Keblinger

Keblinger

Que gire em espiral

| sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Coincidentemente  todo ano nesta mesma data eu vou ficando mais velho – mais esperto que Einstein ao fazer essa constatação, só que ao contrário. Mas enfim, essa coisa de fazer anos é algo interessante, aparecem todos aqueles velhos amigos que raramente ou nunca lhe acenam um olá para lhe desejar felicitações (talvez seja também, no meu caso, esse espírito de final de ano que faz todo mundo ser legal e companheiro), mas não estou reclamando, é legal rever velhos rostos e redescobrir velhas lembranças. Da mesma forma aqueles novos amigos de data também surgem com seus desejos e recordações de breves momentos que já se foram. Obrigado por eles também. Que o velho se cultive e o novo permaneça verde até que a próxima estação chegue.

Sou daquelas pessoas fáceis de agradar, de fazer sorrir e rir – talvez minha personalidade bêbada (hic) tenha algo a ver com isso – então desdobro logo um sorriso ao receber uma mensagem ou ligação de um velho ou novo amigo que tirou seu tempo, que poderia estar fazendo algo melhor, para vir me dar um olá com as graças que aniversários trazem na mala.


Esse ciclo que completa um giro, mas não se fecha, como em espiral, chegou naquele ponto derradeiro do “é isso, mais um ano nas costas” e foi um giro muito bom, devo dizer. Achamos que vamos ficando mais sábios nessas datas, cheio de querer usar belas palavras para dizer o que de mais simples há no coração. Portanto deixo aqui minha gratidão à vida, ao universo e tudo mais por ter me presenteado com esse mais um ano recheado de histórias pra contar. E que melhor presente para um contador de história do que uma delas? 

Sobre a imagem: hoje é aniversário do meu bebê também e porque sim!

Esparr[amar]

| terça-feira, 11 de novembro de 2014

Era um homem que fora menino,
que uma vez pequenino sonhou com o amor,
mas seguiu seu caminho sozinho
partindo do ninho feito beija-flor.
Namorou devagar e mansinho,
porém em seu peito jamais encontrou
um sentido pr'aquele carinho
que era vazio, então se desencantou.
Passeou pelo mar e por terra,
e seu sorriso tolo, ele semeou.
Já sabido que o tal do cupido
de óculos perdidos seu coração não acertou.

O menino agora crescido
entendeu que o destino não lhe abandonou.
Era o seu dever ser cumprido de queixo erguido,
conquistar o amor.
Sendo assim, de cessar sua busca ele logo tratou,
pois o homem por ser distraído
nos dias corridos um dia encontrou
tudo aquilo que fora pedido,
e até bem sabido que nunca precisou.

Esse homem de olhar destemido
pelos cantos sumidos seus olhos lançou.
Bem vestida de um jeito bonito,
toda sua atenção ela capturou.
E o seu par de sorriso perdido
assim timidamente lhe acenou.
Foi então que em seu peito abatido
tudo aquilo querido se esparr[amou].

Das produções de um noite de insônia.
Sorridentes queridos, semana passada o blog completou 5 anos de postagens e eu, sendo um blogueiro relapso que sou, não celebrei devidamente essa data. Queria apenas agradecer a quem ainda se perde na estrada e vem parar aqui em casa. O tempo ~ sempre ele ~ me priva de escrever (exceto em momentos insones), mas sempre que der surpreendo vocês com uma postagem nova. Um grande abraço!

Nem toda casa precisa ter chão

| quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Talvez você imaginaria que esta história é um tremendo clichê se eu começasse com “Billy não era como os outros garotos de sua idade”, o que não deixaria de ser verdade, devo lhe dizer a contragosto de querer ser o dono da razão, então vamos iniciar nossa história dessa maneira...

Billy sonhava em ser normal – certo, acho que com essa minha sentença de efeito estabelecemos um ponto mais interessante de conexão entre a gente, enfim perdoe-me pelos desvios no caminho, contudo toda boa história que se preze pega um atalho ou dois e faz até algumas paradas para recuperar o fôlego. Mas retornemos ao garoto Billy, sim?

