Keblinger

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O espetáculo da vida alheia

| quarta-feira, 5 de março de 2014


- Olhe só, lá vai aquele afeminado do filho da Lúcia, que roupa mais extravagante é aquela? Deus me livre! – Ofélia murmurou consigo mesma enquanto observava o rapaz por detrás da cortina da janela da frente. Achava um descaramento o menino andar com calças jeans tão apertadas e camisetas com estampas coloridas demais para dias comuns – Não sei como ele não tem vergonha.
Perdeu-o de vista logo a tempo de ver Lucília encostar-se à fachada da casa, do outro lado da rua, com um livro na mão.
- Aquela é outra tonta solitária, não desgruda a cara dos livros e acha que vai encontrar um namorado, coitadinha! – a velha resmungou e soltou estalidos de desaprovação com a boca.
A televisão estava sintonizada em um canal que vivia à custa de fofocas sobre celebridades, comentando os deslizes e comportamentos imorais dos famosos. A velha lançou o olhar por cima do ombro e viu na manchete a foto de uma atriz que havia sido pega traindo o marido com o diretor da novela, que obviamente também era casado.
Ofélia perdeu o interesse na moça e seu livro quando o solteirão da rua com seus trinta e poucos anos passou caminhando pela calçada.
- Este é outro que deve jogar no mesmo time do menino da Lúcia, já vi os dois de papinho numa noite dessas... solteiro nessa idade, não pode ser um bom sujeito – o homem fora o último a se mudar para a rua, ainda se via perdido e não conhecia quase ninguém, mas era educado com todos – Pobre Lucília! – a velha exclamou ao perceber o olhar encabulado que a moça jogava ao rapaz.
Mudou de posição no sofá, suas costas começavam a doer, mas continuou a observar como sempre fazia. Observava e comentava com seus botões que concordavam em silêncio com tudo que ela dizia.
- Aquele ali anda traindo a coitada da Paula...
- Sr. Odilon descobriu que está com câncer de próstata, Deus o ajude!
- Olhe lá, a Beth tentou imitar o corte de cabelo da mocinha da novela e ficou parecendo uma maritaca depenada...
- Olha o drogado do filho da Rosana. Deus me livre!
- Quem é aquele moço conversando com a Tina? Só pode ser mais um rolo dessa safada!
A TV exibiu outro caso de adultério, uma prisão por posse de drogas e o acidente de um cantor que dirigia embriagado. Ofélia murmurava ininteligível ao ouvir cada história.
- Já fiquei sabendo que a Adriana está querendo o divórcio, aquele marido dela não pode ver um rabo de saia que já fica todo assanhado...
- A nova namorada do Luquinha é uma gracinha, mas é tão burrinha, coitada...
Assim Dona Ofélia passava as manhãs antes do almoço, as tardes antes do chá e a noitinha antes da janta, observando analiticamente as pessoas que viviam ao seu redor. Quando ia para cama comentava com seu velho suas teorias mais interessantes e interpretava suas respostas monossilábicas como um sinal de apoio.


- Apareceu uma mocinha hoje, lá pelas quatro horas querendo me fazer umas perguntas, disse que era de um tal de IBGE. Aqui pra ela – disse Ofélia ao marido e fez um gesto com os braços – Não quero ninguém se metendo na minha vida. Deus me livre!

Diferente do que costumo escrever, essa foi uma crônica/crítica do cotidiano e daquelas pessoas que adoram cuidar mais da vida dos outros do que das próprias.

Lucília tem uma história só dela, clique no nome da moça e dê uma espiada também

7 sorrisos compartilhados:

{ Hilza de Oliveira } at: 5 de março de 2014 23:50 disse...

Preocupou-se tanto em cuidar da vida dos outros que esqueceu-se da própria.
Ótimas observações!

{ Emi } at: 6 de março de 2014 02:02 disse...

Fiquei pensando na quantidade de Ofélias que vejo por aí. Ótimo texto, Rodolpho, uma crítica com um excelente toque de humor.
Engraçado que é sempre assim, né? Se metem tanto na vida dos outros e nem sentem. Fico me perguntando se em algum momento a ficha dessas pessoas cai, tipo: ''Chega. Hora de cuidar da minha vida um pouco.'' Enfim, só levando a coisa com humor mesmo.

Beijo!

{ Sara Raquel } at: 6 de março de 2014 14:25 disse...

Fiquei aqui imaginando que tem grandes chances da dona Ofélia ser moradora aqui da minha rua. Ou melhor, toda rua tem uma Ofélia. Mais um texto muito bom, Rod. Adorei o final, dei uma risadinha gostosa.
Beijos.

{ Mariana Leal } at: 6 de março de 2014 21:06 disse...

Creio que essa dona Ofélia seja minha vizinha rs

{ Graziele Santos } at: 18 de março de 2014 14:16 disse...

Como diz a Globo: A vida alheia é mais interessante que a sua. (Eles fizeram um seriado com esse nome se não me engano) rs

{ Ariela } at: 12 de abril de 2014 12:45 disse...

E não basta apenas querer saber da vida alheia, precisa-se fazer isso com um tom de julgamento.
No fim, Dona Ofélia é a típica pessoa que "faz para os outros o que não gostaria que fizessem para si".
Fiquei muito feliz em voltar aqui no seu blog, muito bom texto!
Um beijo

{ Skyline Spirit } at: 18 de abril de 2014 20:01 disse...

pretty nice blog, following :)

 

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