou-se ao meu lado esquerdo, encarando-me com uma expressão tão intensa que parecia conhecer cada cômodo de minha mente, como um antigo morador de posse da chave de sua antiga casa.
- Eu ainda estou esperando – ele disse, como se continuasse uma conversa inacabada.
Franzi a testa, encarei-o, dessa vez prestando mais atenção em sua figura atípica e grosseiramente familiar. Fechei os olhos com força, temendo que a insanidade tivesse se apoderado de vez de meu ser, tornei a abri-los e ele ainda estava lá. “Seus olhos redondos e negros, como poços carregados de segredos e de dor”, eram as palavras que eu usara para descrevê-los nas linhas de um livro que jamais teve continuação.
- Que tipo de brincadeira é essa? – perguntei e pude sentir a descrença pontuar cada palavra em minha voz trêmula.
- Eu é que deveria perguntar – ele contrapôs com irritação – Preciso de resolução, preciso saber o que vai acontecer comigo.
Meu protagonista não desviava seus olhos de mim, como era possível? Não ter terminado sua história sempre foi motivo de frustração e longas noites de insônia, sentindo-o me perseguir pelos corredores escuros dentro de minha cabeça, mas ali estava ele, exigindo seu final.
- Eu deixei o tempo me consumir de outras coisas, deixei você de lado, me desculpe – eu sabia que desculpas não eram o bastante e nem o que ele queria e mais ainda, sabia o quão insano eu estava sendo ao me desculpar para um personagem que tinha vagado, contra sua vontade, para as terras do esquecimento.
- Não aceito suas desculpas, não aceito seus argumentos, eu quero saber como vou terminar. Quero saber quais linhas se seguem àquele final absurdo no qual você fechou o livro, me deixando preso na maior dúvida da minha vida – não consegui ficar aborrecido com ele, afinal fora eu quem o dotara daquela personalidade forte e resoluta.
- Você quer que eu te conte o que vem a seguir? – indaguei, derrotado pelo cansaço e pela falta de disposição de discutir com alguém que nem deveria estar ali.
- Não, eu quero que você escreva.
Antes mesmo que eu pudesse dizer alguma coisa que não o satisfaria de modo algum, uma moça sentou-se ao meu lado direito, lançou um olhar severo em minha direção, acenou alegremente para meu personagem e falou:
- Eu preciso, necessito, careço da continuação do livro – cada verbo saía de sua boca com crescente intensidade – Preciso seguir com minha vida sabendo o que aconteceu com todos eles, depois daquele final, todo dia pego o livro para ver se surgiram mais páginas após o desfecho...
- Quem é você? – eu a interrompi desajeitadamente.
- Sou uma leitora desesperada – ela respondeu como se aquilo fosse a coisa mais evidente do mundo – Você não vê que ele precisa de um final? – ela apontou para meu personagem.
- Era sobre isso mesmo que estávamos falando – ele contou com um quê de pesar.
- O que está acontecendo aqui? Isso é alguma piada? Uma pegadinha?
- Achei que já tivéssemos passado dessa fase – meu personagem falou com um suspiro enfadonho.
- Nós só queremos saber como tudo vai acabar, você não acha que todos seus personagens e aquela trama de histórias interligadas merecem um fim digno? – a moça questionou com a voz chorosa.
- Eu sei que merecem, mas não sei como fazer isso...
- Escreva – os dois falaram em uníssono.
- Eu já tentei, mas...
- Você precisa tentar com mais afinco. – ela argumentou – “Ele sabia o que deveria fazer para seguir além daquele ponto. Ele sempre soube, porque estava dentro dele o tempo todo” – ela citou um trecho do livro.
- Você me fez assim, me fez parecido com você e eu não admito que desista, não agora – meu personagem falou e seu olhar acendeu em mim a chama de uma inspiração que já falhava em arder há muito tempo, senti minha mente girar e expandir de uma forma dolorosamente prazerosa – Apenas escreva – ele acrescentou e partiu sem dizer mais nada.
- Eu acredito em você – a moça disse sorrindo, passou os dedos delicadamente pelo meu ombro e também se afastou.

Retornei para casa com as folhas do bloco de anotações em branco, mas a mente repleta de linhas e parágrafos que precisavam ser despejados de mim. Sentei-me diante do teclado, a barrinha na tela piscou para mim como se dissesse que estava pronta para percorrer exaustivamente todo o perímetro das margens.
E eu escrevi.

Precisei me tornar personagem de minha própria história para compreender que, apesar de se refletir no exterior, a inspiração na verdade habita em mim. E minha realidade se funde e se confunde entre ser o escritor e o personagem.


Conto especial para o Dia do Escritor, pois há datas que merecem ser lembradas, merecem ser celebradas e merecem ser compartilhadas. Um parabéns a todos aqueles que nos enchem os olhos e nos pegam pelas mãos para viagens espetaculares em mundos inimagináveis. Um parabéns a todos aqueles que expandem nossos horizontes usando apenas suas palavras como ferramentas. Um parabéns a todos aqueles que escrevem para si, para os outros, para o jornal da empresa. Um parabéns até para aqueles escritores de gaveta que ainda não descobriram que as palavras precisam de liberdade para viver. E um obrigado também, a todos esses que chamamos de escritor e a você que está lendo isso aqui. 

4 sorrisos compartilhados:

{ Joyce Silva } at: 25 de julho de 2014 06:54 disse...

Escrever é como um dom, e parafraseando Tio Ben:"Todo grande dom vem com uma grande responsabilidade". Todos os escritores são também ávidos leitores e sabem como é sofrer aguardando uma continuação de uma ótima história, apenas para variar um pouco (rsrs) você relatou muito bem as três partes, acredito que todos devemos saber o final das histórias.

Parabéns pela escrita incrível e pela mente insanamente criativa, seus textos sempre nos deixam com gosto de quero mais.

E, por último, que você, além de criar histórias as viva intensamente, desejo que "todas as suas histórias sejam felizes e que todas as suas estradas sejam desimpedidas e curtas" Patrick Rothfuss.

Parabéns!

{ Jota Pimentel } at: 25 de julho de 2014 08:33 disse...

"Apenas escreva". Às vezes isso parece uma tarefa tão difícil, sabe? Mas é aí que a vida surpreende, as coisas acontecem e a inspiração vem. Tomando posse de suas ideias, a verdade é que ela sempre existiu aqui, dentro de nós.

Gostei demais desse conto, me vi totalmente nele.

Feliz dia do escritor, Rodolpho. Parabéns a nós :)

{ Thuan Carvalho } at: 25 de agosto de 2014 17:39 disse...

escrevamos!

{ Felipe Gonçalves de Santana } at: 13 de novembro de 2014 02:24 disse...

Que conto maravilhoso!!! Amei, é de grande ajuda, principalmente para escritores que tem em si o desejo de finalizar seus projetos, porém se acomodam ao bloqueio criativo.

 

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