Ele era pequeno para seus seis anos de idade, inteligente demais para o bem de suas raríssimas amizades e curioso o bastante para irritação dos adultos. Ele era daquele tipo de criança que não perdeu a criatividade em pintar árvores de azul e a grama de vermelho, fora ensinado que ao desenhar uma casa deveria fazer um risco para representar o chão... ora essa, toda casa tem que ter um chão, exceto talvez a casa muito engraçada, sim aquela da música que ele uma vez ouviu, mas lhe disseram para não dar muita bola.
Com seus poucos anos de vida, Billy já estava em seu segundo lar. Órfão desde seus primeiros dias de vida sempre imaginou que uma família era como seus desenhos de pessoas de palitinho, um papai, uma mamãe, ele e um cachorro, um gato também não seria uma má ideia. Ele nunca entendeu o motivo de ter perdido sua primeira família nem porque seu outro irmão que já estava na casa quando ele chegou gostava tanto de lhe dar tapas e beliscões. Nunca havia se queixado das implicâncias sofridas, pois sabia que reclamar demais não era bom.
Em sua segunda casa tinha um quarto só seu, cheio de brinquedos e solidão. Ouvia os sussurros das cortinas ao vento enquanto brincava com seus soldadinhos e mais ninguém. Olhava pela janela como um crítico encara uma pintura em um museu, esperando que a qualquer momento a paisagem daquele mundo emoldurado se derramasse sobre ele, mas nada nunca acontecia.
Mamãe vivia na casa ao lado fazendo qualquer coisa que gente grande faz na casa ao lado. Papai sempre sufocado naquele terno e enraizado no trabalho. Quando estavam juntos, Billy podia ouvir os gritos exaltados que vinham do outro quarto. Durante sua vida ele imaginou que mamães e papais não deveriam brigar um com o outro.
Talvez fosse culpa dele, ele logo pensou. Talvez se ele nunca tivesse deixado sua primeira casa nada daquilo estaria acontecendo. Talvez se ele nem mesmo tivesse nascido. Agora você entende o desejo insalubre que ele tinha por ser normal, embora ainda fosse chegar o dia em que ele se daria conta do quão patético querer isso havia sido, mas não avancemos muito na narrativa.

Estava frio naquela manhã em que decidiu apanhar seus lápis de cores, seu caderno de desenho e os brinquedos preferidos e botá-los em uma mala com rodinhas. Ele adorava esse tipo de mala que se podia deslizar para qualquer lugar.
Saiu de casa sentindo a brisa soprar seu rosto corado e arrastou-se pela cidade matinal, em busca de um motivo para não voltar e em busca de uma razão para não ter partido. Se ele encontrou isso naquela mesma manhã gelada? Posso te garantir que não.

Billy vagou até seus pés se cansarem e sentou-se num banco sujo de uma praça qualquer. Foi abordado por várias pessoas e apenas seguia seu caminho resoluto murmurando um “eu quero ser igual todo mundo e continuar desenhando casas sem chão”. Certamente que ele não foi muito longe até ser interceptado e mandado de volta contra sua vontade, contra sua normalidade.
Ele entendeu depois de um tempo que a maioria das coisas que aconteciam não aconteciam por sua causa e várias outras coisas estavam além de sua capacidade de solucioná-las. Dessa forma em sua terceira família – exatamente como em seu desenho – ele sentiu-se inserido em um mundo extraordinário em que ser normal era a última coisa que se deveria querer ou até mesmo se pensar. Com um pai escritor e uma mãe pianista ele aprendeu o poder das palavras e da música. E descobriu que crescer e levar uma vida fora de círculos padronizados eram as melhores coisas que haviam lhe acontecido.


Agora você deve estar se questionando como eu sei tanto sobre Billy, não é mesmo? Então encerro aqui minha história lhe afirmando que ele foi o melhor pai que eu poderia ter e o melhor professor para me ensinar que não se consegue muitas boas histórias daquilo que é normal demais.

Sobre o título do conto, entendam como preferir :)

Da arte de contar histórias

| terça-feira, 7 de outubro de 2014


(...) No nosso livro a nossa história
é faz de conta ou é faz acontecer?

Levantou os olhos para confirmar que ela ainda estava lá, para se assegurar que toda aquela realidade era de fato real, pois ele sabia que sonhos costumam ser bons, mas nada se comparava àquilo.

Desde pequeno aprendera que histórias são feitas para serem contadas, não apenas aprisionadas em estantes empoeiradas ou nas gavetas obscuras da mente. Elas foram feitas para serem ouvidas e mais do que isso, ele descobriu que tão mais importante do que aquilo que se conta, é a maneira como se faz. Colecionador de histórias dos mais variados estilos, comprimentos, cores e sabores, ele tornou-se aquilo que sempre fora destinado a ser: um contador de histórias. Um fazedor de contas. Um libertador das palavras.
Pessoas gostam de ouvir histórias também, mais até do que contá-las e ele sempre esteve por perto e disposto a peneirar suas favoritas e levá-las numa sacola para onde quer que fosse, as mantendo sempre por perto para quando fossem requisitadas. Viver de histórias lhe satisfazia, lhe tirava o peso de sobreviver em um mundo no qual muitos se esqueceram de compartilhar. Ele aprendeu a sorrir, rir, chorar, dançar e cantar, com tudo o que contava, mas o que faltava – ainda que não soubesse – o esperava em estradas mais a frente.

Tão inesperado quanto a reviravolta de um bom filme de suspense, o amor se aproximou dele sorrateiro e silencioso, pousou em seu ombro feito uma mariposa acanhada e por ali se aconchegou. Logo ele que já havia se conformado com o fato de ser apenas o contador e não protagonista se viu mergulhado na melhor história que jamais contou.
Tragado tão intensamente por aquela onda de sorrisos e suspiros, descobriu que nadar naquele mar de sensações não era como as pessoas contavam, pois não há como contar com tamanha veracidade aquilo que só o coração é capaz de sentir, as palavras se perdem em busca de tradução, as exclamações apenas exclamam tolamente e resta apenas viver. Viver a história que reuniu tudo de melhor das outras.

