Keblinger

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Céu de champanhe

| quarta-feira, 15 de janeiro de 2014


(...) Vem cuidar de mim, vamos ver um filme,
ter dois filhos, ir ao parque, discutir Caetano.
Planejar bobagens.
E morrer de rir.

Revisitei as lembranças como quem, anos depois, entra novamente na primeira casa em que morou. Assoprei o pó da velha mobília, que dançou pelo ar e enroscou-se em mim como uma cortina dada a abraços inesperados. Arrastei os sapatos pelo assoalho batido, arranhando o antigo chão pisado e lambido pela solidão. Agarrei pelo cangote aquela memória ofuscada que fugia por debaixo do lusco-fusco na pontinha dos pés.
Observei, como quem vê o nascer do sol pela primeira vez, você surgir por detrás do véu do tempo, tão mais nova, cabelos sorridentes ao toque da luz, me olhando encabulada, daquele jeito de menina que tem vergonha de dizer o que está pensando. Fiz um gesto para que se aproximasse e você veio, os olhos brilhando acima de qualquer constelação.

- Ei, onde você estava? – ela me perguntou, roubando-me de meu devaneio com gosto de mel.
- Dei um pulo no passado e te conheci mais uma vez – respondi.
- Ah, é?! E o que você me trouxe de presente de lá? – seus olhos me sorriram ao perguntar.
- Trouxe para você uma pétala que apanhei ao vento, só para fazer cócegas no seu dia morno.
- É um belo presente, obrigada, seu moço.
- Não por isso, minha moça.

Deixei-me levar pelo som de seu riso suave e flutuei até as nuvens de algodão-doce. Seu toque quente abrasava minha pele como a própria paixão incandescente em meu peito fervilhava por minhas veias.
Não me ensinaram na escola que o tal do verbo amar podia ser tão delicioso de se conjugar, também não me disseram que uma vida no plural tivesse um perfume tão penetrante. Aprendi essas lições básicas com ela, minha paciente professora que me tomava pela mão e recitava o abc do amor, de um modo meio inseguro, como um piloto se encorajando em seu primeiro voo solo.

- Onde estava você naqueles meus dias frios de solitude? – indaguei.
- Parada na mesma esquina de sempre, só que a alguns quarteirões no futuro.
- Se eu tivesse te encontrado antes, minha moça, poderíamos ter colecionado muito mais recordações.
- Temos uma vida toda pela frente – ela argumentou vestida de convicção – e o que não acontecer, a gente inventa – acrescentou contendo um sorriso travesso.
- Que não nos falte vida nem criatividade então – segurei uma taça invisível no alto e ela brindou a isso.

O crepúsculo manchou o céu num tom de rosa escuro como se um deus desastrado tivesse derramado uma garrafa de champanhe rosé lá pelas bandas do horizonte. O sol já murmurava um inconsolável até logo e algumas estrelas mais ousadas espiavam atrás da cortina, esperando impacientes sua vez de entrar em cena.
Ela soprou algo que não estava em sua mão e fingiu observar a coisa desaparecer de vista.

- Deixe a pétala cavalgar no vento – ela explicou ao ver minha testa franzida – Meu maior presente é ter você comigo, seu moço.
- Que ela seja muito feliz em sua corrida – acenei um breve adeus à pétala que somente nossos olhos podiam ver – assim como eu sou feliz ao seu lado.
Brindamos novamente e deixei-me cair em seus braços e mergulhar em seus lábios num beijo com gosto de tardes de outono. Apertei os olhos e guardei aquele momento no bolso para saboreá-lo em outros dias, como o último pedaço de um bolo de aniversário que a gente come a pequenas mordidas na esperança de fazê-lo durar.


E que dure por muito tempo. 
Um brinde a isso. 

Minha pessoa preferida

| segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

(...) Eu tenho mil amigos,
mas você foi o meu melhor namorado...

Até algum tempo atrás eu poderia jurar que se houvesse eternidade eu a passaria ao seu lado, mas nunca podemos prever os rumos que a vida vai tomar nem as decisões que faremos.

Nunca vou me esquecer de como nos conhecemos, tão ao acaso naquela festa de final de ano, onde poucos amigos me sorriam e então ele surgiu vestido com uma camisa branca, bermuda azul cor de céu limpo e chinelos, totalmente diferente de todos os outros naquele lugar elegante. Sorriu para mim, desejou-me um simpático “feliz ano-novo” e ergueu a taça de champanhe brindando com o vento, devolvi o sorriso, o cumprimento e exibi meu copo com refrigerante. Tão simples.
Conversamos por horas a fio, ignorando completamente os demais presentes. Ele era educado, engraçado e charmoso. Discutimos nossos gostos em comum e puxa vida!, como tínhamos vários. Eu gostava de música clássica e ele tocava piano, sou fã de O Senhor dos Anéis e ele tinha a versão estendida do filme, adoro animais e ele tinha dois cachorros em casa.
Depois daquele dia passamos a nos ver com frequência. Quase me afoguei babando quando ele tocou uma composição sua só para mim, passei as mais longas e perfeitas horas a seu lado assistindo a gigantesca versão dos filmes e as mais lindas tardes no parque caminhando com seus cães.
Não me lembro de gostos de sorrisos mais doces do que os que provei enquanto estive com ele. Minha família gostou dele, como não poderia ser o contrário e a família dele também gostou de mim. Lembro-me de tantos detalhes que preferia esquecer. Lembro-me do seu cheiro que se tornou parte de mim depois de tantos abraços, lembro-me do seu sabor depositado em cada beijo, lembro-me de cada pequeno fragmento dos tempos mais felizes de minha vida.

Não sei dizer se o tempo não foi certo, se nossos caminhos estavam traçados nas contas do destino até certo ponto ou se nossa história ainda está sendo guardada para mais tarde, não sei nada disso, apenas sei que houve desgaste, houve lágrimas e frustração. Sei que ele e eu não estamos mais juntos e não há tantos motivos que provem o porquê disso. Também não posso dizer se é melhor assim, não me acostumo a vê-lo com outras.
Ainda que nossa história jamais volte a preencher a mesma página, eu sempre vou levá-lo no peito, como um sonho bom, dos quais não queremos acordar.

Mesmo que eu prove outros sabores, ele vai ser sempre o meu favorito. O meu sorriso mais bonito. A minha lembrança mais delicada.

(...) Depois de você, os outros são os outros e só.
 

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