Como um bom contador de histórias, ele soube pegar fragmentos da essência para transformar em palavras que pudessem ser ouvidas. Soube escolher os melhores trechos e paradas, as melhores frases de efeito para contar a sua mais bela história. Para fazer outros olhos brilharem e se inspirarem.

Piscou algumas vezes, ainda incerto se a realidade podia ser tão confortante e sim, era. Ela ainda estava lá, ao alcance de suas mãos. E o melhor de tudo era saber que a história não acabava ali e que cada amanhecer é uma chance de criar novas memórias.


Sorrisos de desjejum

| segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Acordei com a claridade sorrateira do sol que se esgueirava quarto adentro como se fosse uma convidada há muito esperada, o que não era o caso, embora eu goste desse frescor que as manhãs trazem nos bolsos, desse vento frio que brinca de bagunçar os cabelos e levantar os pelos num arrepio delicado. Gosto ainda mais quando essas mesmas manhãs me trazem seu sabor em forma de beijos e abraços apertados numa sutileza que só você possui.

Sorrio involuntariamente ao ver sua silhueta recortada debaixo das cobertas, os olhos ainda cerrados e a mente presa em um sonho qualquer que logo será esquecido, passo um segundo eternizando esse momento, temendo que o tempo se apresse em vir e se apodere dele. Fecho meus próprios olhos e te vejo em minha retina, nitidamente, como um retrato perfeitamente real.
Respiro silenciosamente para não te despertar, faço movimentos vagarosos ao sair da cama e andando nas pontas dos pés me arrasto até a cozinha para preparar nosso café.

Lá fora um pássaro possuído pela alegria de sua liberdade de voo canta animadamente os versos que aprendeu a compor para a natureza, a claridade já se esparramara pela casa toda, varrendo o chão e as paredes com seu manto amarelado e ofuscante.

Volto ao quarto e te pego se movendo enquanto o sono resiste em te deixar, você então se espreguiça pela cama toda e abre os olhos bem pequenos por conta da luz, sorri para mim e nesse instante eu percebo que se o tempo tivesse a decência de parar, eu não me importaria de ficar preso nessa cena.

- Café? – pergunto.

- Café – você diz e dentro de mim um coração sorridente se enche de alegria só por te ter por perto.

A crise dos sem final

| sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sacudi aquelas nuvens cinzentas que flutuavam irritantemente sobre minha cabeça e rumei para meu banco preferido da praça, aquele debaixo da árvore mais frondosa que faz sombra com cheiro de primavera. Como observador do que se passa ao redor e correndo atrás da inspiração feito um cão de cauda curta demais para alcançar com os dentes, levei meu bloco de notas para rabiscar uma linha ou duas de possíveis histórias que possam se desenrolar diante dos meus olhos fatigados e insones.

Nesse quase fim de tarde, o sol ainda esbanja seu sorriso largo pelo céu, como um rei pomposo e cheio de si, poucas nuvens – brancas – como companhia e aquele azul intenso que parece tinta fresca espalhado por todo o horizonte. No banco, longe de ser confortável, sentei-me com o lápis na mão e pus-me a valsar com os olhos pela avenida em minha frente, atento ao som das buzinas raivosas, dos roncos dos motores e até do sibilar calmo do vento enquanto acaricia os galhos das árvores, tirando, vez ou outra, uma folha para dançar.
Meu semblante sério e nem um pouco convidativo deveria ser o suficiente para manter transeuntes simpáticos fora do meu caminho, mas um rapaz de vestes peculiares sentou-se ao meu lado esquerdo, encarando-me com uma expressão tão intensa que parecia conhecer cada cômodo de minha mente, como um antigo morador de posse da chave de sua antiga casa.
- Eu ainda estou esperando – ele disse, como se continuasse uma conversa inacabada.
Franzi a testa, encarei-o, dessa vez prestando mais atenção em sua figura atípica e grosseiramente familiar. Fechei os olhos com força, temendo que a insanidade tivesse se apoderado de vez de meu ser, tornei a abri-los e ele ainda estava lá. “Seus olhos redondos e negros, como poços carregados de segredos e de dor”, eram as palavras que eu usara para descrevê-los nas linhas de um livro que jamais teve continuação.
- Que tipo de brincadeira é essa? – perguntei e pude sentir a descrença pontuar cada palavra em minha voz trêmula.
- Eu é que deveria perguntar – ele contrapôs com irritação – Preciso de resolução, preciso saber o que vai acontecer comigo.
Meu protagonista não desviava seus olhos de mim, como era possível? Não ter terminado sua história sempre foi motivo de frustração e longas noites de insônia, sentindo-o me perseguir pelos corredores escuros dentro de minha cabeça, mas ali estava ele, exigindo seu final.
- Eu deixei o tempo me consumir de outras coisas, deixei você de lado, me desculpe – eu sabia que desculpas não eram o bastante e nem o que ele queria e mais ainda, sabia o quão insano eu estava sendo ao me desculpar para um personagem que tinha vagado, contra sua vontade, para as terras do esquecimento.
- Não aceito suas desculpas, não aceito seus argumentos, eu quero saber como vou terminar. Quero saber quais linhas se seguem àquele final absurdo no qual você fechou o livro, me deixando preso na maior dúvida da minha vida – não consegui ficar aborrecido com ele, afinal fora eu quem o dotara daquela personalidade forte e resoluta.
- Você quer que eu te conte o que vem a seguir? – indaguei, derrotado pelo cansaço e pela falta de disposição de discutir com alguém que nem deveria estar ali.
- Não, eu quero que você escreva.
Antes mesmo que eu pudesse dizer alguma coisa que não o satisfaria de modo algum, uma moça sentou-se ao meu lado direito, lançou um olhar severo em minha direção, acenou alegremente para meu personagem e falou:
- Eu preciso, necessito, careço da continuação do livro – cada verbo saía de sua boca com crescente intensidade – Preciso seguir com minha vida sabendo o que aconteceu com todos eles, depois daquele final, todo dia pego o livro para ver se surgiram mais páginas após o desfecho...
- Quem é você? – eu a interrompi desajeitadamente.
- Sou uma leitora desesperada – ela respondeu como se aquilo fosse a coisa mais evidente do mundo – Você não vê que ele precisa de um final? – ela apontou para meu personagem.
- Era sobre isso mesmo que estávamos falando – ele contou com um quê de pesar.
- O que está acontecendo aqui? Isso é alguma piada? Uma pegadinha?
- Achei que já tivéssemos passado dessa fase – meu personagem falou com um suspiro enfadonho.
- Nós só queremos saber como tudo vai acabar, você não acha que todos seus personagens e aquela trama de histórias interligadas merecem um fim digno? – a moça questionou com a voz chorosa.
- Eu sei que merecem, mas não sei como fazer isso...
- Escreva – os dois falaram em uníssono.
- Eu já tentei, mas...
- Você precisa tentar com mais afinco. – ela argumentou – “Ele sabia o que deveria fazer para seguir além daquele ponto. Ele sempre soube, porque estava dentro dele o tempo todo” – ela citou um trecho do livro.
- Você me fez assim, me fez parecido com você e eu não admito que desista, não agora – meu personagem falou e seu olhar acendeu em mim a chama de uma inspiração que já falhava em arder há muito tempo, senti minha mente girar e expandir de uma forma dolorosamente prazerosa – Apenas escreva – ele acrescentou e partiu sem dizer mais nada.
- Eu acredito em você – a moça disse sorrindo, passou os dedos delicadamente pelo meu ombro e também se afastou.

Retornei para casa com as folhas do bloco de anotações em branco, mas a mente repleta de linhas e parágrafos que precisavam ser despejados de mim. Sentei-me diante do teclado, a barrinha na tela piscou para mim como se dissesse que estava pronta para percorrer exaustivamente todo o perímetro das margens.
E eu escrevi.

Precisei me tornar personagem de minha própria história para compreender que, apesar de se refletir no exterior, a inspiração na verdade habita em mim. E minha realidade se funde e se confunde entre ser o escritor e o personagem.


Conto especial para o Dia do Escritor, pois há datas que merecem ser lembradas, merecem ser celebradas e merecem ser compartilhadas. Um parabéns a todos aqueles que nos enchem os olhos e nos pegam pelas mãos para viagens espetaculares em mundos inimagináveis. Um parabéns a todos aqueles que expandem nossos horizontes usando apenas suas palavras como ferramentas. Um parabéns a todos aqueles que escrevem para si, para os outros, para o jornal da empresa. Um parabéns até para aqueles escritores de gaveta que ainda não descobriram que as palavras precisam de liberdade para viver. E um obrigado também, a todos esses que chamamos de escritor e a você que está lendo isso aqui. 

Sonhos de inverno

| terça-feira, 1 de julho de 2014

(…) Who are we?
Just a spack of dust within the galaxy?

(…) But are we all lost stars
Trying to light up the dark…

Julho veio com a promessa de um inverno cálido, ainda com o toque ameno do outono que virou a esquina não tem muito tempo. Outono que a trouxe até mim, que depositou toda sua boa-venturança em minha porta através de seus olhos sorridentes.

Quem sou eu para sorrir todos os sorrisos do universo? Para brincar de colecionar pequenas alegrias num balde que já transborda? Para sentir toda a beleza das constelações na poeira da ventania? Quem é ela para me dar todo o sabor doce das flores? Para arrancar o sol de seu horizonte imaginário? Para me trazer a realidade mais sonhadora que pudesse haver?

Talvez sejamos feitos de sonhos, de pedaços inconscientes que vagam pelo mundo buscando sua própria resposta perdida em um grão de areia. Talvez seja tudo um faz-de-contas muito bem elaborado, cujas linhas são tão bem enlaçadas que não importa se é real ou não. Talvez o bater de asas de uma borboleta realmente possa causar um tufão do outro lado do mundo.

Outro dia assisti a dança de um beija-flor, tão singelo em seu voo, tão delicado em sua mera existência que me bastou apenas ele e seu carinho pelas cores das pétalas para me fazer sorrir. Há um mundo pequenino ao nosso redor que nos escapa aos olhos. Há um caminho mais suave para seguir, escondido das vistas cansadas e daqueles que escolheram não acreditar mais. O descrer também é belo, devo dizer, ele traz a leveza do não esperar, o encanto do surpreender-se e até a dúvida do que pode vir a ser.

Talvez, quem sabe, não esteja tudo conectado com o nada, no final das contas. Talvez as perguntas erradas estão sendo feitas. Talvez o próprio talvez busque uma definição mais apropriada para o seu não saber ser o que é, como todos nós, pobres mortais.

Quem sou eu para ter ganhado tamanha felicidade ao encontrá-la? Para descobrir novos sentidos nas canções que até mesmo os pássaros hão de cantar? Para valsar por baixo do arco-íris ainda que a chuva não venha? Quem é ela para me presentear com as sensações mais brandas que existem? Para cariciar em meu peito um coração fatigado de bater sozinho? Para roubar-me de mim em sua órbita viciante?

Julho veio com o deleite da felicidade, com as expectativas de amanhãs mais coloridos e menos nublados. Trazendo no inverno o calor de seus abraços. O fulgor de seus beijos. A incandescência que vaza de seus olhos enquanto olha para mim.


Que a realidade não demore a bater em minha porta.

Dos dias que não são mais os mesmos

| domingo, 4 de maio de 2014

♫ (…) Oh, won't you stay with me?
Cause you're all I need…

Foi com um sorriso que tudo começou.

Ele sempre fora um rapaz fora do eixo, acreditava que viver uma vida dentro de esferas não era bem viver. Ele então fugia de todos os padrões que conseguia e exatamente por ser assim acabou atraindo pessoas tão ou mais singulares que si para orbitarem em sua atmosfera peculiar.
Moço das palavras mais jogadas do que ditas, rabiscava frases incompreensíveis por outros olhos que não os seus, embora vez ou outra tenha desejado ser ousado o bastante para se mostrar por inteiro. Para se permitir.
Sem grandes pretensões além de seguir vivendo à sua maneira, ele passou pela vida cheio de “não precisa me entender, apenas respeite” ou “esse é quem eu sou, aceite ou dê meia volta”, não tão arrogante como pode parecer, eu garanto.

Caminhando sempre apressado com seus fones de ouvido e tragado pela música para um universo somente seu, ele nunca imaginou que numa esquina qualquer da vida alguém estaria esperando por ele. Nunca ousou esticar o pescoço para ver se esbarraria em alguém, até o esbarrão propriamente dito acontecer.

Não foi um baque de todo impactante, foi sutil. Foi leve feito pluma solta ao vento. Foi o motivo para lhe tirar um sorriso tolo que não deixou mais seu rosto nos dias que se seguiram.
Ele percebeu que havia falhas em suas linhas, feito um tracejado para crianças contornarem e descobrirem a imagem, e essas falhas rapidamente passaram a ser preenchidas. Ele então se viu não mais cheio do que poderia ser, não transbordando para sobrar, mas na medida ideal.
Entendeu que faltava alguma coisa que nem sabia que lhe faltava. Compreendeu que ventos bons podem trazer certas surpresas.

Agora toda noite antes de cerrar os olhos para dormir ele pensa:
- De repente, não estou sozinho.

Amor em conta-gotas

| quarta-feira, 23 de abril de 2014


♪ Pode ser assim como um beijinho de passarinho
De uma leveza perspicaz
Quando eu dou por mim
Eu não estou mais tão sozinho... 

O sol ainda não havia se decidido se iria se deitar lá no poente e a lua toda impaciente o encarava com um quê de quem tem mais o que fazer além de ficar esperando, mas toda essa implicância que acontece lá no alto, entre as nuvens sorrateiras, não faz diferença ao que se passa aqui embaixo, em solo firme.

Caminhei com ela até em casa, achei a coisa mais cavalheiresca a se fazer depois de uma tarde incrível ao seu lado. Sabe aquela coisa de se sentir à vontade na presença de outra pessoa? Bem, foi até mais do que isso, parecia que ela estudara um roteiro previamente escrito de tudo o que conversaríamos e sabia completar as frases que eu mais me complicava em dizer.
Até os versos das músicas que eu murmurava ininteligivelmente ela sabia completar. Nunca vi as horas trabalharem de maneira tão eficaz e sigilosa, mal percebemos o tempo passar veloz pela nossa frente, como se fugisse de algo alheio a nossa percepção.

Deixei-a sã e salva diante de sua casa, com um sorriso besta pregado em meu rosto e o cérebro dando nó enquanto tentava encontrar as palavras certas a dizer naquele instante, por fim acabei expandido meu sorriso numa careta e engoli em silêncio o adeus que ela me deu. Nunca fui capaz de entender sinais e coisas do tipo, então não me atrevi a beijá-la, pois não sabia como isso seria recebido por ela.
Não gosto dessas paixões devastadoras como furacões, resolvi que quero me apaixonar lentamente, um pouquinho de cada vez, sem pressa. Não quero me atirar em um abismo de incertezas sem saber ao menos o que me espera lá embaixo.
Posso não estar tomando a decisão mais acertada, mas meu coração me diz que é assim que tem que ser, que é assim que deveria ter sido todas as outras vezes. A vida tem disso, de nos ensinar pequenas lições as quais nos julgamos superiores demais para aprender e apreender, talvez seja hora de dar mais valor a isso.


Acenei uma última vez antes de dobrar a esquina. Ela ainda estava no portão me observando. O sol também acenou sua despedida e a lua arrastou seu brilho todo pelo céu. Amanhã é outro dia. Dia de se apaixonar um pouco mais. 

O espetáculo da vida alheia

| quarta-feira, 5 de março de 2014


- Olhe só, lá vai aquele afeminado do filho da Lúcia, que roupa mais extravagante é aquela? Deus me livre! – Ofélia murmurou consigo mesma enquanto observava o rapaz por detrás da cortina da janela da frente. Achava um descaramento o menino andar com calças jeans tão apertadas e camisetas com estampas coloridas demais para dias comuns – Não sei como ele não tem vergonha.
Perdeu-o de vista logo a tempo de ver Lucília encostar-se à fachada da casa, do outro lado da rua, com um livro na mão.
- Aquela é outra tonta solitária, não desgruda a cara dos livros e acha que vai encontrar um namorado, coitadinha! – a velha resmungou e soltou estalidos de desaprovação com a boca.
A televisão estava sintonizada em um canal que vivia à custa de fofocas sobre celebridades, comentando os deslizes e comportamentos imorais dos famosos. A velha lançou o olhar por cima do ombro e viu na manchete a foto de uma atriz que havia sido pega traindo o marido com o diretor da novela, que obviamente também era casado.
Ofélia perdeu o interesse na moça e seu livro quando o solteirão da rua com seus trinta e poucos anos passou caminhando pela calçada.
- Este é outro que deve jogar no mesmo time do menino da Lúcia, já vi os dois de papinho numa noite dessas... solteiro nessa idade, não pode ser um bom sujeito – o homem fora o último a se mudar para a rua, ainda se via perdido e não conhecia quase ninguém, mas era educado com todos – Pobre Lucília! – a velha exclamou ao perceber o olhar encabulado que a moça jogava ao rapaz.
Mudou de posição no sofá, suas costas começavam a doer, mas continuou a observar como sempre fazia. Observava e comentava com seus botões que concordavam em silêncio com tudo que ela dizia.
- Aquele ali anda traindo a coitada da Paula...
- Sr. Odilon descobriu que está com câncer de próstata, Deus o ajude!
- Olhe lá, a Beth tentou imitar o corte de cabelo da mocinha da novela e ficou parecendo uma maritaca depenada...
- Olha o drogado do filho da Rosana. Deus me livre!
- Quem é aquele moço conversando com a Tina? Só pode ser mais um rolo dessa safada!
A TV exibiu outro caso de adultério, uma prisão por posse de drogas e o acidente de um cantor que dirigia embriagado. Ofélia murmurava ininteligível ao ouvir cada história.
- Já fiquei sabendo que a Adriana está querendo o divórcio, aquele marido dela não pode ver um rabo de saia que já fica todo assanhado...
- A nova namorada do Luquinha é uma gracinha, mas é tão burrinha, coitada...
Assim Dona Ofélia passava as manhãs antes do almoço, as tardes antes do chá e a noitinha antes da janta, observando analiticamente as pessoas que viviam ao seu redor. Quando ia para cama comentava com seu velho suas teorias mais interessantes e interpretava suas respostas monossilábicas como um sinal de apoio.


- Apareceu uma mocinha hoje, lá pelas quatro horas querendo me fazer umas perguntas, disse que era de um tal de IBGE. Aqui pra ela – disse Ofélia ao marido e fez um gesto com os braços – Não quero ninguém se metendo na minha vida. Deus me livre!

Diferente do que costumo escrever, essa foi uma crônica/crítica do cotidiano e daquelas pessoas que adoram cuidar mais da vida dos outros do que das próprias.

Lucília tem uma história só dela, clique no nome da moça e dê uma espiada também

Cante para mim

| quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

 (…) And when you speak, angels sing from above
Everyday words seem to turn into love songs…

Cante uma canção para mim, rime beijo e alecrim e me faça suspirar. Cante mi, baixo sol e lua em fá. Conte estrelas sem dó, roubando o brilho só para si. Cante cá e cante lá, do avesso ou cante em ré. Simplesmente cante.

Rabisque meu nome junto ao seu em verso e prosa, costure a poesia entre vírgulas e embrulhe tudo em fina seda. Enlace com fita de cetim e sopre um beijo no nó.
Toque as cordas de seu coração, pulsando no ritmo e compasso de nosso ser. Seja trovador e eleve a voz.
Cante apenas canção serena para em meu ouvido habitar, me ensine a letra e melodia e me prenda no refrão.
Cante baixo, cante alto, cante em tom ou semitom.
Faça-me dormir no embalo desse som, carregue-me em sonhos e aqueça o violão.
Toque a nota, nota toque-me, toque lira e violino. Nine minha alma nesse trino.
Cante como um passarinho, um rouxinol que sai do ninho louco pra poder voar.

Venha assim, bem de mansinho, emudece meu silêncio e me faça entoar, esse som tão bonitinho inspirado em me amar. 

Porque a música inspira!

O calor de Clarissa (+18)

| segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014


A noite quente alisava a pele de Clarissa, o ardor sibilava em seus pensamentos luxuriantes enquanto ela pensava que a única coisa que lhe faltava era um homem que a fizesse se sentir uma mulher. Um homem que a segurasse com força terna e fustigasse seu corpo com o suor do seu.

Clarissa sentiu que necessitava sair da cama morna e morosa e arrastar-se pelos becos sombrios e avenidas convidativas. O que sua mãe diria diante de tal imprudência? O que suas amigas pensariam daquele impulso destemido? Logo ela que sempre se escondera atrás de um sorriso inocente, sempre fugindo das conversas mais tórridas dos colegas de trabalho, sempre desviando-se de seu próprio prazer... mas já bastava.
Agora ela queria lançar-se sobre o mundo, prendê-lo entre suas pernas e berrar que a invadisse. Ela queria perder a máscara pueril pelo caminho mais devasso que pudesse haver e rasgar as privações que se auto impusera.

Botou um vestido curto, nada de esconder suas vergonhas naquela noite. Soltou os longos cabelos cacheados e impregnou-se do melhor perfume. Sorriu maliciosamente para o espelho, passando a língua nos lábios rubros. Lá fora, a lua cheia pareceu encher-se mais de brilho ao bater os olhos na donzela faminta por perigo. O vento cálido lambeu a pele lisa das pernas da moça e ela pôs-se a caçar.

No bar mais badalado da cidade, desfilou por entre os homens, atiçando-os. Fazendo-os crescer em suas calças. Convidando-os. No balcão, bebia uma bebida colorida qualquer, brincando com o canudo com a língua, desviando de alguns olhares, se entregando a outros. O rapaz esbelto e de sorriso fácil por trás da barba por fazer sentou-se a seu lado e perguntou se podia lhe pagar um drink. Ela deu de ombros como se não fizesse muito caso – a arte da sedução começa por demonstrar desinteresse, certa vez ouviu alguém dizer.

O apartamento dele cheirava a desodorante barato. O quarto estava desarrumado e a cama com os lençóis revirados, mas ela não se importou. Assistiu com muita excitação o rapaz despir-se, indicando que compartilhava daquela sensação despudorada, apontando seu membro em sua direção, como um convite para a tentação. Deixou que ele arrancasse seu vestido e a atirasse na cama que soltou um rangido de protesto, que foi totalmente ignorado. Ela montou em seu companheiro, seguiu o ritmo dos movimentos que ele ditava e cravou as unhas na pele dele conforme os segundos se passavam. Sentiu sua presença dentro dela, cavando cada vez mais fundo, desbravando seu interior. Arfou demoradamente, perdendo o fôlego quando atingiu o clímax, apertou-o ainda mais contra seu corpo e sentiu um espasmo rápido.


Em sua casa, na manhã seguinte, Clarissa bebericava em sua xícara de café, inerte em pensamentos. O que o pessoal do serviço pensaria? Como suas amigas reagiriam? E sua mãe, o que sentiria em relação à filha? Bem, ela não precisava se preocupar, ninguém ficaria sabendo, pois estava mais uma vez vestindo a máscara da pureza, escondida atrás do véu da inocência e desvencilhando timidamente das conversas de corredor.

Certo, sorridentes, aventurei-me pelas linhas sinuosas da lascívia mais uma vez, é interessante percorrer esses caminhos em meus escritos, espero que gostem.  

Céu de champanhe

| quarta-feira, 15 de janeiro de 2014


(...) Vem cuidar de mim, vamos ver um filme,
ter dois filhos, ir ao parque, discutir Caetano.
Planejar bobagens.
E morrer de rir.

Revisitei as lembranças como quem, anos depois, entra novamente na primeira casa em que morou. Assoprei o pó da velha mobília, que dançou pelo ar e enroscou-se em mim como uma cortina dada a abraços inesperados. Arrastei os sapatos pelo assoalho batido, arranhando o antigo chão pisado e lambido pela solidão. Agarrei pelo cangote aquela memória ofuscada que fugia por debaixo do lusco-fusco na pontinha dos pés.
Observei, como quem vê o nascer do sol pela primeira vez, você surgir por detrás do véu do tempo, tão mais nova, cabelos sorridentes ao toque da luz, me olhando encabulada, daquele jeito de menina que tem vergonha de dizer o que está pensando. Fiz um gesto para que se aproximasse e você veio, os olhos brilhando acima de qualquer constelação.

- Ei, onde você estava? – ela me perguntou, roubando-me de meu devaneio com gosto de mel.
- Dei um pulo no passado e te conheci mais uma vez – respondi.
- Ah, é?! E o que você me trouxe de presente de lá? – seus olhos me sorriram ao perguntar.
- Trouxe para você uma pétala que apanhei ao vento, só para fazer cócegas no seu dia morno.
- É um belo presente, obrigada, seu moço.
- Não por isso, minha moça.

Deixei-me levar pelo som de seu riso suave e flutuei até as nuvens de algodão-doce. Seu toque quente abrasava minha pele como a própria paixão incandescente em meu peito fervilhava por minhas veias.
Não me ensinaram na escola que o tal do verbo amar podia ser tão delicioso de se conjugar, também não me disseram que uma vida no plural tivesse um perfume tão penetrante. Aprendi essas lições básicas com ela, minha paciente professora que me tomava pela mão e recitava o abc do amor, de um modo meio inseguro, como um piloto se encorajando em seu primeiro voo solo.

- Onde estava você naqueles meus dias frios de solitude? – indaguei.
- Parada na mesma esquina de sempre, só que a alguns quarteirões no futuro.
- Se eu tivesse te encontrado antes, minha moça, poderíamos ter colecionado muito mais recordações.
- Temos uma vida toda pela frente – ela argumentou vestida de convicção – e o que não acontecer, a gente inventa – acrescentou contendo um sorriso travesso.
- Que não nos falte vida nem criatividade então – segurei uma taça invisível no alto e ela brindou a isso.

O crepúsculo manchou o céu num tom de rosa escuro como se um deus desastrado tivesse derramado uma garrafa de champanhe rosé lá pelas bandas do horizonte. O sol já murmurava um inconsolável até logo e algumas estrelas mais ousadas espiavam atrás da cortina, esperando impacientes sua vez de entrar em cena.
Ela soprou algo que não estava em sua mão e fingiu observar a coisa desaparecer de vista.

- Deixe a pétala cavalgar no vento – ela explicou ao ver minha testa franzida – Meu maior presente é ter você comigo, seu moço.
- Que ela seja muito feliz em sua corrida – acenei um breve adeus à pétala que somente nossos olhos podiam ver – assim como eu sou feliz ao seu lado.
Brindamos novamente e deixei-me cair em seus braços e mergulhar em seus lábios num beijo com gosto de tardes de outono. Apertei os olhos e guardei aquele momento no bolso para saboreá-lo em outros dias, como o último pedaço de um bolo de aniversário que a gente come a pequenas mordidas na esperança de fazê-lo durar.


E que dure por muito tempo. 
Um brinde a isso. 

Minha pessoa preferida

| segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

(...) Eu tenho mil amigos,
mas você foi o meu melhor namorado...

Até algum tempo atrás eu poderia jurar que se houvesse eternidade eu a passaria ao seu lado, mas nunca podemos prever os rumos que a vida vai tomar nem as decisões que faremos.

Nunca vou me esquecer de como nos conhecemos, tão ao acaso naquela festa de final de ano, onde poucos amigos me sorriam e então ele surgiu vestido com uma camisa branca, bermuda azul cor de céu limpo e chinelos, totalmente diferente de todos os outros naquele lugar elegante. Sorriu para mim, desejou-me um simpático “feliz ano-novo” e ergueu a taça de champanhe brindando com o vento, devolvi o sorriso, o cumprimento e exibi meu copo com refrigerante. Tão simples.
Conversamos por horas a fio, ignorando completamente os demais presentes. Ele era educado, engraçado e charmoso. Discutimos nossos gostos em comum e puxa vida!, como tínhamos vários. Eu gostava de música clássica e ele tocava piano, sou fã de O Senhor dos Anéis e ele tinha a versão estendida do filme, adoro animais e ele tinha dois cachorros em casa.
Depois daquele dia passamos a nos ver com frequência. Quase me afoguei babando quando ele tocou uma composição sua só para mim, passei as mais longas e perfeitas horas a seu lado assistindo a gigantesca versão dos filmes e as mais lindas tardes no parque caminhando com seus cães.
Não me lembro de gostos de sorrisos mais doces do que os que provei enquanto estive com ele. Minha família gostou dele, como não poderia ser o contrário e a família dele também gostou de mim. Lembro-me de tantos detalhes que preferia esquecer. Lembro-me do seu cheiro que se tornou parte de mim depois de tantos abraços, lembro-me do seu sabor depositado em cada beijo, lembro-me de cada pequeno fragmento dos tempos mais felizes de minha vida.

Não sei dizer se o tempo não foi certo, se nossos caminhos estavam traçados nas contas do destino até certo ponto ou se nossa história ainda está sendo guardada para mais tarde, não sei nada disso, apenas sei que houve desgaste, houve lágrimas e frustração. Sei que ele e eu não estamos mais juntos e não há tantos motivos que provem o porquê disso. Também não posso dizer se é melhor assim, não me acostumo a vê-lo com outras.
Ainda que nossa história jamais volte a preencher a mesma página, eu sempre vou levá-lo no peito, como um sonho bom, dos quais não queremos acordar.

Mesmo que eu prove outros sabores, ele vai ser sempre o meu favorito. O meu sorriso mais bonito. A minha lembrança mais delicada.

(...) Depois de você, os outros são os outros e só.
 

Copyright © 2010 A arte de um sorriso